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E se vencermos a copa?

Carlos Coelho Ribeiro Filho

Ao longo da história do futebol, desde a criação da Copa do Mundo, as disputas entre as seleções geraram embates históricos e a busca pelo titulo de campeão é a coroação do futebol nacional do país vencedor. Algumas rivalidades em campo se tornaram clássicas e são lembradas sempre que algumas seleções se encontram. Mas, para além das seleções e das nacionalidades dos times, um outro discurso surgiu e cresceu em torno de uma outra disputa, a dos estilos sul-americano e europeu de jogar futebol.

Na história das copas sempre houve um equilíbrio e nunca um continente havia conquistado três copas seguidas até 2006, quando então esse equilíbrio começou a ser quebrado e culminou com a terceira conquista dos europeus na copa de 2014. Fruto desse equilíbrio, o debate entre os confrontos de estilos e escolas de futebol sempre foi uma tônica bastante presente mas que tem perdido espaço em razão dos últimos insucessos dos sul-americanos e em especial de Brasil e Argentina, de quem se espera mais e que mesmo com times considerados favoritos, estiveram aquém de suas capacidades e expectativas nas ultimas copas.

No caso mais específico do Brasil, o tema parece ter desaparecido dos debates após a fatídica semifinal de 2014 e passou a ser focado na organização, ou desorganização, do futebol brasileiro. Neste sentido, o termo desorganização entrou em campo também para explicar o modo de jogar da seleção brasileira, que segundo os especialistas e comentaristas, em relação ao jogo com a Alemanha em 2014, foi uma aula de organização em todos os sentidos e que nos escancarou o quão medíocre está o nosso futebol, segundo a mídia e uma parte dos torcedores. Para eles, o selecionado brasileiro não foi capaz de jogar como o futebol brasileiro sempre jogou, com alegria, arte, improviso, o que sempre nos diferenciou dos europeus, e muito menos a equipe brasileira foi capaz de ser organizada taticamente como eles e isso, principalmente isso, foi o principal motivo de nossa derrocada.

Ramires durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Bruno Domingos / Mowa Press

Ramires durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da Copa do Mundo de 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

O discurso que desqualificava os atletas e comissão técnica foi associado a já escandalosa situação da CBF e seus cartolas e daquele momento em diante ficava claro que se nada mudasse, o futebol brasileiro estaria fadado ao limbo pois todos os outros estavam evoluindo e nós, pelo contrário, caminhávamos céleres na contramão dessa evolução. Passados quase quatro anos, é nítido e evidente que no aspecto organizacional pouco se evoluiu no futebol brasileiro haja vista os escândalos que ainda permeiam nosso futebol, clubes, federações e confederação brasileira. Mas o fato é que a Copa do Mundo da Rússia está aí e mais uma vez o selecionado brasileiro e o argentino, apesar das dificuldades de los hermanos para se classificarem nas eliminatórias, continuam figurando entre os favoritos ao título e são, indiscutivelmente, os únicos sul-americanos com possibilidades de resgatar o debate de estilos de jogo e retomar o antigo equilíbrio em títulos de Copa, hoje com a vantagem para os europeus de 11 a 9. Diante dos fatos que alimentam essa disputa continental, existe uma questão importante a ser respondida por nós, brasileiros, a partir da seguinte pergunta: e se vencermos a copa?

O brasileiro sempre se orgulhou do seu futebol, da qualidade dos jogadores, dos títulos conquistados em copas do mundo, da ginga, do drible, da malandragem, enfim de muitos predicados que nos mesmos nos acostumamos a repetir sobre nossos jogadores e o selecionado nacional. Mas esse discurso não tem sido suficiente, talvez nunca tenha sido, para explicar a nossa condição passada e muito menos a atual, mas, a possibilidade de ganhar a copa existe e é real, conforme apontam vários seguimentos do futebol inclusive as cotações das casas de apostas. O fato é que, a despeito da má gestão do futebol, dos níveis dos campeonatos e de outros tantos motivos para justificar a situação em que o futebol brasileiro se encontra, continuamos ainda a revelar jogadores de excelência para o futebol mundial e o ponto de interrogação está na dúvida se apenas revelamos ou formamos bons jogadores?

