73.2

Dunga, sua frase racista e o que mudou de 1994 pra cá

Paulo Nascimento

Após a disputa de pênaltis entre Colômbia e Argentina pela Copa América, fui acompanhar internet afora as repercussões da partida e vi algo mais sinistro que a cobrança do colombiano Murillo, que mais pareceu um tiro de meta. Tratava-se de Dunga, há muito zangado com as questões apresentadas pela imprensa brasileira, que perdia a oportunidade de ficar calado e dava fortes indícios de que além de zangado, é racista. Ao sair em defesa da atual geração de jogadores brasileiros, Dunga relembrou a pressão que os atletas da geração de 1994, da qual ele fez parte, sofreu. Em provável alusão às críticas que a imprensa dirige a ele, saiu-se com essa: “Eu até acho que sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham pra mim ‘Vamos bater nesse aí’. E começam a me bater, sem noção, sem nada. ‘Não gosto dele’ e começam a me bater[1]”.

Poderia ser apenas mais uma pérola dita por um treinador de futebol em uma coletiva de imprensa que deixa mais constrangido quem ouve do que quem fala. E que muitos creem que vá se perder no esquecimento, graças à blindagem do conservadorismo tacanho que insiste em resistir entre jogadores, técnicos, torcedores e demais envolvidos com o futebol. No entanto, horas depois o mesmo Dunga teve que se retratar por meio de uma nota publicada no site da CBF. Na nota, se desculpava com todos os que se sentiram ofendidos com suas declarações e quis emendar dizendo que a maneira como se expressou não reflete seus sentimentos e opiniões[2]. Se a emenda não saiu pior que o soneto, revela diferenças entre os anos 1990 e os dias atuais que vão além das quatro linhas.

O técnico Dunga chega para a coletiva de imprensa no estádio Municipal de Concepción Chile, Sexta-feira, Junho 26, 2015. A seleção brasileira enfrenta o Paraguai pelas quartas de final da Copa América 2015, neste Sábado, 27. Foto Leo Correa/Mowa Press

O técnico Dunga chega para a coletiva de imprensa no estádio Municipal de Concepción. Foto Leo Correa – Mowa Press.

Dunga sabe que não é “afrodescendente”. Sua frase racista indica que a síndrome persecutória e a ironia agressiva que sempre foram suas marcas continuam presentes. Suspeito que ele em algum momento pensou que dizer “afrodescendente” no lugar de negro, preto ou crioulo o blindaria de eventuais críticas. É isso o que costumam pensar aqueles que reclamam da atual vigência do politicamente correto, que tudo se resume ao uso das palavras e que basta uma ginástica de vocábulos para não serem importunados. No entanto, se é o pensamento tacanho o que constitui o posicionamento ético e a visão de mundo algumas pessoas, não há jogo de palavras que resista. O verniz que já os protegeu não mais esconde seus valores patriarcais, machistas, classistas, homofóbicos e por aí vai.

É essa a principal diferença que noto entre os anos 1990 e os dias atuais. Se dentro de campo alegam que a atual safra de jogadores não empolga, fora dele vemos cada vez mais manifestações racistas serem combatidas, venham de onde vierem. O fato de Dunga ter sido obrigado a emitir um mea-culpa horas depois de sua fala racista me soa como exemplo disso. Se a resistência a pensamentos libertários no futebol persiste, também é verdade que nunca foi tão forte a demanda por posturas mais progressistas daqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos com o esporte – inclusive denunciando práticas e declarações racistas.

Queiram ou não os conservadores que se apegam ao futebol como sua última trincheira reacionária, as duas décadas que se passaram da conquista do tetra pela seleção vieram com cotas raciais, PEC das empregadas domésticas e casamento igualitário entre pessoas do mesmo sexo, só pra ficar em alguns exemplos. E no que tange especificamente às relações raciais, o quadro atual é de empoderamento crescente de negras e negros brasileiros, cientes de que suas reivindicações não são favores, mas sim direitos. E que piadas, ironias ou demais gracinhas que lhe soem ofensivas são violências que precisam ser coibidas e punidas. Não tem volta.

Dunga durante treino do Brasil. Foto: Heuler Andrey - Mowa Press.

Dunga durante treino do Brasil. Foto: Heuler Andrey – Mowa Press.

Há algum tempo escrevi nesta “Arquibancada” sobre o conceito de gamesmanship[3]; resumidamente, trata-se de recursos que estão à disposição dos jogadores em uma partida que não infringem as regras, mas são altamente contestáveis – como provocar os brios do adversário chamando-o de perna-de-pau. Ou de macaco. Se à época defendi que manifestações racistas não deveriam ser consideradas como algo menor, sob alegação de serem só “coisa do jogo”, componentes desse gamesmanship, fico satisfeito em ver que a paciência diante destas manifestações racistas é cada vez menor. Trata-se de incontestável fruto da militância do movimento negro que em alguma medida oferece horizontes otimistas.

No mais, digo com bastante tranquilidade e conhecimento de causa: não há relação nenhuma entre ser negro e ser masoquista, Dunga. Se a leitura que você faz de suas escolhas profissionais é de alguém de gosta de apanhar – o que pode mesmo ser o caso -, aplique seu masoquismo para si e faça bom proveito.

[1] “’Acho que sou afrodescendente, gosto de apanhar’, diz Dunga sobre críticas”. Site UOL Esporte. Publicado em <http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2015/06/26/dunga-defende-geracao-atual-e-lembra-jejum-de-40-anos-sem-copa-america.htm>. Último acesso em: 30/ jun/ 2015.

[2] “Dunga pede desculpas após declaração sobre afrodescendentes”. Site UOL Esporte. Publicado em <http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2015/06/26/dunga-pede-desculpas-apos-declaracao-sobre-afrodescendentes.htm>. Último acesso em: 30/ jun/ 2015.

[3] “Racismo e homofobia não fazem parte do jogo”. Site Ludopédio. Publicado em <https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/racismo-e-homofobia-nao-fazem-parte-do-jogo/>. Último acesso em 30/ jun/ 2015.

Como citar

NASCIMENTO, Paulo. Dunga, sua frase racista e o que mudou de 1994 pra cá. Ludopédio, São Paulo, v. 73, n. 2, 2015.