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Elogio aos zagueiros

Alexandre Fernandez Vaz

A mitologia do futebol brasileiro, em especial a que se constrói em torno do futebol-arte, é a dos atacantes[1]. É o mesmo na Argentina, mas com mais nuances, talvez um tanto menos no Uruguai. Na Europa, também se celebra o ataque, mas a admiração é mais equilibrada. Leônidas, Baltazar, Pelé, Garrincha, Reinaldo, Zico, Roberto, Careca, Neto, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Adriano, Neymar. Há muitos outros.

É do gol, principalmente do gol bonito, ou do da vitória, que se fala. Nossa memória futebolística se compõe com muita frequência pelos melhores lances de uma partida, aqueles escolhidos pelo editor de imagens ou quem quer que o faça, correspondendo aos nossos anseios de telespectadores: ver gols. Na seleção dos melhores momentos do jogo, às vezes se lembra do goleiro e de suas defesas espetaculares que evitaram a vitória do time adversário. Por outro lado, um gol perdido nem de perto é criticado como uma falha decisiva do último jogador a guardar a meta. Atacantes geralmente são perdoados, goleiros jamais.

Se no campo de jogo, visto pela televisão, somos dependentes do diretor de TV, que aciona as câmeras que correspondem à captação do movimento em torno da pelota, é ela em seu lugar de disputa – emoldurada pela narração frenética, tão comum no Brasil – que acaba por nos interessar. A inteireza do jogo em curso, possível de ser observada com o campo totalmente disponível aos olhos, e não apenas pela quadradura da tela, oferece a chance de uma mirada mais ampla e mais analítica, sem que se perca a fascinação de torcer. É só esse olhar que convida à admiração pelos movimentos dos zagueiros, com e sem a bola.

Pouco se fala dos defensores em nossa cultura. Talvez o único de fato celebrado seja Domingos da Guia. Se pensarmos na defesa como um todo, os laterais são lembrados, mas muito mais por suas aventuras no ataque, como Carlos Alberto Torres, do que por sua eficiência defensiva, à exceção, talvez, de Nílton Santos – mas também valorizado por um gol na Copa de 1958, que para cuja consecução se exigira a desobediência ao treinador Feola – e de seu correlato pela direita, Djalma Santos. Nílton é nome de estádio no Rio de Janeiro, mas isso em parte talvez tenha a ver com o debacle de sua saúde e com a desmoralização de João Havelange depois de que se descobriu que ele se envolvera com ações corruptas. E, claro, pelo fato de que o Engenhão é administrado pelo Botafogo de Futebol e Regatas, no qual o lateral-esquerdo foi grande ídolo.

BELO HORIZONTE / BRASIL (14.04.2018) Cruzeiro x Gremio, partida valida pela 1ª rodada do Campeonato Brasileiro, no Mineirao, em Belo Horizonte-MG © Washington Alves/Light Press

Elogio aos zagueiros. Foto: © Washington Alves/Light Press.

No final dos anos 1970 eu já admirava os zagueiros. Meu pai havia jogado de “beque-central” na várzea em São Paulo, e ainda bateu bem na bola até aquela época; meu irmão, de pivô de futebol de salão, transformou-se em um defensor técnico e rápido no campo. Admirávamos o Amaral, que surgira no Guarani de Campinas e destaque no Corinthians e na seleção brasileira. Ele era o “cavalo do mocinho”, saía atrás dos atacantes e chegava antes deles, como nos filmes de faroeste que passavam à tarde. Além disso, matava a bola no peito, na pequena área para que o goleiro a alcançasse, em tempos em que ainda era permitido o passe dos jogadores de linha para os arqueiros.

Entre os defensores, antes de Amaral, e depois dele, foram muitos os que admirei e admiro. Os primeiros foram Luís Pereira e Marinho Peres, dupla de zaga da seleção brasileira na Copa de 1974. Ambos eram excelentes, sabiam jogar, o primeiro ainda anularia Rivelino na final do Paulista daquele ano, quando o Corinthians completou vinte anos sem título, o segundo seria bicampeão brasileiro pelo Inter de Porto Alegre. Luís Pereira logo foi para Madri para brilhar no Atlético durante várias temporadas, voltando ao Brasil em 1980, para jogar no Flamengo. Lembro-me de ver uma entrevista de Luís logo ao chegar, com indisfarçável sotaque espanhol, o que me deixou muito surpreso. Mais ou menos como outro excelente beque, Aldair, formado no Flamengo e com grandes atuações por Benfica, Roma (onde foi muito longevo) e seleção brasileira. No Mundial de 2014 fez sóbria dupla, habilidosa, com Márcio Santos. Aldair cultivou um sonoro acento romano em mais de uma de suas poucas entrevistas ao longo da carreira.

O primeiro de todos eles a me impressionar foi, suponho, Elias Figueroa, dupla de Marinho Perez no bicampeonato do Colorado em 1975-1976, capitão do time e chefe da execução da linha de impedimento, movimento tático que exigia inteligência, sincronia e atenção. Uma ou outra vez a linha falhou, como no gol de Zenon, do Guarani, em 1978, mas, em geral, quando bem conduzida, e em tempos de mobilidade mais reduzida dos atacantes, funcionava. O chileno era bom pelo alto e na saída de bola, entre tantas qualidades, mas também abusava da violência, principalmente com os cotovelos. Na final de 1975 agrediu Palhinha, do Cruzeiro, para receber o troco no ano seguinte, em novo encontro das equipes pela Copa Libertadores. Naquela mesma época, o zagueiro Moisés, de Vasco e Corinthians, entre outras equipes, dizia que bom zagueiro não ganhava o Troféu Belford Duarte, prêmio destinado aos mais disciplinados futebolistas. Esse tempo não acabou, infelizmente, haja visto o técnico e violento Sergio Ramos, mas melhorou muito. Como disse recentemente Maradona, craque da zaga não é o xerife da zaga do Madrid, mas Diego Godín, do Atlético e da seleção do Uruguai. Como quase sempre, quando se trata de futebol, o outro Diego, argentino e o maior de todos, tem razão.

Algo que lamento que já não exista é a função de líbero, misto de zagueiro e armador, a ser o último defensor antes do goleiro, mas com liberdade para cobrir os espaços, sair jogando, surpreender no ataque. O mais importante, sem dúvidas, foi Franz Beckenbauer, líder do Bayern de Munique e da seleção da Alemanha, campeã da Europa em 1972 e do Mundo dois anos depois, em casa. Depois dele, Franco Baresi, do Milan, e Matthias Sammer, do Borussia Dortmund, foram os melhores que vi jogar. Por aqui, quase nunca tivemos alguém na função, nem mesmo o excelente Mauro Galvão na Copa de 1990, quando atuou muito mais um terceiro zagueiro. De todos, Válber, do São Paulo de Telê Santana, entre 1992 e 1994 talvez tenha sido o mais efetivo. Habilidoso, versátil, com grande visão de jogo, poderia ter chegado a craque, caso a história pudesse ter sido diferente do que foi.

Longa vida aos zagueiros, aos rápidos, habilidosos, técnicos, que jogam firme, mas sem deslealdade, longe do estereótipo do rebatedor, desleal, simulador, adepto dos chutões e da intimidação. Longa vida ao futebol bem jogado.

Ilha de Santa Catarina, agosto de 2018.


[1] Trabalhei um pouco esta ideia em Soccer, Improvisation, Clichés: Brazilianness in Dispute. Critical Studies in Improvisation / Études critiques en improvisation, Vol 7, No 1 (2011).