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As eleições nos Gaviões da Fiel

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Após quatro meses de campanha, realizaram-se no último sábado, dia 17 de março, no bairro Bom Retiro, as eleições diretas para a presidência e para o conselho do Grêmio Gaviões da Fiel. Das quatro chapas concorrentes, sagrou-se vencedora a chapa 3, encabeçada por Digão Vila Moraes, eleito presidente, e Alê Osasco, seu vice. A vitória representou a continuidade da gestão anterior, oriunda do movimento “Rua Parque São Jorge”, composta por Diguinho e Digão, vice que agora assume a presidência da torcida.

As outras três chapas foram integradas por: Carlos Roberto (Neguinho)-Fabrício Pouseu, dupla também com origem no movimento dissidente “Rua Parque São Jorge”, que se reintegrou aos Gaviões em 2013, representantes da chapa 1; Amilton (Padinho)-Emerson (Japonês), da chapa 2; e Emerson Alexandre (Mineiro)-Tadeu, da chapa 5. Houve ainda a inscrição da chapa 4, que ao longo da campanha desistiu da concorrência.

O pleito compreende um mandato de três anos, com início em 2018 e término em 2021. A chapa vencedora obteve um total de 1152 votos, num colégio eleitoral de mais de três mil votantes. Para votar, o associado tinha de se dirigir à sede da torcida entre 8h e 17 horas, ter mais de 16 anos, possuir ao menos dois anos de filiação à agremiação e portar documento de identidade junto à carteirinha de sócio. Mesmo os que não estavam em dia com a mensalidade, eram aceitos nas eleições e podiam escolher seus candidatos ao pleito sucessório.

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Cartaz das eleições.

Desde sábado pela manhã, longas filas já se formaram nos arredores da quadra. A votação foi feita em cédulas manuais e as cabines se dividiram por ordem alfabética, distribuídas nos camarotes do segundo andar do pavilhão da torcida, na quadra situada à rua Cristina Tomás. Já às 21 horas do último sábado a apuração havia sido concluída para a eleição majoritária e a chapa eleita foi anunciada.

Além da presidência, ocorreu também a votação para o Conselho da entidade. Esta consiste na escolha de sete nomes de uma lista nominal com 63 candidatos. A nominata eleita para o conselho tem o mesmo período de mandato do presidente e do vice-presidente, válido para o triênio 2018-2021. Trata-se de um conselho consultivo e deliberativo, renovado de maneira contínua, que funciona em paralelo ao conselho vitalício, composto por sua vez pelos ex-presidentes, pelos fundadores e pelos componentes da Velha Guarda da torcida.

A torcida possui na atualidade mais de 117 mil associados em seus cadastros, dos quais 106 mil estiveram aptos a votar. A baixa representatividade do colégio eleitoral – pouco mais de 3 mil votantes – deve ser relativizada em função da existência de muitos associados não residentes na cidade de São Paulo, espalhados pelas diversas subsedes do estado e do país. Observe-se também que os sócios são contados em ordem numérica sequencial, cumulativa e progressiva, desde a fundação da entidade em 1969, portanto, há quase 50 anos. O total de sócios exclui, desta maneira, aqueles já falecidos ou inativos.

Até pouco tempo atrás, as eleições presidenciais eram bienais, mas, com a mudança do estatuto, passaram a ocorrer num intervalo de três anos. Não há pré-requisito para um membro da torcida ser candidato. Em geral seu perfil é o de lideranças ativas, engajadas há bastante tempo no grupo, que viajam nas caravanas, que vivenciam o dia a dia da torcida ou que representam uma região geográfica, a exemplo de Guarulhos, Osasco ou Vila Moraes.

