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A memória de “El Loco” Corbatta, ídolo do Racing e gigante do futebol argentino

Vinicius Garzon Tonet

Nunca tinha ouvido falar de Oreste Omar Corbatta. Também não faço ideia de como um argentino mais ou menos letrado em futebol escuta tal frase. Fico imaginando como alguém que diz gostar de futebol poderia ser capaz de mostrar ao outro, sem nenhum resquício de vergonha, a ignorância cristalina da sentença: “Nunca ouvi falar de Garrincha”. Talvez não seja esse o caso, não tenho dimensão de Corbatta no imaginário dos nossos vizinhos. Mas que me assusta ter desconsiderado até o presente momento a existência do “Garrincha argentino”, assusta. Assumo o pecado e, como intuo não ser apenas meu, espero que o texto sirva como uma porta de acesso a esta figura memorável que foi Corbatta. E que Deus nos perdoe!

O responsável por retirar o véu da ignorância que cobria o meu rosto foi o grupo de pop-rock argentino Viejo Smoking, formado por Martín Elordi (guitarra e voz), Dalmiro Lacaze (guitarra), Gabriel Aguero (bateria), Mauro Gonzalez (baixo) e Charly Guirao (guitarra), em disco homenagem ao esporte mais popular do mundo. Golazo – tributo al balompié, possui 11 canções, é o terceiro álbum da banda, foi produzido por Mario Breuer e gravado em 2013. Como mostro na resenha do disco, publicada na Revista Fulia, em 2017, a banda busca no futebol um passado desviante, desconhecido e trágico capaz de fornecer elementos para a construção de letras que fragmentam o discurso do sucesso e da lógica mercadológica do futebol. A música de abertura, “El arlequín”, é inspirada justamente em Corbatta, eterno camisa 7, um dos maiores ídolos da história do Racing Club.

corbatta

Corbatta foi um dos maiores ídolos do Racing. Imagem: Racing (Reprodução).

Além do CD, o grupo portenho, sob o comando de Martín Elordi, aventurou-se na direção de “El arlequín – Omar Oreste Corbatta”, documentário sobre o craque, evidenciando o projeto da banda em resgatar memórias futebolísticas. A produção é simples, não traz nenhum tipo de inovação formal e parece ter sido realizada com recursos limitados, o que não diminui os méritos do documentário. A narrativa intercala relatos dos já idosos ex-companheiros e ex-adversários, filhos e amigos, imagens de Corbatta e momentos de conversa dos jovens músicos sobre a fantástica história que estão desvelando. Assim vai se construindo a trajetória do jogador que nasceu no ano de 1936, em uma cidadezinha chamada Daireaux, a 410 quilômetros de Alvellaneda, onde obteve a sua glória máxima.

Atuando pelo Racing, Corbatta atingiu o ápice de sua carreira. Conquistou títulos e jogou o seu melhor futebol. Defendeu o clube albiceleste entre 1955 e 1963. Segundo os relatos, era um wing (nosso saudoso ponta) de classe e improviso. Pernas finas, frágil porte físico, corpo coberto por pelos, meiões sempre na altura da canela e sua obsessão em colocar insistentemente os cabelos para trás da orelha davam-lhe estilo chaplinesco. Também porque driblava. E surpreendia com seus dribles. Voltava e driblava de novo. Continuava driblando. Insaciável. Futebol-Comédia. Chaplin. Arlequim. E assim ficou conhecido.

Bom que não substituamos arlequim por palhaço. Com todo o respeito, palhaço é palavra mais pisada, banalizada, que pode significar um milhão de coisas. Corbatta não parecia ser tão comum assim. A raridade de seu futebol e de sua própria persona merecem ser protegidos pela também rara alcunha  de “El Arlequín”. E podemos explorar a palavra para compreender outro epíteto que acompanhou Corbatta ao longo de sua vida: “El Loco”. Algumas definições de arlequim trazem a dimensão da irresponsabilidade, da farsa e da malícia abrindo espaço para que o louco entre em cena. Só a loucura ou a graça parecem explicar aqueles dribles não recomendáveis por qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso, os dribles desajuizados, inconsequentes. Desatino e gratuidade, insanidade e comédia.