Da lista de jogadores convocados pelo Brasil para a copa da Rússia, dos 23 jogadores, apenas 3 atuam em equipes do Brasil, Cássio, Fagner e Pedro Geromel, goleiro, lateral e zagueiro respectivamente. Os demais jogadores, estão todos hoje no futebol estrangeiro e com longos períodos de permanência em equipes que disputam grandes ligas fora do Brasil e mesmo Renato Augusto que atua em uma liga pouco expressiva, a chinesa, já cumpriu o seu “estágio” de liga europeia ao passar cinco temporadas na Alemanha. Sobre os jogadores que atuam no Brasil, Cassio e Geromel, ambos foram atuar em clubes europeus antes mesmo de jogarem por equipes brasileiras da primeira divisão. Nesse debate sobre a necessidade de o jogador adquirir experiencia e crescer com vivência de uma liga europeia, o caso mais emblemático se deu com a discussão se Neymar deveria ou não se transferir cedo para a Europa para que pudesse se desenvolver mais e evoluir técnica e taticamente. Ainda sobre a convocação dos jogadores para a Copa, o técnico Tite justificou a presença do jogador Taison que, para além da sua condição técnica atual, tem no currículo mais de 80 jogos nas grandes ligas europeias – Champions e UEFA Champions League – ou seja, nossos parâmetros para o talento no futebol não estão mais pautados no antigo imaginário do estilo de futebol brasileiro e nem tão somente em sua capacidade de jogar, mesmo que por uma vida toda em terras tupiniquins, que em tempos passados do nosso futebol, foram suficientes para que chegássemos aos títulos conquistados.

durante a partida entre Alemanha e Brasil realizada no Estadio Olimpico de Berlim em Berlim na Alemanha, amistoso preparativo para a Copa da Russia de 2018.

Brasil vence a Alemanha em Berlim no amistoso preparativo para a Copa da Russia de 2018. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Se ganharmos então a copa, com que discurso justificaremos porque vencemos? Não somos organizados em nosso futebol. Nossos técnicos não têm empregabilidade no futebol que hoje é o expoente no planeta. Nossa formação não é suficiente para deixar nossos jogadores em condição de disputar em alto nível do futebol profissional a ponto de precisarem se transferir para ganhar capacidades técnicas e táticas que o nosso futebol não apresenta, enfim, aquilo que nos diferenciou um dia já não o faz mais. Nossa seleção se aprimorou jogando ao estilo de outras grandes seleções mundiais taticamente e o principal motivo é o de que todos os jogadores brasileiros estão jogando esse modelo de futebol em seus clubes fora do Brasil. A velha discussão do futebol arte versus futebol força já não cabe mais. Qual seria então o estilo que nos definiria? Se ganharmos a copa jogando como os selecionados europeus não estaríamos então ampliando a vantagem dos mesmos na contagem das copas para 12 a 9? Afinal, não estaremos simplesmente jogando o futebol do velho mundo com uma seleção sul-americana?

A justificativa para a derrota provavelmente já deve estar mais que pronta pois depois dos 7×1, o que efetivamente mudou do quadro caótico do futebol brasileiro com seus cartolas atolados até o pescoço num mar de lama de corrupções, escândalos de arbitragem, clubes falidos, futebol pouco atrativo e outras tantas mazelas, foram somente os resultados e a forma de jogar da atual seleção brasileira. Seleção essa que traz consigo ainda, uma parte significativa dos jogadores que estavam na copa de 2014. Mas em caso de vitória, qual será o discurso que justificará o hexacampeonato? No futebol dentro de campo, os resultados nem sempre são previsíveis e a vitória pode não ser a do melhor, do favorito. Aguardemos então o fim da participação do Brasil para saber responder à inquietante pergunta: e se vencermos a copa?