132.42

Economia e futebol: uma tabelinha inesperada?

Luis Meloni

O que economia tem a ver com futebol? Provavelmente não muito, certo? Errado!

Ao contrário do que pode parecer, economistas não estudam apenas como se comportam taxa de inflação, dólar e taxa de juros. Apesar destes serem assuntos com maior visibilidade, eles representam apenas uma pequena parte daquilo que economistas estudam.

Economistas são cientistas sociais e como tal se interessam em estudar o comportamento humano de maneira geral. Evidentemente, parte disso significa estudar como o comportamento humano afeta emprego, preços, salários e outras tantas variáveis que ouvimos diariamente nos jornais.

Há, no entanto, muitos outros campos onde economistas — e outros pesquisadores de áreas correlatas — fazem pesquisa. É o caso do nosso querido jogo de pelota.

Nesse breve texto, vou apresentar alguns resultados de pesquisas acadêmicas no campo da Economia sobre temas relacionados ao futebol. Vou tentar explorar tanto estudos sobre questões relacionadas ao comportamento dentro das quatro linhas quanto estudos sobre questões relacionadas ao comportamento das pessoas fora das quatro linhas que são induzidos por acontecimentos do futebol.

Foto: Thiago Cassis

Dentro das quatro linhas…

Partida fora de casa, seu time ganhando de 1 a 0, finalzinho de jogo. De repente sobe a plaquinha: 5 minutos. Quem nunca ficou revoltado com o juizão em uma situação dessas?

Embora todo mundo já tenha tido o sentimento de ver seu time prejudicado por um “juiz caseiro”, será que esse é um padrão, será mesmo que juízes tendem a favorecer os times da casa ou será que a gente tende a ter essa impressão por conta de um ou outro caso isolado?

Curiosamente, economistas já estudaram essa questão. Os dois trabalhos mais notáveis[1] que se debruçaram sobre o viés das decisões de juízes utilizaram de jogos das ligas alemãs e espanholas e encontraram resultados que não surpreendem quem já assistiu um jogo de Libertadores na vida: juízes tendem a favorecer os times da casa. Em particular, os dois estudos mostram que juízes tendem a dar mais tempo de acréscimo quando o time da casa está perdendo o jogo e tendem a encurtar o tempo de jogo quando o time da casa está vencendo por um placar apertado.

Mais interessante ainda, os dois estudos mostram que o comportamento está diretamente associado à presença de torcida nos jogos. Isto é, o viés dos juízes aumenta quando há mais torcida do time da casa e diminui quando há mais torcida do visitante. No caso da liga alemã, os autores mostram ainda que o favorecimento dos juízes acontece especialmente em estádios onde não há algum tipo de separação física entre os torcedores e os gramados.

Embora as conclusões desse trabalho não sejam lá muito surpreendentes, nem todos os estudos feitos por economistas relacionados à futebol se debruçaram sobre questões tão óbvias. Muito pelo contrário. O trabalho de um professor da Universidade da Califórnia[2], por exemplo, utilizou dados de partidas de ligas europeias para estudar quais fatores determinam o quão violentos são os jogadores dentro das quatro linhas. Os autores chegaram a um resultado super interessante: jogadores que durante sua infância/adolescência passaram por episódios de confrontos em seus países de origem têm maior chance de serem advertidos com cartões amarelos e vermelhos durante os jogos. Os resultados são consistentes com fatos documentados por diversos outros trabalhos que sugerem que experiências traumáticas na infância/adolescência podem influenciar o comportamento das pessoas por um longo período.

Muitas outras questões relacionadas ao comportamento de jogadores, treinadores e juízes já foram estudadas por economistas. Os times têm desempenho melhor quando trocam de técnico? Os jogadores melhoram sua performance após passar por times grandes? Esses são apenas alguns exemplos de outras questões estudadas por economistas sobre o comportamento das pessoas dentro das quatro linhas[3]. Há também diversos estudos que olham para os efeitos do futebol para além das quatro linhas.

Para além das quatro linhas…

Todo mundo conhece o bordão “haja coração”, talvez seja o mais conhecido dos bordões relacionados ao futebol. O que talvez nem todos saibam, é que talvez o futebol exige mesmo (literalmente!) dos corações dos torcedores. Pelo menos esse foi o resultado da eliminação da Inglaterra por sua rival Argentina na Copa de 1998[4]. Um estudo de universidades britânicas mostra que as internações por ataques cardíacos aumentaram em 25% nos hospitais ingleses nos três dias que se seguiram à eliminação do time inglês na Copa de 1998.

