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El Minero na Libertadores: o atleticano, enfim, conhece a América Latina

Gustavo Cerqueira Guimarães

Arequipa, 17 de fevereiro de 2016

O Clube Atlético Mineiro estreia pelo grupo 5 da Copa Libertadores da América de 2016 contra o Melgar, logo mais às 21h45, em Arequipa, ao sul do Peru. Igualmente hoje, com desmedida exultação, também estreio aqui no Ludopédio – a série de textos cuja publicação se dará a cada jogo da equipe mineira nesta primeira fase da competição. Serão seis espetáculos que originarão seis textos, publicados no dia do jogo ou no dia subsequente. Além do evento de logo mais, sempre ao entardecer na Ciudad Blanca – às 18h45 –, acrescentam-se os jogos em Santiago, no Chile, contra o Colo-Colo, e em Sangolquí, cidade ao redor de Quito, no Equador, contra o Independiente del Valle, que se classificou dramaticamente ao passar pelo Guaraní, no Paraguai, na fase pré-Libertadores. Acompanharei também de perto, é claro, os três jogos em Belo Horizonte contra esses mesmos adversários. Pretendo estar presente em todos eles e escrever textos híbridos, por vezes fragmentados, “espatifados”, que incorporem outras artes e tensionem os gêneros textuais (diário de viagem, crônica, ensaio, pesquisa, reportagem, conto, poesia etc.).

3 Torcedores do Atlético Mineiro em Arequipa

Torcedores do Galo nas ruas de Arequipa na noite anterior ao jogo. Foto: Gustavo Cerqueira Guimarães.

 

Assim, creio contribuir para o alargamento da produção discursiva sobre o clube e sua nação de apaixonados torcedores que, hoje, em sua ínfima parcela andam pela cidade arequipenha a exibir o escudo nas camisas, agitando-o fervorosamente estampado em suas bandeiras. Esses atos performativos de pertencimento clubístico, incluindo evidentemente a presença nos estádios a entoar o hino e os cânticos, contribuem para a perpetuação da vasta memória cultural do clube que se solidifica cada vez mais como uma marca de reconhecimento internacional, notadamente após a passagem vitoriosa do craque Ronaldinho Gaúcho. E, recentemente, por conta da contratação bombástica do atacante Robinho. Isso tudo, obviamente, aos olhos atentos da diretoria que vem mantendo a base do plantel desde o vice-campeonato de 2012, indo na contramão das equipes brasileiras que não têm resistido às agudas investidas do mercado chinês.

Ao caminharmos pelas ruas da cidade do vulcão Misti, somos o tempo todo saudados: – El Minero! El Minero. Há um clima festivo e amistoso por parte dos anfitriões. Eu, por exemplo, fui comprar ingresso na sede do Melgar, onde havia uma grande fila, e não houve qualquer clima hostil por eu estar expondo a camisa do Galo. Os torcedores, los inchas, estão alegres por causa da invasão dos torcedores mineiros e por voltarem a disputar a Libertadores, depois de mais de trinta anos. Creio – afinal, eu sempre acredito – que o fato de estarmos mais e mais em contato com o outro, com a alteridade, com o estrangeiro, é bastante salutar, pois faz com que distingamos a nós mesmos e o nosso posicionamento no mundo.

1 Ingresso Melgar x Atlético Mineiro

Ingresso do jogo Atlético Mineiro x Melgar pela Libertadores. Foto: Gustavo Cerqueira Guimarães.

