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El Minero, de novo, na Bolívia

Gustavo Cerqueira Guimarães

Hoje, o Atlético Mineiro volta à Bolívia pelas oitavas de final da Copa Libertadores, depois de encerrar a fase de grupos com duas goleadas contra os bolivianos do Sport Boys, em Santa Cruz de la Sierra, por 5 a 1, e contra os argentinos do Godoy Cruz, por 4 a 1, em Belo Horizonte. O grande destaque destes confrontos foi o meia-atacante Juan Cazares, que marcou quatro dos nove gols atleticanos, feito que o coloca de vez na briga pela artilharia da competição. Chumacero, do The Strongest, time que entrou na fase Pré-Libertadores, realizando quatro partidas a mais do que o clube mineiro, já marcou oito gols, Cazares fez cinco e seu companheiro Fred tem seis gols.

Fred no treino de ontem no estádio Félix Caprille, em Cochabamba. Foto: Bruno Catini / Atlético.

Fred no treino de ontem no estádio Félix Caprille, em Cochabamba. Foto: Bruno Catini / Atlético.

O Atlético ficou em 1º lugar geral da fase de grupos graças ao seus onze gols de saldo, pois somou os mesmos treze pontos (e quatro vitórias) das equipes do Lanús, Grêmio, River Plate e Palmeiras, que obtiveram, respectivamente, dez, nove, cinco e quatro gols de saldo. Portanto, as sonoras goleadas foram determinantes para que o Galo garantisse a vantagem de decidir todos os seus possíveis jogos em casa a partir das oitavas de final, além de gozar do status de ter sido o melhor time da competição pela segunda vez em sua história. Em 2013, os jogos decisivos em casa foram determinantes para a campanha vitoriosa.

Cazares também é um dos protagonistas do Campeonato Brasileiro. Foi o melhor jogador em campo contra o Cruzeiro no último domingo, no Independência, pela 11ª rodada, quando assinalou o primeiro tento, um golaço de falta, e participou efetivamente das jogadas que deixaram o Fred em condições de fazer outros dois gols, 3 a 1, de virada, fora o baile, que reverberou também nas arquibancadas e pelas ruas e bares de Belo Horizonte. Que partidaça fez o Atlético.

Cochabamba, 05 de julho

“Ya sé que usted, como todos los periodistas, quiere saber qué fue exactamente lo que ocurrió y cómo. Reconstruir los hechos y ver si eso arroja una verdad. Hay muchos testigos y no le será difícil armar un relato coherente. El problema, supongo, será lograr que los hechos hablen. Porque si bien en principio todo esto tiene una fácil explicación, o más de una, en el fondo verá que hay algo inexplicable, incapaz de ser atrapado por el sentido. Como la vida misma, por cierto”, reflete o narrador no início do conto futebolístico “Como la vida misma”, do escritor boliviano Edmundo Paz Soldán. O ficcionista é também professor da Cornell University e um dos escritores latino-americanos mais reconhecidos de sua geração, com tese de doutorado em Berkeley sobre Alcides Arguedas (18791946), político, historiador e escritor de La Paz, autor do romance Raza de bronce (1919), que exerceu profunda influência no pensamento social boliviano do século XX, figurando como o precursor de temáticas indígenas relacionadas com a identidade nacional e a mestiçagem do povo boliviano.

Hoje, pela madrugada, durante o longo percurso de cerca de 500 km de ônibus de Santa Cruz a Cochabamba, eu vim lendo alguns contos do Soldán, que nasceu aqui nesta cidade há 50 anos. Diferentemente de Santa Cruz de la Sierra, “Cocha” faz parte do altiplano boliviano e está a 2.500 metros acima do nível do mar. A cultura indígena que predomina aqui não é a guarani, como nas terras cruceñas, mas aimara e quechua, mais próximas do povo peruano. Cheguei a pouco e não conseguiria registrar nenhum traço característico da terceira maior cidade boliviana, mas já percebi, desde a rodoviária, que aqui vivem muitos brasileiros entre os seus 600.000 habitantes.