Talvez um resultado menos óbvio seja que o futebol tem efeito também no bolso dos torcedores. Pelo menos é o que alguns estudos acadêmicos mostram[5]. Utilizando informações sobre partidas de seleções em Copas do Mundo e em Copas Continentais, alguns estudos sugerem que a derrota de um país em um jogo importante tem um efeito negativo nos índices das bolsas de valores nos dias seguintes. Bolsas de valores sobem e descem de acordo com a expectativa dos investidores em relação à economia: quando eles acham que a economia vai mal, eles tendem a tirar dinheiro das Bolsas e buscar opções menos arriscadas, fazendo elas caírem. Por que então a eliminação em uma Copa do Mundo, por exemplo, faria investidores ficarem mais pessimistas em relação ao futuro da economia? Poderia ser o caso de uma eliminação atrapalhar as vendas em alguns setores e isso, por sua vez, poderia afetar a economia? Os autores mostram que esse não é o caso. Trata-se, muito provavelmente, de um viés comportamental, que nos leva em muitas situações a tomar decisões irracionais, que vão na contramão daquilo que havíamos planejado.

Um outro exemplo de como resultados de jogos de futebol alteram os comportamentos das pessoas foi explorado em um recente trabalho de um professor da Universidade de São Paulo[6]. O trabalho utiliza dados de partidas no Brasil e mostra que derrotas de times que acontecem às vésperas de eleições fazem com que torcedores modifiquem seu comportamento….na hora de votar! De acordo com esse estudo, resultados negativos são capazes de afetar o humor dos torcedores de forma que eles reduzam a quantidade de votos em prefeitos ou governadores tentando reeleição. É mais um exemplo de como o futebol mexe com as emoções dos torcedores e ativa em nós esses chamados vieses comportamentais, levando a gente a tomar decisões que por vezes são difíceis de serem explicadas.

Há diversos outros efeitos documentados em pesquisas, como por exemplo a triste evidência, documentada em uma dissertação de mestrado da Universidade de São Paulo, de derrotas relevantes de times de futebol estão associadas não só ao aumento de violência nas ruas, como poderíamos imaginar, mas também a um aumento de violência doméstica[7].

Como podemos ver, não faltam trabalhos que estudam como nosso amado jogo de pelota afeta diversos comportamentos humanos. Como dizem por aí, claramente “não é só um jogo…”


[1] Dohmen, T. “Social pressure influences decisions of individuals: Evidence from the behavior of football referees.” (2005) e Garicano, Luis, Ignacio Palacios-Huerta, and Canice Prendergast. “Favoritism under social pressure.” Review of Economics and Statistics, 87.2 (2005): 208–216.

[2] Miguel, Edward, Sebastián M. Saiegh, and Shanker Satyanath. “Civil war exposure and violence.” Economics & Politics, 23.1 (2011): 59–73.

[3] Ver Ter Weel, Bas. “does manager turnover improve firm performance? Evidence from Dutch soccer, 1986–2004.” De Economist 159.3 (2011): 279–303 e Ichniowski, Casey, and Anne Preston. Do star performers produce more stars? Peer effects and learning in elite teams. No. w20478. National Bureau of Economic Research, 2014.

[4] Ver Carroll, Douglas, et al. “Admissions for myocardial infarction and World Cup football: database survey.” Bmj, 325.7378 (2002): 1439–1442.

[5] Ver Edmans, Alex, Diego Garcia, and Øyvind Norli. “Sports sentiment and stock returns.” The Journal of finance 62.4 (2007): 1967–1998 e Scholtens, Bert, and Wijtze Peenstra. “Scoring on the stock exchange? The effect of football matches on stock market returns: an event study.” Applied Economics, 41.25 (2009): 3231–3237.

[6] Corbi, R. “When are politically irrelevant events relevant to election outcomes?”. 

[7] OSTROVSKI, Bernardo. Não é só um jogo: futebol como canal para a violência. São Paulo : Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, 2019. Dissertação de Mestrado em Teoria Econômica.

 

*Nada melhor que um chorinho para acompanhar a tabelinha entre economia e futebol, por isso vamos de Um a zero do Pixinguinha:


Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.