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E quem olha para a torcida na hora do pênalti? – O caso dos vídeos dos torcedores durante o jogo Flamengo 2 x 2 Palmeiras

Max Filipe Nigro Rocha

É sintomático que a cobertura da dita grande imprensa a respeito do comportamento das torcidas se restrinja apenas a eventos que envolvem brigas, confusões e agressões – quando não mortes. Essa seletividade, penso eu, é parte integrante do apoio que esses meios de comunicação oferecem à política de repressão policial em relação aos torcedores que ocorre dentro e fora dos estádios brasileiros.

A quem diga que esses meios de comunicação na verdade enaltecem a classe torcedora e a beleza do espetáculo que ela proporciona, mas isso não é verdade. O movimento que ocorre é uma seletividade e uma despolitização sistemática do papel dos torcedores por meio do estabelecimento de regras de conduta que contribuiriam para o espetáculo – nesses termos, televisivo.

Dessa forma, elege-se um arquétipo de torcida “legítima” que em nada condiz com a prática cotidiana do torcer. A paixão clubística, a emoção em caso de vitória e a dor da derrota são valores buscados constantemente pelas narrativas da imprensa para exemplificar o que viria a ser o “verdadeiro torcer”. Presos nessa narrativa das tradições, não constatam mudanças interessantes ocorridas nas arquibancadas das – agora – arenas esportivas. Mudanças essas que são concretizações das propostas desses mesmos meios formadores de opinião.

A prerrogativa do espetáculo, do produto futebol, também pode ser encontrada nas camadas torcedoras que frequentam o estádio. Um bom exemplo disso foi o ocorrido no último jogo entre Flamengo e Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro de 2017 ocorrido na noite de 19 de julho na Ilha do Urubu, o novo estádio do rubro-negro carioca localizado na Ilha do Governador. Aos 27 minutos do segundo tempo Geuvânio entra pela direita na grande área e é derrubado por Michel Bastos. Diego vai para a cobrança, bate à meia altura no canto direito e Jailson defende. Até aí, nada de novo. Mérito do goleiro do Palmeiras e segue o jogo. O fato surpreendente, embora não seja exatamente uma novidade, foi o número gigantesco de torcedores flamenguistas que filmavam a cobrança com seus celulares, como é possível observar nas fotos.

O goleiro Jailson, da SE Palmeiras, defende pênalti em jogo contra a equipe do CR Flamengo, durante partida válida pela décima quinta rodada, do Campeonato Brasileiro, Série A, no estádio Luso Brasileiro.

O goleiro Jailson, do Palmeiras, defende pênalti em jogo contra o Flamengo. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

O goleiro Jailson, da SE Palmeiras, comemora defesa pênalti em jogo contra a equipe do CR Flamengo, durante partida válida pela décima quinta rodada, do Campeonato Brasileiro, Série A, no estádio Luso Brasileiro.

Enquanto o goleiro Jailson, do Palmeiras, ainda comemora a defesa vários torcedores do Flamengo seguram o celular para registrar o momento do pênalti. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

 

Mais impressionante ainda é que alguns desses mesmos torcedores filmavam a cena de costas para a cobrança de pênalti como forma de registrar sua presença no evento. Sinal dos tempos, mas que o senso comum rotularia de torcedores modinha, nutella ou qualquer outro termo pejorativo moderno.

O que é necessário pensar é como a dinâmica da sociedade atual aparece nos estádios; quais suas expressões que abrangem todo o campo social, e quais as representações específicas do universo futebolístico atual.

Em uma sociedade em que as redes sociais configuram novos laços de sociabilidade, o constante registro por meio de selfies não é uma exclusividade do meio esportivo. Eventos, obras de arte e pontos turísticos são constantemente registrados dessa forma com o objetivo de comprovar que a personagem retratada na fotografia esteve em determinado local. Faça uma breve pesquisa a respeito de fotos de marcos turísticos e obras famosas como a Torre Eiffel e a Monalisa que a questão ficará ainda mais evidente.

Habitualmente compartilhadas em redes sociais, essas imagens cumprem a sua função documental e tem como espectadores a micro comunidade de pessoas conectadas ao autor da foto. Em um mundo que enaltece tanto a comprovação da experiência e a construção de um estilo de vida que simule o prazer e o lazer de forma sistemática, esses registros tem um papel fundamental de construção da narrativa da história pessoal de cada um dos indivíduos.

O futebol enquanto produto social não está desconectado dessa realidade. O registro da cobrança de pênalti por parte dos flamenguistas teria como finalidade o compartilhamento do vídeo nas redes sociais já citadas acima. Grupos de Whatsapp, páginas de Facebook e perfis de Instagram poderiam ser inundados com vídeos do gol de Diego caso o pênalti tivesse sido convertido, e dessa forma a anunciação do prazer e da experiência seriam devidamente documentadas. No entanto, o que atrapalhou a narrativa predeterminada desses torcedores foi justamente que o momento vivido pelos sujeitos históricos é sempre recheado de incertezas e possibilidades distintas.

Diferente da proposta feita por Cartier Bresson de fotografar o instante decisivo, aqueles flamenguistas que se propuseram a registrar o suposto gol de Diego não estavam atentos ao momento, à cobrança de pênalti, estavam sim mimetizando o comportamento do telespectador televisivo que experimenta a realidade mediada por uma tela digital.

 

Flamenguistas gravam pênalti de Diego

Precisamos ter cautela para não assumirmos uma postura essencialista ao condenar algumas práticas torcedoras atuais e enaltecer modelos mais antigos como supostamente genuínos ou legítimos, mas em todo caso é fundamental registrar que esse novo modo de torcer é fruto da lógica propagada pelas redes sociais por um lado, e pelos agentes que anunciam o futebol como produto a ser consumido ao invés de vivenciado.

O modelo de torcida almejado deveria ser passiva diante dos eventos esportivos e consumidora do produto adquirido. Tanto é assim que não houve repercussão, reflexão ou crítica à essa nova prática torcedora. Seja nos programas televisivos ou nos sites de notícias, a referência foi irrisória. Apenas o programa Jogo Aberto, da rede Bandeirantes, veiculou os vídeos com o intuito de satirizar os torcedores que se frustraram ao observar o lance do jogo pela tela do celular, mas só. Nos posts dos internautas a respeito do resultado do jogo (2 x 2) nenhuma menção ou observação em relação à massa torcedora que fotografava e filmava – mas não torcia nos moldes tradicionais.

Parece-nos então que, tanto para a imprensa especializada quanto para os torcedores que resolveram se expressar por meio de comentários nas páginas de notícia sobre o resultado dos jogos, o papel da torcida flamenguista havia sido de fato cumprido e que se resumiria a registrar, compartilhar e ampliar o nível de espetacularização do futebol. Estamos diante de um consenso hegemônico a respeito do comportamento das massas torcedoras.

A pergunta que resta é se diante dessa realidade do futebol das arenas modernas o décimo segundo jogador não entrará mais em campo. E com isso o papel das torcidas de apoiar o time da casa, seja com cantos, bandeiras ou vaias vai perdendo o seu espaço. Diante dessa situação, cabe perguntar qual o papel atual da torcida? Ou devo dizer, dos telespectadores?

Como citar

ROCHA, Max Filipe Nigro. E quem olha para a torcida na hora do pênalti? – O caso dos vídeos dos torcedores durante o jogo Flamengo 2 x 2 Palmeiras. Ludopédio, São Paulo, v. 97, n. 31, 2017.