Estou hospedado no centro da cidade e já comprei dois periódicos para saber informações mais precisas sobre as vendas de ingressos para o jogo de logo mais às 20h45 (horário local), quando o Galo entrará no estádio Félix Capriles para enfrentar o Wilster e outras adversidades: a altitude, o frio e os fanáticos 25.000 torcedores. Segundo o periódico Opinión, que traz a manchete “Wilster enfrenta al mejor equipo de la Libertadores”, a equipe da casa “mantendrá la idea “hombre-zona”, juego que desarrolló en todos sus partidos del certamen internacional. El entrenador aseguró que su equipo tomará los recaudos necesarios para salir a ganar”. Já o La Razón, que estampou a foto do Fred na chamada da matéria, destacou as vitórias do Atlético no país: “Los albinegros visitaron cuatro veces Bolivia por torneos Conmebol; lograron tres victorias y cayeron solo en una oportunidad, frente a Bolívar en 2000 por Copa Libertadores. El equipo visitante viene con el antecedente de haber ganado a su rival de turno en 1998 por la desaparecida Copa Conmebol”.

O adversário

O clube cochabambino foi fundado em 1949 por trabalhadores de uma empresa aérea. Seu primeiro nome foi San José de la Banda, mas, em 1953, foi modificado para Club Jorge Wilstermann, em homenagem ao primeiro piloto comercial do país, que morreu muito jovem em um acidente aéreo em missão de guerra. Jorge Wilstermann também nomeia o aeroporto da cidade.

O Wilster possui seis títulos da Liga Boliviana. Em 1980, foi campeão ao conquistar 88% dos pontos disputados no certame, recorde no país, consagrando-se bicampeão em 1981, ano em que chegou a disputar sua primeira e única semifinal dentre as suas dezessete participações em Libertadores. Jogadores como o goleador Gastón Taborga e o atacante Jairzinho, tricampeão da Copa do Mundo de 1970, disputando sua última temporada no futebol com certo destaque, compunham um dos melhores times da história da aguerrida equipe vermelha e azul, principal referência da torcida do departamento cochabambino. Alguns destes traços marcantes são expressos no hino do clube, composto por Alfredo Valdez, veja:

Wilstermann gran equipo del valle / Eres noble titán del deporte / Con honor y coraje defiendes / Tus colores el rojo y azul // Ovaciones gigantes resuenan / Ingresando está el campeón… Wilstermann! / Majestuoso señor del deporte / Caballero leal en la cancha // Con esfuerzo, valor y firmeza / A la cima tu emblema llevaste / Tus colores los llevo en la sangre / Y tu nombre en el corazón… Wilstermann!

Neste ano, o Jorge Wilstermann venceu os seus três jogos em casa, contra o Atlético Tucumán, 2 a 1, e as tradicionalíssimas equipes do Palmeiras, 3 a 2, e do Peñarol, 6 a 2. Percebe-se que o time marcou e sofreu gols em todas as partidas. Portanto, ao que parece, o jogo será aberto, mas não menos difícil para os mineiros, que entrará em campo com três volantes, sendo escalada da seguinte forma por Roger Machado: Victor; Alex Silva, Bremer, Gabriel e Fábio Santos; Roger Bernardo (Adilson), Carioca e Elias; Cazares, Fred e Robinho.

Victor treinando ontem à noite em Cochabamba. Foto: Bruno Catini / Atlético.

Victor treinando ontem à noite em Cochabamba. Foto: Bruno Catini / Atlético.

Depois da excelente estreia do Bremer, zagueiro da base, no último clássico contra o Cruzeiro, fica a expectativa de observar seu desempenho em um jogo internacional. Na suplência, o Galo ainda conta com os defensores Uilson, Leonan, Danilo, Jesiel, Matheus Mancini e Yago, além dos atacantes Otero, Marlone, Valdívia e Rafael Moura, que podem entrar e fazer muita diferença. Se o Galo fizer um placar expressivo hoje, como o River Plate fez ontem ao vencer por 2 a 0 o Guaraní no Paraguai, eles se enfrentarão nas quartas de finais, jogo que deve ter uma visibilidade internacional gigantesca.

Ôôôôôôôôôôô-ôôô!, vai pra cima deles, Galô!