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Elogio da espera: ser suplente

Alexandre Fernandez Vaz

Em 2012, quando o Corinthians foi campeão mundial, em Yokohama, o principal reforço em relação ao grupo que vencera a Copa Libertadores no mesmo ano era Paolo Guerrero. O atacante vinha de oito anos de atuação na Bundesliga, a principal divisão do futebol alemão. Fazendo jus à expectativa, o peruano foi o autor dos dois gols que o Timão marcou no Japão. Pouco antes da competição, o alvinegro havia contratado outro jogador experiente, mas de defesa, para ficar na suplência de Chicão e Paulo André, que contava com o jovem Felipe, então um atabalhoado zagueiro, mas em quem a comissão técnica apostava muito. De fato, Felipe fez ótimas campanhas nos anos seguintes, transferiu-se para o Porto, chegou à seleção e começa agora sua trajetória no Atlético de Madrid. O calejado atleta incorporado para o Mundial foi Anderson Polga, zagueiro técnico e seguro, que compôs o elenco campeão, da mesma forma como fizera na seleção de 2002, vencedora na Copa realizada no Japão e na Coréia. Duas vezes campeão do mundo, mesmo sem entrar em campo, como acontece, aliás, com muitos.

Anderson Polga, suplente no pentacampeonato, fazendo aquecimento para jogo da seleção brasileira. Foto: Reprodução/Twitter/@CBF_Futebol.

Suplentes que nunca ou quase nunca entram em campo não são exceção no futebol. Que se lembre das quase duas décadas de titularidade inquestionável de Rogério Ceni no gol do São Paulo, relegando bons goleiros como Bosco e Roger a treinar, concentrar, fazer aquecimento e sentar no banco de reservas. Projetado pelo Sport Recife, o primeiro chegaria à seleção e passaria por outros clubes antes do Tricolor. Seis anos no clube, importantes títulos, raramente jogando. Quase como Rubinho, arqueiro formado no Corinthians, que em quatro anos de Juventus Turim como terceira opção, venceu títulos, mas sequer a lista dos relacionados costumava frequentar. Diz-se que ambos eram importantes no vestiário, assim como Roger – também muitas vezes campeão, mas mais conhecido por ter posado para uma revista de nu masculino do que pelo desempenho sob as traves – também teria sido.

Não deve ser fácil para um profissional jogar pouco, embora Tostão diga que há os que prefiram entrar com o jogo em andamento, talvez com responsabilidade reduzida. Não sei se por isso, mas há excelentes jogadores que não chegam a se firmar como titulares, como foi o caso de Escurinho, centroavante do grande Inter dos anos 1970, que constantemente entrava vestindo a camiseta 14 para, de cabeça, marcar. Também atacante, Dinei, com a 18 do Corinthians, foi importante para o título brasileiro de 1998, com gols no segundo tempo de várias partidas, inclusive na final.

Dinei foi tricampeão brasileiro pelo Corinthians. Nas três campanhas, era suplente. Foto: Reprodução.

Há os reservas que são sombra para os titulares. O mesmo Tostão conta que na Copa de 1970, no difícil jogo contra a seleção da Inglaterra, muito marcado, viu de relance que Zagallo chamava Roberto Miranda para substituí-lo. Logo depois o cruzeirense, mesmo de costas, armou a jogada para o foguete disparado por Jairzinho na saída do goleiro Gordon Banks (aquele que, no mesmo jogo, defendera a perfeita cabeçada de Pelé – gol que não aconteceu, mas que começava a ser comemorado antes do milagre perpetrado pelo inglês).

Roberto Miranda, o segundo da esquerda para a direita, suplente na Copa do Mundo de 1970, era titular da seleção olímpica de 1964. Foto: Arquivo Nacional/CBF.

E o que dizer dos que não ficam no banco para que sua presença não ameace o titular a ponto de atrapalhá-lo? Por que Hugo Gatti não foi convocado entre os três arqueiros que foram ao Mundial de 1978, pela Argentina? Ídolo do Boca Juniors, campeão da Libertadores e do Intercontinental naquele ano, não poderia ser suplente de Ubaldo Fillol, titular da seleção e do River Plate? Talvez Menotti não pudesse ter El Loco no plantel, disponível, mas sem jogar, de forma que Fillol não se sentisse pressionado; e ademais sofrendo a tremenda exigência xeneize para de imediato escalá-lo em o caso de falha do titular.

Hugo Gatti posou com a camisa do Boca Juniors, em 1977. Foto: Wikipedia.

Por falar em goleiros, Emerson Leão esteve em quatro Copas, duas como titular (1974, 1978, nesta última como capitão), duas na suplência. No elenco campeão de 1970, o jovem goleiro fora titular com Saldanha, mas sob a direção de Zagallo só depois da contusão do ponteiro Rogério foi convocado, completando o grupo de arqueiros que já tinha Ado e Félix. Sem ter sido chamado por Telê Santana em 1982, foi ao México quatro anos depois, aos 36 anos, como reserva de Carlos, que havia sido o terceiro goleiro em 1978. Do banco, viu a desclassificação frente à França em disputa de pênaltis. Em um deles, o titular saltou para o canto correto, mas a pelota, que encontrara a trave, chocou-se com as costas do brasileiro e foi morrer no fundo da rede. No mesmo Mundial, Zico ficou no banco para, na proposta de Telê, jogar quinze ou vinte minutos quando necessário, o máximo que dava para o craque, ainda em recuperação – que nunca acabaria – da grave lesão sofrida em 1985. O camisa 10 entrava, contribuía com sua habilidade e técnica. Sim, perdeu o fatídico pênalti contra a França, depois do passe que levou à falta em Branco dentro da área. Não teve medo da responsabilidade de ser o principal cobrador da seleção, apesar de recém ter entrado e da presença de Sócrates, que se oferecera para o chute. Não chegou a uma dezena o número de penalidades desperdiçadas pelo flamenguista ao longo de sua carreira.

Sempre me interessei pela condição dos suplentes, talvez porque em minhas breves incursões no futebol essa tenha sido minha mais corriqueira posição. Isso logo mudou, não porque eu tenha me tornado protagonista, mas porque precocemente me profissionalizei no atletismo e abandonei a prática de outros esportes. Nunca esqueci, no entanto, da leitura de Jogando com Pelé, que meu pai presenteou a meu irmão e a mim quando pequenos, do qual destaco uma observação sobre o reserva. Que tentasse ser o melhor entre os do banco e estivesse preparado para entrar a qualquer momento. O Rei, aliás, já como jogador consagrado, esteve entre os suplentes da seleção. Nos anos 1980, uma coleção de fotos de Pelé na Revista Placar o mostrava, em uma delas, com a camiseta de número 13. A legenda era enfática: “A injustiça”.

O dia em que Pelé vestiu a camisa 13 e foi banco na seleção brasileira. Foto: CBF.

Jogadores respeitam treinadores que são justos na escalação das equipes que dirigem. Aceitam a condição de suplentes, mesmo a contragosto, quando são tratados com honestidade e fica claro que o está em jogo é o êxito do time. Reclamar por estar no banco é com frequência interpretado como desrespeito aos que estão escalados para começar o jogo. Há que admirar os que, partida após partida, ficam prontos para a disputa, mas esperam.

Esperar, não raro, é importante.

Ilha de Santa Catarina, setembro de 2019.