(Foto de Sabi Mursep. El Gráfico, 25 de outubro de 1957. O texto da foto, traduzido livremente, ficaria assim: “O gol de Corbatta – Notável foi o quarto gol argentino, feito por Orestes Corbatta aos 41 minutos do primeiro tempo. [...] A câmera permite seguir todo o processo da jogada que há de permanecer na memória de vários que a presenciaram e que com esta publicação chega também com toda fidelidade ate àqueles que não a viram. Estava o jogo em campo argentino, todo o quadro chileno adiantado, quando uma rebatida pôs a bola nos pés de Corbatta, descuidado por Astorga (Nº3), o qual ficou pelo caminho, empreendendo veloz corrida até o gol rival. Poderia ter chutado antes (foto 2), mas sua inspiração o fez conceber algo mais pitoresco e espetacular; esperou que chegasse Salazar (foto 3), parou a bola, o zagueiro passou batido (foto 4), Corbatta correu para dentro (foto 5), posicionou-se de frente a Quitral (foto 6), esperou que o goleiro tentasse sair (foto 7) e com uma “cacetada” guardou a bola”. Disponível em: https://www.clarin.com/deportes/futbol/Corbatta-mejor-gol-Diego_0_H1wIwmVJx.html. Acesso: 28 de junho de 2018)

Foto de Sabi Mursep. El Gráfico, 25 de outubro de 1957.

O texto da foto, traduzido livremente, ficaria assim: “O gol de Corbatta – Notável foi o quarto gol argentino, feito por Orestes Corbatta aos 41 minutos do primeiro tempo. […] A câmera permite seguir todo o processo da jogada que há de permanecer na memória de vários que a presenciaram e que com esta publicação chega também com toda fidelidade ate àqueles que não a viram. Estava o jogo em campo argentino, todo o quadro chileno adiantado, quando uma rebatida pôs a bola nos pés de Corbatta, descuidado por Astorga (Nº3), o qual ficou pelo caminho, empreendendo veloz corrida até o gol rival. Poderia ter chutado antes (foto 2), mas sua inspiração o fez conceber algo mais pitoresco e espetacular; esperou que chegasse Salazar (foto 3), parou a bola, o zagueiro passou batido (foto 4), Corbatta correu para dentro (foto 5), posicionou-se de frente a Quitral (foto 6), esperou que o goleiro tentasse sair (foto 7) e com uma “cacetada” guardou a bola”.

Corbatta jogava pela direita do campo e tomava conta do espaço. “El Rey de la raya”, um de seus apelidos. Impunha velocidade, mas sabia diminuir a pressão do jogo. Tinha elegância, dizia que a bola deveria ser acariciada e não chutada. E driblava. Considerado um exímio cobrador de pênaltis. As descrições dessas cobranças, da técnica de Corbatta, fazem que nos venha à mente Evair. Jogadores que quanto mais o tempo passa, menos pênaltis erram no passado. Qualquer pesquisa rápida é capaz de achar um ou outro pênalti desperdiçado. O Jornal dos Sports, por exemplo, registra, em 1957: “Cobrado, entretanto, por Corbatta, êste o fez mal, shootando forte mas mal e fora, sendo vaiado pelos torcedores”. Mas não é essa a intenção do documentário e nem poderia ser. Não é a objetividade dos fatos nem um realismo pedestre que guia essa história. O trabalho vale pelo seu lado humano, porque dá conta das dimensões fantasiosas – humanas – da memória. Encontra o justo lugar para Corbatta no mundo dos vivos.

Suas inúmeras qualidades o levaram para a seleção nacional, a qual serviu de 1956 a 1962, contabilizando 43 partidas e 18 gols. Ganhou o Campeonato Sul-Americano de 1957 e 1959. Este primeiro título certamente o mais emblemático. Os jogadores passaram para a história como os “carasucias de Lima”, venceram o Brasil na final e, antes do jogo, o Jornal dos Sports registra uma fala do 7 argentino: “Se depender de mim o Brasil perderá de goleada”. 3 x 0 pros hermanos. Corbatta também estava presente na equipe da Copa do Mundo de 1958. Ou melhor, na equipe que passou vergonha na Copa do Mundo de 1958. Mas a avaliação parece ser unânime: “El Loco” saiu ileso da fracassada campanha junto à opinião pública.

Transferiu-se para o Boca Juniors por um alto valor à época, teve tímido rendimento e permaneceu até 1965, ano de sua transferência para o Independiente Medellín, lugar onde foi amplamente admirado. Jogando pelo time colombiano, entrou em campo contra o Racing, Libertadores da América de 1967 e, sabe-se lá por qual motivo, ou se há um motivo, perdeu um pênalti. Deixou a Colômbia em 1969, retornou a Argentina e terminou sua carreira jogando por clubes inexpressivos ou amadores.