Na carreira interna do indivíduo na agremiação, rumo a uma hierarquia ascendente de reconhecimento e prestígio, o primeiro estágio a ocupar é o Departamento de Bandeiras. Este constitui um rito de passagem importante para quem está “colado na torcida”, pois se trata de um “patrimônio” material valioso do grupo, cuja responsabilidade precípua é não deixar que as bandeiras sejam usurpadas como “troféu” das torcidas rivais. Após atravessar essa espécie de prova de fogo que é o departamento de bandeiras, os integrantes galgam outras posições, consideradas superiores, como as áreas Social ou Financeira.

De volta aos aspectos formais das eleições e dos candidatos, há um impeditivo expresso no processo eleitoral: consta do regimento a impossibilidade de reeleição. Em quase meio século de existência da torcida, apenas duas vezes houve a quebra desse princípio. Primeiro com Magrão nos anos 1980, depois com Dentinho nos anos 1990. Ainda assim, foram presidentes por duas vezes, mas em períodos alternados, isto é, não consecutivos.

Outro princípio caro à vaga é a não remuneração do presidente e vice-presidente, que têm de conciliar seus mandatos com a manutenção de seus ofícios profissionais regulares. Trata-se de uma medida que visa impedir o “profissionalismo” na torcida e evitar assim os boatos em torno de supostos beneficiamentos pecuniários com a associação, tema que ronda muitas associações torcedoras, gerando disputas internas, maledicências, dissidências e até choques físicos violentos entre subgrupos. A entidade conta hoje com cerca de 40 funcionários remunerados, ou seja, empregados que trabalham nos diversos setores administrativos da torcida, tais como a loja, a cozinha, a secretaria, o almoxarifado, a informática, entre outros.

Ao contrário das expectativas iniciais, não tive a oportunidade de acompanhar as eleições in loco e de proporcionar uma cobertura direta do evento, mas contei com as valiosas colaborações de três informantes e de um dos candidatos a vice, na chapa 1. Assisti também aos debates e às apresentações das propostas lançadas pelas candidaturas no programa radiofônico “Organizadas na Web”, sob a locução de Alex Minduín, que convidou as chapas para a exposição das ideias e das trajetórias dos aspirantes ao cargo máximo da entidade.

Grosso modo, chamou-me a atenção a importância de três áreas no cotidiano da torcida, seguindo os termos e a linguagem usada pelos votantes e pelos próprios torcedores-candidatos: a “Arquibancada”; as “Caravanas” e o “Carnaval”. A primeira é considerada a principal e diz respeito à capacidade da diretoria de desenvolver uma “política” que mostre a força da torcida na Arena Corinthians. Isto envolve não apenas a vibração durante o jogo, mas o posicionamento dos líderes diante das restrições legais e dos impedimentos jurídicos por que passam os Gaviões na utilização de seu “patrimônio” durante os jogos, especialmente as faixas e as camisas da torcida. As bandeiras, conforme se sabe, estão proibidas há mais de vinte anos por lei estadual sancionada pelo governador do Estado, Geraldo Alckmin.

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Torcedores lotam o treino do Corinthians e ocupam a arquibancada com as bandeiras. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Outra dimensão fundamental nesse quesito é o acesso aos ingressos do programa sócio-torcedor, em particular aquele destinado ao setor Norte, onde se encontram as torcidas organizadas corinthianas em Itaquera. A sede da torcida no Bom Retiro é um local tradicional de retirada de ingressos. Assim, a satisfação do sócio é tanto maior quanto mais capacidade tiver a diretoria dos Gaviões de reservar cotas substantivas de bilhetes para o seu torcedor junto à direção e ao departamento de futebol do Corinthians, sobretudo nas partidas de maior apelo, como clássicos e torneios internacionais.

O segundo ponto central são as “Caravanas”. Nelas, está em jogo a capacidade da torcida de se fazer representar em partidas fora da cidade e do Estado de São Paulo, e até mesmo para fora do país, em competições internacionais. Para o associado “gavião”, uma boa gestão é aquela capaz de manter a regra de ouro das torcidas organizadas de estar onde o time jogar. Por exemplo, na primeira partida do Corinthians “fora de casa” pela Taça Libertadores da América em 2018, a diretoria da torcida levou 40 gaviões para assistir ao empate em Bogotá, contra o Millionários da Colômbia.

