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Cronologia das torcidas organizadas (I): Dragões da Real – torcida organizada do São Paulo Futebol Clube

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

* Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

O São Paulo Football Club foi fundado em 25 de janeiro de 1930, por ex-sócios, dirigentes e jogadores do C.A Paulistano (1900) e do A.A Palmeiras (1902). Após ser extinto em 14 de maio de 1935, o clube foi recriado em 16 de dezembro do mesmo ano. Quatro anos depois, em 1939, deu-se a criação da torcida “Grêmio Tricolor”, uma associação de torcedores composta por dirigentes e jogadores do clube. Esta viria a ser o embrião da TUSP, acrônimo para a Torcida Uniformizada do São Paulo.

O grupo foi pioneiro no “torcer organizado” no país e passou-se a reunir de maneira regular nos estádios, trajando camisas brancas com o escudo do São Paulo ao centro, cuja inscrição continha os dizeres “Grêmio São-Paulino”, bordado ao redor do uniforme. Porfírio da Paz e Laudo Natel, entre outros eminentes associados do clube, foram as principais lideranças dessa torcida entre as décadas de 1940 e 1950.

Voltando à história do clube, em 2 de outubro de 1960 inaugurou-se parcialmente o estádio Cícero Pompeu de Toledo, vulgo Morumbi, na época o maior estádio particular do mundo, cujo projeto circular foi formulado pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Antes da sua construção, o São Paulo realizava a maioria de seus jogos no Estádio Antônio Alonso, na Rua da Mooca, não mais existente. Em seguida, adotou o estádio municipal do Pacaembu. Chegou ainda a comprar o Canindé, que mais tarde foi vendido à Associação Portuguesa de Desportos. Apenas no mês de janeiro de 1970, o Morumbi veio a ser inaugurado completamente, no formato que hoje é conhecido.

Durante a “Era Morumbi”, em 1972, foi fundada a Torcida Independente, uma dissidência da TUSP. Durante aquele decênio, além da TUSP e da Independente, surgiu uma série de novas torcidas, tais como: a Força Total, a Juventude Tricolor, a Pantera Tricolor, a Caveira Tricolor, a Dragões do Mais Querido, a Real Força Inflamante Tricolor e a Coração Tricolor.

Em 1979, as três últimas citadas resolveram se unir. A ideia inicial era criar um novo nome e especulou-se então “Torcida Jovem Tricolor”. Entretanto, a nova diretoria chegou ao entendimento de que o melhor seria fundir o nome de diversos grupos: “DRAGÕES” (de Dragões do Mais Querido) uniu-se a “REAL” (de Real Força Inflamante Tricolor), ao que foi acrescentado o “TORCIDA JOVEM”. Estava assim criada a agremiação: DRAGÕES DA REAL TORCIDA JOVEM.

O nome “Dragões” foi mantido por ser considerado um animal místico e sobrenatural. A motivação também deveu-se ao grande número de associados migrantes, de origem asiática (os orientais possuem forte ligação com os dragões), como os chineses. “Real” foi mantido por estar associado à ideia de realeza, que sublinharia a característica diferenciada da torcida são-paulina. Por fim, “Torcida Jovem” foi cunhada para atender à novidade da agremiação que emergia, constituída por extratos juvenis.

No início, a camisa oficial da torcida era o uniforme número 1 do clube. A inscrição da entidade era decalcada em letras pretas nas costas. As camisetas, integralmente vermelhas, assim usadas até hoje, apareceram em 1981. Entre 1979 e 1984, por sua vez, outras torcidas dos anos 1970 foram-se fundindo a Dragões, dentre elas: a Pantera Tricolor, a Garra Tricolor e a Torcida Jovem Atuante Tricolor.

Em princípios dos anos 1980, foi fundada a Torcida Força Jovem do Mais Querido. Até 1984, duas outras torcidas se uniram à Força Jovem: a Vulcão Tricolor e a Garotos do Tricolor. Ainda em 15 de junho daquele ano, ocorreu a união das duas torcidas, formando então a configuração final da DRAGÕES DA REAL FORÇA JOVEM.  Impulsionada pelo bom momento vivido pelo São Paulo nos primeiros anos de fundação da torcida, a Dragões logo cresceu, agregou muitos associados e passou a realizar caravanas para outras localidades.

No final dos anos 1980, junto à queda de desempenho do São Paulo FC em campo, a torcida atravessa dificuldades econômicas. Esta má fase acarretaria a perda da sede da torcida na Rua Cásper Libero, no centro da cidade.

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Sede da torcida. Entrevista com André Azevedo, presidente da torcida Dragões da Real.

O início da década de 1990 é marcado pela conquista são-paulina de diversos títulos, quer seja em âmbito regional, nacional e internacional. Em decorrência disto, pesquisas realizadas por institutos e órgãos de opinião pública apontam para um crescimento da torcida tricolor, que, segundo dados estatísticos, até o final do decênio ultrapassa em quantidade o número de torcedores do Palmeiras. Torna-se assim a segunda maior torcida no Estado de São Paulo e, no país, passa a ocupar a terceira posição, atrás de Flamengo e Corinthians.

No início dos anos 1990, a torcida edita o “Jornalzinho da Dragões”. Em 1992, consegue readquirir uma sede, desta feita localizada na Avenida Prestes Maia, onde encontra-se até hoje.

