130.44

“Em Minas TEM futebol: a hipocrisia do Clube dos 13”

Gabriely Silva Zeferino

Neste texto, vamos falar sobre a síndrome do vira-lata e o futebol mineiro. Apesar de sermos rivais por natureza, a nossa opinião é bem incisiva no que se refere à frustração de ver um conterrâneo ‘torcer para time do eixo’. Peço desde já, desculpa para todo mineiro torcedor de time do eixo, ao clássico flamenguista e atleticano, também aos defensores da ‘união flazeiro’ ou qualquer um que possa se sentir ofendido ou desrespeitado ressaltamos o Flamengo devido ao fato de ser o time de fora do Estado que possui maior torcida em Minas.

Ser amante de futebol é algo bem complicado, porque ao mesmo que fornece uma alegria muito grande, traz também uma frustração. Os times mineiros são desvalorizados nacionalmente. Mesmo apesar dos inúmeros títulos conquistados, da excelente campanha, qualidade dos centros de treinamento (CT) ou dos investimentos, raramente serão favoritos em alguma competição. Este relato vai bem além de um desabafo de uma torcedora atleticana ou cruzeirense, pauta-se no cenário do futebol mineiro.

Atlético-MG e Cruzeiro pelo Campeonato Mineiro 2020, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte. Foto: Bruno Cantini/Agência Galo/Atlético.

A hegemonia mineira no cenário futebolístico nos anos de 2013 e 2014 comprova isso. Os holofotes voltaram-se para o estado de Minas Gerais durante esse período. E, finalmente jogando para escanteio a homogeneidade a qual era preconizada pelos times do eixo –, é  importante pensarmos que a quebra da hipervalorização dos times do eixo a partir da crescente evolução do sistema tático e dos cartolas os dirigentes dos clubes foi um verdadeiro pênalti aos 45 minutos do segundo tempo para toda a imprensa, principalmente as dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

O Clube dos 13

A União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro, popularmente conhecido como Clube dos 13 (C13), foi criado para defender os interesses políticos e comerciais dos seguintes clubes: Atlético MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco. Mesmo após 33 anos de sua fundação, há a permanência destes clubes na elite do futebol brasileiro alguns no imaginário e outros na conquista de títulos.

Clube dos 13. Imagem de Divulgação/Reprodução

Clube dos 13.

Ao longo dos anos, outros clubes foram incorporados a C13, chegando ao total de 20 equipes. O que poucos sabem é que sempre existiu a preferência de privilegiar determinados times da região sudeste. Isto demonstra que o jogo nunca se limitou às quatro linhas, o extracampo dependia de representação e influência nem sempre concedidas às Minas Gerais. 

Como mineiras e amantes de futebol, era impossível não retratar e criticar a preferência aos times do Eixo Rio-SP. Principalmente se pararmos para pensar que os times de nosso estado já tiveram e ainda temos os dias de cá e lá, e lá e cá dentro das quatro linhas. Demonstrando sempre um futebol de qualidade, caracterizado taticamente pela sua dinâmica, jogos movimentados, jogadores motivados, e como torcedoras, não podemos de deixar de falar aqui da importância da camisa 12 dentro e fora de campo.

Em Minas Gerais, tem futebol! A hipocrisia do C13 não começou com a valorização de um clube em relação a outro. E, sim, com a exclusão dos inúmeros times de futebol profissional espalhados pelo país. Os principais representantes do futebol mineiro são: América MG, Atlético MG e Cruzeiro. Curiosamente ou não, são os times da capital mineira. Não há como culpar apenas as ‘Cotas de TV’, pois a receita destes times contam com bilheterias, patrocínios e sócios. Além da tão odiosa síndrome do vira-lata, mas a disparidade no futebol mineiro fica para outro texto.

Ainda falando da televisão, por que  a TV Mineira ao transmitir jogos valorizava Flamengo e Corinthians? Por que os times do eixo Rio-SP sempre tinham uma maior distribuição de tempo e conteúdo nos programas esportivos? A formação de uma identidade e de uma memória coletiva surge através de ações com esta. Sem dúvida, a mídia influenciou na escolha dos mineiros na hora de torcer, inserindo a síndrome do vira-lata. Principalmente quando vamos analisar as cidades fora da capital mineira e a torcida para fora do estado. Como torcer para um time que você não acompanha notícias ou sequer vê os jogos? Durante muitos anos, esta foi a realidade do torcedor mineiro. A síndrome do vira-lata chegou, e o torcedor acabou criando uma simpatia inconsciente para os times de fora do estado.