O terceiro aspecto mais geral que incide no debate das eleições é o Carnaval. Trata-se provavelmente do tema mais controvertido no interior da torcida, visto que, diferente de outras torcidas-escolas, o CNPJ dos Gaviões vale tanto para o futebol quanto para o carnaval. Sendo assim, muitos associados resistem ao investimento na escola de samba, por considerarem isto um desvio do foco central da “cultura torcedora”, que é o futebol, a arquibancada e as caravanas. Para outros, ao contrário, o carnaval existe na torcida desde os anos 1970 e é, logo, parte autêntica das suas tradições, primeiro como bloco, depois como escola de samba. Ademais, pode-se dizer que o carnaval agrega valor à entidade, pela visibilidade, pela exposição midiática e pela abertura da torcida a outros segmentos sociais.

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A caravana. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Esses são, por assim dizer, os itens oficiais da pauta das candidaturas em 2018. Mas há outros aspectos internos, menos formais, que são deveras importantes para os sócios e para os candidatos. Um dado que me pareceu decisivo na discussão do dia a dia da torcida é a relação entre as “quebradas” (os bairros e as subsedes) e a “quadra”, isto é, o que se poderia chamar de poder central da torcida. Ouvi no discurso dos candidatos mais de uma vez uma preocupação em trazer de volta o associado à sede. Isto sugere que o crescimento quantitativo e centrífugo da torcida pelas diversas zonas territoriais acarreta um inevitável efeito de dispersão. Donde se conclui que há uma pulverização, seguida de uma considerável perda de controle da diretoria sobre a dinâmica torcedora local.

As brigas, por exemplo, temática onipresente nesse universo, tornam-se em certa medida incontroláveis, posto que submetidas a autonomias regionais e a sublideranças de bairro, ora mais ora menos convergentes com a estrutura de poder nuclear do agrupamento. Nas palavras dos torcedores, está-se diante de um dilema entre a “matriz” e as suas “filiais”, em que uma acaba por culpabilizar a outra pelos problemas acarretados nos enfrentamentos com as torcidas adversárias. Neste sentido, como reverter essa tendência à dispersão e, no limite, como impedir a anomia na coesão grupal?

As falas dos candidatos referem-se à criação de atrações na quadra, parte delas iniciativa e responsabilidade que depende do Departamento Social. Este setor tem uma relevância nas tentativas de reversão da imagem negativa das torcidas organizadas, com a promoção de campanhas beneficentes. As famílias “gaviães”, por exemplo, são convidadas para a entrega de ovos de páscoa durante a Semana Santa ou para a arrecadação de mantimentos a populações carentes, que ocorrem de tempos em tempos.

Além da filantropia, o modo de atrair o associado consiste na promoção das festas, das feijoadas, das choppadas, dos jogos de bilhar, dos campeonatos internos de futebol de salão, das escolinhas de artes marciais, dos cursos de informática, bem como dos demais momentos de lazer que devem ser proporcionados aos sócios pelo Departamento Social.

Como a gestão do triênio 2012-2015, encabeçada por Diguinho e Digão, teve por promessa de campanha zerar as dívidas imobiliárias da torcida – tanto a sede recreativa quanto a administrativa que se encontram na Rua Cristina Tomás – algumas das chapas apresentaram o passo seguinte, qual seja, a reforma das dependências da quadra. Isto vai ao encontro do projeto de tornar mais atraente a sede para os integrantes que habitam regiões distantes do centro de São Paulo.

