111.18

Ela jogava muito

Leandro Marçal

Na primeira vez que levei Luana para o jogo de sexta-feira, na quadra aqui perto de casa, ela ficou de canto, observando a partida e os caneleiros gritando feito uns loucos. Parecia uma olheira, estudando as características e habilidades de cada um de nós. Sem conhecer ninguém, sequer conversou no projeto de arquibancada perto das redes, separando a quadra do lado de fora.

Na semana seguinte, estranhei a roupa que ela vestia. Parecia estar indo à academia e não ficou brava quando a chamei para acompanhar minha apresentação com a bola nos pés. Saí um pouco mais cedo, tomei uma pancada no tornozelo e senti o golpe.

Contra minha cara de estranhamento, Luana entrou no meu lugar. No começo, percebi o medo dos amigos nas divididas com ela. Até a primeira bola entre as pernas, seguida de uma pancada no ângulo e o primeiro gol visto por mim. Fomos embora dali quando ninguém mais aguentava quebrar canelas, sem tomar a tradicional cervejinha pós-jogo.

Ficamos em casa, comemos uma pizza, não saímos debaixo do cobertor. Nem tocamos no assunto futebol. Ela não se vangloriou do excelente desempenho na quadra, eu não lembrei as dores no tornozelo.

Na semana seguinte, ela começou jogando. Não pediu autorização, nem olhou para mim durante as partidas. Não se sentiu envergonhada por me driblar, houve certo constrangimento ao percebermos que o título de melhor em campo não iria para um dos caras. Percebi poucas palavras dirigidas a mim. Outra vez, não ficamos para tomar a cervejinha, inventei uma festa de família naquela noite.

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O drible. Foto: Markus Friedel.

Na terceira semana, pouco nos falamos no caminho de casa até a quadra. Novamente ela foi a melhor com a bola nos pés. Percebi que não havia mais tanta vontade dos velhos amigos de disputar a partida de tantos meses seguidos. Notei, também, uma maior vontade nas divididas com Luana. Eram leões correndo atrás da presa, como se aquela selva não tivesse lugar para leoas.

Fomos embora. Trocamos poucas palavras, evitamos cumprimentos pela manhã. Havia algo estranho no ar. Não éramos desconhecidos, nem éramos mais os mesmos.

Na primeira briga, explodimos e falamos mais que o devido. Explodimos. E os estilhaços nos machucaram. Cada um foi para um lado. Evitamos contato. Abandonei os jogos das sextas-feiras para cicatrizar mais rápido as feridas deixadas por Luana. Voltei a frequentar o sedentarismo.

Ontem, fui atrás do perfil dela no Facebook. A palavra craque ecoava nos comentários de sua foto de perfil. Procurei seu contato, marcamos de conversar, resolver as pendências, amarrar os fios soltos. Sem jogos.