Em 1995, após a “Batalha do Pacaembu” – conflito entre torcedores do São Paulo e do Palmeiras, de que participaram integrantes da Dragões –, uma portaria da Federação Paulista de Futebol, com o apoio do Ministério Público e da Polícia Militar de São Paulo, impede a entrada de faixas, bandeiras e uniformes identificadores das torcidas organizadas nos eventos esportivos do Estado. Em virtude disto, a Dragões permanece certo tempo sem frequentar oficialmente os estádios. Não obstante, durante este período de interdição, a torcida se identificava nos estádios paulistas com camisetas e com dizeres intitulados: “Uma vida de amor ao São Paulo FC”.

Quatro anos depois, em 1999, associados da Dragões resolvem novamente reerguer a agremiação. Em 17 de março de 2000, por iniciativa de associados da torcida que frequentavam escolas de samba, é fundado o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dragões da Real. Logo em seu primeiro ano de desfile, a torcida é campeã de uma divisão de acesso do carnaval paulista.

Enquanto isso, no âmbito do futebol, a Dragões da Real consegue em 2003 uma liminar na justiça, que autoriza novamente o uso de faixas e camisetas de identificação da torcida nos estádios. Em dezembro de 2008, no entanto, uma fatalidade abala a torcida: Nilton César de Jesus, então presidente de honra da torcida, é assassinado nas imediações do estádio Serra Dourada, em Goiás, após tiro disparado por um policial militar de Brasília.

Em 2012, a escola de samba Dragões da Real, comandada por Renato Remondini, o Tomate, ex-presidente da torcida, fez a sua estreia na elite do carnaval paulistano, após ascender por vencer diversas divisões inferiores. Começa assim uma sequência de desfiles e disputas com escolas-torcidas identificadas com equipes rivais, a exemplo da Gaviões da Fiel e da Mancha Verde.

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Renato Remondini (Tomate), presidente da Escola de Samba Dragões da Real.

Estruturada como escola e como torcida, a Dragões da Real participa de um programa de intercâmbio Brasil-Alemanha, com a recepção a torcedores alemães. Em 2014, a torcida, por iniciativa de seu presidente André Azevedo, recebe esse grupo de torcedores de vários times da Alemanha, em São Paulo, em uma parceria com instituições e autoridades de ambos os países. Na sequência, André viaja em uma comitiva de torcidas organizadas brasileiras para conhecer a rotina das torcidas alemãs e o projeto institucional conhecido como Fan Project.

Além disso, vale registrar algumas características do grupo. Dentre elas, pode-se dizer que uma das tradições cultivadas pela Dragões são os bandeirões. Em 27 de fevereiro de 1994, no Morumbi, estreou o primeiro deles. Dez anos depois, mais precisamente em 22 de junho de 2005, com a danificação do primeiro bandeirão, em decorrência das reformas por que passou o Morumbi na década de 1990, a torcida inaugurou a sua segunda bandeira de projeções gigantes. Em 2009, a Dragões fez seu terceiro bandeirão. Já em 2010, a torcida investiu em um “camisão”, que imita a camisa retrô da torcida nos anos 1980.

Quanto à localização espacial da torcida no Morumbi, é possível dizer que durante os anos 1980 a Dragões ficava ao lado das cabines de televisão do estádio, junto ao setor vermelho das arquibancadas e próximo à grade de separação com o setor amarelo. Depois, para ficar defronte às câmaras de televisão, a torcida passou para o outro lado das tribunas, na separação entre as arquibancadas azul e laranja. Após voltar oficialmente aos estádios em 1999, a torcida passou a se localizar rente à grade de separação das arquibancadas azul e amarela. A partir de 2006, por determinação da Federação Paulista de Futebol e por imposição da Policia Militar, que determinaram o confinamento das torcidas organizadas em somente um setor do estádio, a Dragões passou a se postar nas arquibancadas laranjas.

No que concerne à estrutura organizacional, a Torcida e a Escola de Samba possuem estatutos jurídicos autônomos. A despeito da separação formal, tanto a sede social como a quadra são propriedade da torcida. Esta possui 14 mil associados e 42 subsedes distribuídas em todo o Brasil. As eleições da diretoria ocorrem a cada dois anos. O presidente só pode se reeleger uma vez, exceto quando não há outras chapas.

Em virtude dessa exceção, André Azevedo está em seu terceiro mandato, o que corresponde ao seu sexto ano como presidente. A torcida realiza ações sociais e uma série de doações filantrópicas. Atualmente, evita entoar cânticos que exaltem a violência. Existe um fórum aberto na internet que recebe sugestões para novas músicas nos estádios. Com capacidade de articulação política, o presidente da torcida fez parte da CONATORG e é o atual presidente da ANATORG, a Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil, criada em 2014 e apoiada pelo Ministério do Esporte.

Embora cultivasse elos com dirigentes do clube no passado, a torcida não possui mais tais vínculos, o que decorre em parte das críticas da imprensa e do estigma da violência que lhes é atribuído. O clube ainda cede, no entanto, uma sala no Morumbi para o depósito e a guarda dos bandeirões.

Em termos financeiros, a Dragões sobrevive principalmente da contribuição dos sócios, da promoção de festas e da venda de materiais aos associados. A torcida ainda não tem patrocínio e os torcedores têm de pagar o ônibus para as viagens. A gratuidade apenas ocorre quando o jogo se realiza no Morumbi. O presidente André afirma que, dado o estigma, é mais fácil existir como escola de samba do que como torcida organizada. No samba, a seu juízo, há a ausência de preconceito por parte da opinião púbica. As agremiações carnavalescas podem assim alocar recursos públicos e privados no carnaval, favorecendo a institucionalização da torcida como escola de samba.