Além da reforma da infraestrutura do espaço central de sociabilidade da torcida, houve muitas promessas quanto à necessidade imperiosa de informatização. Isto quer dizer que a confecção das carteirinhas, os pagamentos de mensalidade, a inscrição nos cursos de inclusão digital e mesmo as eleições eletrônicas nas localidades de residência dos associados têm de lidar com este fenômeno contemporâneo crucial, que é a mediação das relações da entidade com seus sócios via informática, redes sociais e outras plataformas interativas.

Outro discurso recorrente na boca dos candidatos à presidência dos Gaviões em 2018 foi o “resgate da ideologia”. Tal resgate passa pela reivindicação do lema moral do grupo, traduzido nas palavras: “Lealdade, Humildade e Procedimento”. Para quem não pertence ao grupo, determinados significados da sigla LHP podem escapar, mas em termos acadêmicos pode-se dizer que ela funciona como uma ancoragem discursiva da memória coletiva com relação às origens da torcida.

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“Lealdade, Humildade e Procedimento”. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

A “ideologia” da torcida costuma ser transmitida de geração a geração nas reuniões de admissão ao grupo, quando um componente mais velho conta aos neófitos a história da torcida e a sua memória geracional. Cabe ao palestrante transmitir os ensinamentos em torno do que um gavião pode ou não fazer. Isto é traduzido na palavra “Procedimento”. Nesta retórica, reitera-se a lição de que os tempos mudam, mas que o ideal da torcida jamais pode ser alterado ou esquecido.

Ensina-se ainda que historicamente os Gaviões se constituíram como uma “força independente” em relação ao clube. Ela é, pois, fiscalizadora, missionária e altruísta. Ela age em benefício do Corinthians, sem nunca poder se beneficiar ou tirar proveito pessoal do time. Apoiá-lo sempre, cobrá-lo quando necessário e impedi-lo de ser dominado por figuras autoritárias, como o ex-presidente Wadih Helu, visto como ditador, contra quem os Gaviões se insurgiram e assim surgiram.

A aversão ao autoritarismo é uma constante na mitologia de origem dos Gaviões da Fiel. Talvez por isto seja uma das únicas torcidas que cultiva o exercício democrático, realizando periodicamente eleições. No jargão das torcidas, ela “não tem dono”, como se diz em relação a muitas outras agremiações dominadas por chefes e líderes autocráticos, que se impõem pela força física e pela intimidação.

Por suposto, nesse ambiente, não se pode ser inocente e acreditar apenas nas palavras de fachada. Os Gaviões protagonizam igualmente uma disputa pelo poder que envolve animosidades, rivalidades e litígios entre as chapas concorrentes. A certa altura das eleições, uma informante me disse que o processo eleitoral estava “uma guerra”. Tensões e princípio de brigas aconteceram nas arquibancadas nos meses que antecederam a votação. Em Osasco, um bar foi fechado para impedir a reunião de apresentação de uma candidatura aos torcedores locais. No debate ocorrido na rádio, acima mencionada, duas chapas se recusaram ao diálogo, não comparecendo e não atendendo ao convite.

Todavia, a meu juízo, o simples fato de uma torcida organizada convocar eleições, cultivar a alternância de poder, criticar o imaginário autoritário e de conseguir realizar votações regularmente há décadas seguidas constitui por si só um sinal auspicioso e bastante positivo.

Ademais, como se sabe, outubro de 2018 é mês e ano de eleições gerais no Brasil. Elas deverão marcadas muito provavelmente por radicalizações, intolerâncias e flertes expressos com discursos autoritários. Com todos os problemas que rondam o conturbado universo das torcidas organizadas, olhar para a experiência da democracia política nos Gaviões da Fiel talvez seja um exercício interessante de aprendizagem democrática e de desconstrução da imagem dos que são tradicionalmente vistos como incivilizados. Abre-se, em seu lugar, e com outras lentes, a possibilidade de constituição de um movimento social legítimo, includente e participativo.

Fica assim a lição histórico-esportiva mais importante de todas: “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.