Futebol mineiro nos anos de 2013 e 2014

Como mineira e com o coração 100% alvinegro, é impossível não me recordar do ano de 2013, quando o chamado “cavalo paraguaio” por um apresentador de um programa da televisão aberta de São Paulo conquistou na raça a Copa Libertadores da América. Como não me lembrar, com eterna saudade, da Copa do Brasil do ano seguinte, quando o Atlético MG, que entrou nas oitavas de final por ter sido campeão da Copa Libertadores da América de 2013, enfrentou dois dos principais representantes do eixo: Corinthians e Flamengo?

Atlético campeão da Libertadores 2013. Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG.

O resultado? Um ponto verossimilhante entre ambos os casos, o Atlético perdia fora de casa e voltava para o nosso estado a base do “eu acredito grito popularmente conhecido a partir das partidas da Copa Libertadores de 2013, quando o time encontrava um placar considerado difícil por se tratar de um torneio de nosso continente. O resultado no horto só podia ser um: “caiu no horto, tá morto”, o Atlético pode ter sido considerado no ano de 2014, na Copa do Brasil, o time copeiro, o qual eliminou dois times do eixo e seu maior rival histórico, o Cruzeiro Esporte Clube. Como não lembrar do dia 26 de novembro de 2014, não é mesmo torcedor atleticano? Quando a final da Copa do Brasil foi, nada mais nada menos, que um clássico mineiro, sô. E o resultado? Bem, vamos aguardar a quarta-feira do Goulart pra relevar pra vocês. 

Do outro lado da lagoa, enquanto o Atlético jogava a Copa Libertadores, o Cruzeiro dominava com tamanha destreza o cenário nacional. Um time, que foi campeão faltando quatro rodadas para o término do Brasileirão. O time que ninguém dava nada por ele simplesmente porque era um time formado, em sua maioria, por considerados “desconhecidos” pela mídia, e por alguns jogadores que tinham estrela, e mal nós sabíamos que seria uma verdadeira seleção, onde todos os jogadores mostravam tamanha raça, que iriam fazer a frase “o jogador tem estrela” tomar um novo rumo de significação, uma dimensão de tamanha relevância para o estado de Minas, o cenário nacional, e ainda, uma viabilização do cenário intercontinental, la bestia negra estava de volta, senhoras e senhores. Expressões como carimbar, chapéu, chutaço, chuva de gols e fechar o gol eram consideradas sinônimos para o Cruzeiro Esporte Clube.

Como cruzeirense, eu não consigo lembrar de um só ano. Sempre estive acostumada a levantar taças, o meu time não se limitou aos gramados de Minas Gerais para escrever páginas heroicas e imortais. Porém, para não escutar tanta choradeira por parte dos torcedores e cartolas do outro time mineiro, vou me limitar aos gloriosos anos de 2013 e 2014.

Jogadores do Cruzeiro erguem a taça de campeão brasileiro de 2014. Foto: Divulgação.

Que bicampeonato maravilhoso, os números são impressionante, somam 15 empates e 14 derrotas. A vaidade esteve estampada no rosto do torcedor durante esses anos, o resultado final da partida pouco importava, pois nenhum jogador ousaria fazer corpo mole. O Camisa 12 celeste sempre foi apaixonado, duramente criticado e tarjado de “torcida modinha” se é que isso existe. Acho que nunca esquecerei a famosa frase do Dagoberto: “eu não sei a música, mas eu tô cantando“. Bom, eu sei, Dagol, e ela diz assim: “Nós somos loucos, somos Cruzeiro”.

E é assim que os anos de 2013 e 2014 ficaram marcados na nossa memória, uma loucura chamada: protagonismo mineiro. Sinto muito te informar, mas Minas Gerais não pode aceitar mais a síndrome do vira-lata. Por fim, para carimbar a rede, mandamos um caloroso abraço mineiro para todos aqueles que pediam incessantemente o fim dos pontos corridos e que nos taxavam de zebra.