O carimbo no passaporte

A credencial atleticana para a competição veio com o vice-campeonato no Brasileirão do ano passado, no qual se destacaram o lateral esquerdo Douglas Santos, o volante Rafael Carioca e o atacante argentino Lucas Pratto, o “centroavantão do Galo”, que fez um brilhante primeiro turno, mas caiu de produção no segundo, juntamente com o restante da equipe. Esses atletas foram eleitos os melhores de suas posições pelo prêmio Bola de Prata, o mais tradicional do país, realizado desde 1970 por jornalistas da revista Placar e, hoje, também da ESPN. Vale a pena ressaltar que o Atlético é o segundo clube com mais atletas vencedores nessa premiação, perdendo apenas para o São Paulo, o que demonstra certa regularidade das equipes na história do campeonato brasileiro. Também não estranharíamos se fizessem parte dessa seleção o goleiro Victor, o lateral-direito Marcos Rocha ou o zagueiraço, capitão da equipe, o Leonardo Silva, já ídolos do clube, atuantes na magnífica campanha vitoriosa da Libertadores de 2013.

Todos esses jogadores estão aqui hoje para essa estreia histórica, pois o time participa de sua quarta campanha consecutiva na competição, perdendo apenas para o mesmo São Paulo, que obteve sete participações seguidas na maior competição da América entre 2004 e 2010. Anteriormente, o Atlético Mineiro havia participado apenas quatro vezes desse certame, em 1972, 1978, 1981 e 2000.

Nota-se que, desde quando o clube começou a participar da Libertadores, sua ausência maior durou quase vinte anos, o que colaborou ainda mais para o estabelecimento do “trauma atleticano”, advindo de um jogo contra o Flamengo. Nessa época, avançava apenas uma equipe de cada um dos seis grupos que compunham a primeira fase da competição, formando dois novos grupos dos quais apenas os dois primeiros disputavam a final da copa. Pois bem, ao final da primeira fase, Atlético e Flamengo, invictos, em um grupo que ainda contava com os paraguaios Olimpia e Cerro Porteño, computaram seis pontos (cada vitória valia dois pontos). Os times brasileiros haviam se enfrentado no Mineirão e no Maracanã, ambas as partidas com placar final 2 a 2. Um novo confronto decidiria o primeiro lugar do grupo, pois não havia outro critério de desempate a não ser realizar um jogo extra em campo neutro, em Goiânia, no dia 21 de agosto de 1981, no Serra Dourada.

O jogo, apitado por um juiz do qual me recuso a escrever o nome, estava 0 a 0. Por volta dos trinta minutos, ainda no primeiro tempo, ele expulsou Reinaldo na intermediária adversária, por conta de uma falta, comum de jogo, em Zico. Uma falta que, no máximo, mereceria uma advertência verbal seguida ou não de um cartão amarelo. Mas não, o juizinho preferiu, do alto de sua arrogância e autoridade, o cartão vermelho… acabando com o espetáculo vencido pelo Flamengo por WO, pois ainda expulsaria Éder, Chicão, Palhinha e Osmar, além do técnico Carlos Alberto Silva e todo o banco de reserva, incluindo roupeiro, massagista, etc.

Eu me lembro vagamente do jogo… eu me lembro de que eu não estava entendendo nada do jogo… eu me lembro do meu pai indignado com a situação do jogo… eu me lembro de um dos meus irmãos aos prantos xingando: – “juiz ladrão!, filhadaputa!, vendido!” Lembro-me de que o “vendido” me inculcou bastante, e no outro dia também xinguei um coleguinha da escola de vendido, experimentando os efeitos dessa nova palavra. Eu não entendi nada daquilo. O seu efeito, e seus desdobramentos, eu entenderia mais tarde, mas não quero falar mais sobre isso, ainda que não saiba ao certo se será possível esquecer o maior escândalo de arbitragem do futebol brasileiro. Um mal não só para o futebol, mas para a política e cultura brasileiras. Um pesar. Um terror. Não há mais o que dizer. Já assisti ao jogo várias vezes e ele está aqui, com narração de Luciano do Valle e comentários de Telê Santana, para quem quiser criar outras narrativas:

Foi um desastre para um time que estava começando a se internacionalizar com aquela espetacular equipe do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, ocasião em que eu definitivamente comecei a torcer para o Galo – o que era um traço bastante distinto, quase uma excentricidade, tendo em vista que eu morava em Lajinha, cidade de 20.000 habitantes no interior de Minas, onde praticamente todos eram adeptos dos clubes do Rio de Janeiro.