No documentário, um dos depoimentos lembra que “El Loco” chegou ao pequeno povoado de Benito Juaréz, onde jogou num desses times semi-profissionais, sem nada, sem documento, apenas com a roupa do corpo. Teve um final de vida trágico e melancólico. Passou por quatro divórcios, bebia muito, sem casa foi buscar abrigo no seu antigo templo: o El Cilindro. Embaixo das arquibancadas do estádio passou os últimos dias de sua vida. Faleceu em 1991 em decorrência de um câncer de laringe. Hoje, seu nome está imortalizado na rua de acesso ao estádio que lhe deu vitórias e abrigo.

Uma história de glória e decadência. Um homem que aparece àquele que assiste o documentário como um sujeito simples, desprendido dos bens materiais, generoso, sempre disposto a ajudar, inocente e que a vida castigou. Com um sentido de coletividade na vida pessoal e futebolística dizem que costumava repetir: “com apenas uma bola, 20 são capazes de jogar”.

(Omar Oreste Corbatta, mirando fixamente a câmera. Sobrancelhas grossas, olhar penetrante, braço miúdo e os pelos que tomam conta da perna. Disponível em: https://thesefootballtimes.co/2017/04/03/orestes-omar-corbatta-the-myth-and-legend-of-the-original-dirty-angel/. Acesso: 28 de junho de 2018)

Omar Oreste Corbatta, mirando fixamente a câmera. Sobrancelhas grossas, olhar penetrante, braço miúdo e os pelos que tomam conta da perna.

Um outro elemento que me chamou a atenção no “El Loco” foi seu olhar, balizado por grossas sobrancelhas. Olhares, tipos de olhares, são incontáveis, infinitos. Mas existem aqueles que por alguma misteriosa alquimia conseguem ter profundidade. Os olhares profundos são retilíneos, rasgam o espaço abrindo-o com certeza e violência. Penetram a massa de ar como uma seringa injetando líquido denso no leve sangue das veias vivas de um homem. São olhares que violam sem pudor retinas alheias. Invadem o corpo e atingem a alma e aí encontram morada. A alma atingida responde: ou se reconforta ou se apavora. Quem nunca sentiu a própria alma sequestrada por este olhar? Ou então, preencheu-se de vida com um olhar profundo?

Omar Oreste Corbatta, num indecifrável sistema de compensações, parece equilibrar seu porte franzino, débil e delicado com a potência atômica de seu olhar. Pelo menos é assim que me aparece quando vejo algumas de suas fotografias. Não que eu entenda grandes coisas da arte ou conheça a história do nosso personagem para além do que aqui expus. Contudo, seria um grande erro de minha parte acreditar que essas seriam barreiras para que eu tentasse dizer duas ou três palavras sobre uma das figuras mais importantes da história do Racing Club. Seu olhar, seu estilo de jogo e sua vida continuam sendo penetrantes. Certamente o documentário é peça fundamental na perpetuação dessa memória.


O documentário:

Título: El Arlequín – Omar Oreste Corbatta

Escrita e direção: Martín Elordi

Produtor geral: Juanjo Elordi

Produção: Tomás Boixader

Edição: Martín Elordi / Pablo Girola

Música: Gabriel Aguero / Mauro González / Dalmiro Lacaze.

Roteiro: Martín Elordi

Assistente jornalístico: Carlos Guirao

Produção ficcional: Juanjo Elordi / Tomás Boixader

Direção ficcional: Pablo Girola

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=im8riFQ3NPE (Acesso em 28 de junho de 2018; 18.137 visualizações.)

O álbum:

Golazo – tributo al balompié (2013)

1- El arlequín

2- Escobar zaguero central

3- Club de la Resistencia

4- Un tal Carlovich

5- Relatores

6- Ascenso

7- 12 pasos

8- Jugando de 5

9- En una baldosa

10- Maracaná

11- De wing

Letra: Martín Elord

Música: Viejo Smoking

Produção e mixagem: Mario Breuer

Assistente de gravação: Agustín Baldasarre

Drum Dr.: Alejandro Pensa

Masterização: Tom Baker, Precision

Mastering, Los Angeles, EUA.

Gravado nos Estúdios MCL em Buenos Aires, Argentina, jun. 2013.

Disponível em: https://soundcloud.com/viejo-smoking-oficial  (Acesso em 28 de junho de 2018).