Lembro-me de que somente nossa família era exclusivamente atleticana (embora meu pai tenha sido vascaíno, mas depois que se mudou para Brasília, ainda nos anos 1960, só tínhamos camisas do Galo em casa), mais o pessoal do Nico e o goleiro do time do União, o Aladim, tio do meu melhor amiguinho, flamenguista, diga-se de passagem.

Nesse início dos anos 1980, uma das épocas áureas do Galo, time que contava com os craques e ídolos Éder, Toninho Cerezo e Luisinho, titulares absolutos da seleção brasileira na copa de 1982 (se o Reinaldo estivesse nela, certamente seríamos campeões), eu só tinha notícias do Galo quando ele jogava contra times cariocas ou aos domingos, através dos gols do Fantástico. A partir do meio dessa mesma década, quando um periódico mineiro chegava à cidade na hora do almoço por conta da assinatura do meu querido tio Vavá, adquiri o hábito de ler jornal impresso diariamente, o que se mantém até hoje. Essas memórias de fato me emocionam, tocam-me pelo ato de resistência e ligação com algo que só saberia mais tarde: o Atlético faz grande parte da minha vida, como poucas outras coisas fazem, símbolo de resignação, resistência, amor, força e muita luta. Se há um sentido nisso, além de hoje minhas pesquisas também recaírem sobre o futebol, ainda não sei muito bem. E nem sei se um dia saberei. Pergunto-me ainda se “(…) numa ânsia súbita de abandono ou entrega ao destino, à velhice, à morte, se faz algum sentido isto: homens e mulheres de todas as idades a gritarem numa paixão histérica por algo que não passa de uma bola entrando nesse ou naquele gol? Caralho, para uma pessoa sensata, que diferença isso pode fazer?”, reflete o contista Sérgio Sant’Anna.

FBC Melgar – o adversário

O Foot Ball Club Melgar foi fundado no dia 25 de março de 1915, coincidentemente no mesmo dia do Clube Atlético Mineiro, cuja fundação ocorreu sete anos antes. O primeiro nome do clube, criado no Parque Bolognesi – hoje Parque Duhmel – por um grupo de amigos, foi Juventud Melgar. Os jovens, boêmios, em serenata, reuniam-se para entoar os cânticos do poeta romântico arequipenho Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso (1790-1815), figura heroica muito reconhecida pelos seus yaravíes – gênero musical híbrido que funde elementos formais do harawi  inca e a poesia trovadoresca espanhola – e que lutou cem anos antes pela independência do Peru, morto em uma emboscada.

O poeta é lembrado também através do hino do clube, composto por Luzgardo Medina Egoavil (letra) e Elías A. Chávez Torres (música). Segue abaixo a letra trazida livremente por mim:

No topo do Misti flameja,

a proeza do poeta Melgar

em sua honra cresceu minha equipe

que conseguiu ser campeão do Peru.

Em minha alma rubro-negra flameja

a proeza de minha equipe Melgar

em seu nome vou cantando muito forte

Melgar, nossa equipa campeã.

Rubro-negro, paixão de Arequipa

é a vida que vem e se vai

sentimento que nasce da alma

é meu clube a razão de existir.

Glória eterna aos homens que nos deram

a palavra maior e verdadeira

e é por isso que nós praticamos

a grande graça do futebol mundial

Em 2015, ano do bicentenário do falecimento de Mariano e do centenário do FBC Melgar, os torcedores rubro-negros (los rojinegros) garantiram a participação do clube na Libertadores, na qualidade de campeão peruano com uma emocionante campanha, feito conquistado uma única vez anteriormente, em 1981. No campeonato peruano, os campeões do 1º turno e 2º turnos garantem vaga na Libertadores, além de se enfrentarem para definir o campeão nacional em duas partidas. El León del Sur, como também é chamando o clube arequipenho, depois do empate em 2 a 2 contra o Sporting Cristal, em Lima, levou a decisão para os seus domínios por ter feito melhor campanha e jogou no Estádio Monumental da Universidad Nacional de San Agustín (UNSA), com capacidade para 60.000 espectadores. Aos noventa minutos, a partida estava caminhando para a disputa de pênaltis, mas o atacante argentino Bernardo Cuesta deu números finais ao placar: 3 a 2 para os mistianos, um gol que aliviou a agonia dos torcedores que festejaram atravessando a noite na Plaza de Armas, quase fazendo com que o vulcão Misti entrasse em erupção. Méritos especiais para o técnico da equipe, o ex-jogador da seleção peruana entre o final dos anos 1980 e os anos 1990, Juan Reynoso, que estava há mais de dois anos no cargo, conseguindo implementar um bom sistema defensivo que sofreu apenas 22 gols em 32 jogos.

Um fato singular na biografia desse predestinado treinador, formado no Alianza Lima, é que ele pertencia ao grupo de jogadores que morreram naquela tragédia de avião no mar do Pacífico, La tragédia aérea de Ventanilla (El Fokker-F27), em dezembro de 1987. Nesse desastre, morreram 43 pessoas, apenas o piloto sobreviveu. À época, Juan Reynoso, o predestinado, tinha apenas 17 anos e estava com os companheiros em um jogo no interior do Peru contra o Deportivo Pucallpa, mas uma lesão o salvou, pois não foi liberado para viajar e perecer junto de seus companheiros de time. Curiosamente, um dos mortos nesse trágico acidente foi o goleiro peruano José “Caico” Gonzales Ganoza, tio do atacante Paolo Guerrero, hoje, no Flamengo.

El viaje a Arequipa

Impressionado com La tragédia aérea de Ventanilla no Pacífico, depois de assistir à película recém lançada sobre o caso e os desdobramentos narrativos advindos dele, além de ler alguns ensaios, eu dei um faniquito dentro da aeronave, Lima- Arequipa. Era a última de muitas das turbulências do voo TAM 8100, logo antes de aterrissar. Um misto de histeria, encenação e realidade, como sempre parece ser a direção dos meus textos. Eu gritei Galô! Um grito louco, seco, com final rouco, à beira da morte. E acredite, houve ecos vindos de uma senhora que aproveitou o momento de tensão e liberou o mesmo grito-gutural-guerreiro: Galôôôôôôôôôôôô! Eu me levantei num rompante e tossi e urrei, soando um som também disforme e, esbranquiçado, caí no corredor. Em meio a espasmos, sudorese, lágrimas, flatulências, arrotos, vômito e sangue na garganta, eu me derramei no chão, corpo d’água ondeante. Onde antes havia certa euforia por ir ver o Galo na Libertadores, agora, naquele momento, veio o limite do corpo, a dor. Em seguida, o avião arremeteu e eu fiquei flanando até agora como as asas de um galo de um poleiro a outro, que não suportam o peso do corpo e o atrai para baixo, para o chão.

2 Bandeira do Atlético Mineiro na Plaza de Armas

Bandeira do Atlético Mineiro na Plaza de Armas, em Arequipa. Foto: Gustavo Cerqueira Guimarães.

 

Na madrugada seguinte, acordei assustado, sufocado com uma dor no peito. Houve um terremoto em Arequipa de 5,7 graus. A terra treme ao prenunciar o canto do Galo. Para melhor tentar compreender o meu destino, e o destino do Galo, eu lancei o I Ching, mas essa é outra história. Em meio a lágrimas, despeço-me feliz, pois continuei vivo para contar esta história. A vida continua sendo jogada. “Ôôôôô!, vai pra cima deles, Galô!”