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Em nome do pai: Pelé e Edinho

Alexandre Fernandez Vaz

Um filho de Pelé como goleiro, chegando a titular de uma equipe de primeiro nível, finalista de um Brasileirão. Isso sempre me pareceu inusitado. Não foi longa a carreira de Edinho, mas deixou lá sua marca. Fosse outro o resultado da final contra o Botafogo de Futebol e Regatas em 1995, tivesse o Santos Futebol Clube vencido e se tornado campeão brasileiro, quem sabe não teria o improvável arqueiro uma carreira longeva e ainda mais bem-sucedida? Mas não foi isso que aconteceu e o destino não reservou glórias para o herdeiro do melhor jogador de futebol jamais visto.

Na lembrança dos corintianos, que tanto sofreram com o Rei, Edinho figura como vítima do golaço de Marcelinho Carioca na Vila Belmiro em 1996, tento que lhe valeu uma placa no estádio. A homenagem foi avalizada pelo próprio Pelé – ele, aliás, personagem do primeiro gol de placa, na expressão inadvertidamente criada por Joelmir Betting, no Maracanã, em 1960. O jornalista, que anos depois se tornaria conhecido como especialista em economia, pagou ele mesmo a confecção do bronze e sua fixação no então maior estádio do mundo.

Edinho, ex-goleiro e atual coordenador técnico e de desenvolvimento das categorias de base do Santos. Foto: Divulgação/Santos FC.

Há algumas semanas Edinho voltou ao noticiário ao declarar que o pai estaria deprimido, estado derivado das dificuldades de deslocamento que o acometem depois de um procedimento cirúrgico em que teria sido cometido um erro. Pelé, ademais, não teria realizado os cuidados fisioterápicos necessários para a plena recuperação. O hospital em que a cirurgia foi feita nega o equívoco. A afirmação do filho repercutiu de forma intensa, como tudo que se refere ao pai, agravando-se por se referir à decadência de um máximo exemplo de potência corporal agora em cadeira de rodas, o homem confiante vencido pela depressão.

A condição física de Pelé, mesmo depois de sua aposentadoria do futebol, sempre foi excelente, a ponto de ele se colocar à disposição para jogar a Copa de 1986, aos quarenta e seis anos – oferta que foi rechaçada por Telê Santana – e, quatro anos depois, atuar pelo selecionado brasileiro em amistoso contra uma seleção da FIFA, precisamente em comemoração ao seu meio século de vida. Por pouco, aliás, não fez um gol.

Edinho procurou se corrigir, expressara-se mal, responsabilizou a alfabetização em inglês por esse e outros percalços em língua nacional. O próprio Pelé veio a público para confirmar que não era de depressão que se tratava. O sorriso do quase octogenário reapareceu em fotos e imagens televisivas ao posar com a estátua que o representa como jogador da Copa de 1970, peça do há pouco inaugurado Museu da Seleção, no Rio de Janeiro.

Pelé ao lado da estátua de cera, em sua residência no Guarujá-SP, exposta no Museu Seleção Brasileira. Foto: Jorge Bispo/CBF.

O gol não assinalado contra o combinado da FIFA não fez falta, Pelé marcou mil e tantos ao longo da carreira, mas também soube impedi-los. Lembro de quando criança ler que o Rei jogara quatro vezes defendendo a meta do Santos, geralmente por expulsão do camisa 1 do time. Uma delas foi na semifinal de Taça Brasil de 1963, o principal torneio nacional à época, quando atuou nos minutos finais da partida contra o Grêmio, realizada em janeiro do ano seguinte, no Pacaembu. Dizia-se, no ambiente do futebol de salão que meu irmão frequentava, que quem era bom de bola com os pés também se destacaria defendendo a meta. O exemplo seria o tricampeão mundial de futebol, o que era, claro, referência inalcançável para qualquer outra pessoa.

Foi exceção a herança futebolística que Pelé legou a Edinho? Parece que sim, apesar de ele, segundo asseveram muitos, jogar bem também com os pés. Um perfil escrito por Fábio Fujita, há pouco mais dez anos, para a Piauí, quando o ex-goleiro atuava na comissão técnica do elenco profissional do Santos, dá testemunho de sua habilidade às vezes convocada para completar o número de jogadores necessários para uma atividade tática. Além disso, diz-se que não faz feio no futevôlei. Foi, no entanto, no gol que Edinho se destacou, transferindo da prática de outros esportes, como o beisebol e o futebol americano, a habilidade com as mãos para defender o arco.

Edinho saiu da prisão há pouco tempo, sem que tenha sido essa a primeira vez. Nela cumpria pena por associação ao tráfico de drogas, acusação que ele nega. A coisa se deu por sua relação com o traficante Naldinho, filho do ex-jogador Pitico, amigo e colega do pai no Santos, depois levado por ele para atuar consigo também no Cosmos de Nova York. Entre o alvinegro praiano e a equipe de astros estadunidense, Pitico passou por diversas equipes, entre elas a Lusa Santista, com direito até à série de jogos na Europa e na África. A globalização do futebol passou, durante décadas, por longas excursões de equipes brasileiras por outros continentes, o que com frequência sacrificou a participação nacional na Copa Libertadores. O grande Botafogo da década de 1970, por exemplo, jamais venceu a competição, mas deu muito espetáculo pelo mundo afora, em jogos e torneios amistosos.

Pelé e Edinho. Foto: Divulgação/Santos FC.

Pelé mais de uma vez destacou que as dificuldades de Edinho com a lei tinham a ver com certo desrespeito sofrido por ele, o pai. Malgrado as declarações infelizes do camisa 10 ao longo da vida, sua carreira é incomparável, assim como o lugar que alcançou na cultura contemporânea, incluindo aí toda a mitologia construída em torno dele. O reconhecimento dos brasileiros a tudo isso não é, no entanto, tão presente quanto poderia.

Não sei se Pelé tem razão, se fama e notoriedade influenciaram os processos. Um pai procura, dentro da lei, proteger seu filho e é isso que se espera dele. Foi o que ele fez. Amparado pelas boas atuações do filho, nos anos 1990 ele pedira a Zagalo, então técnico da seleção brasileira, uma chance para Edinho. Seu velho colega de conquistas não o atendeu e Pelé jamais o criticou.

Pai com tantos gols em carreira longeva, filho como goleiro ocasional. Edinho voltou a trabalhar no Santos, agora não mais como arqueiro ou membro da comissão técnica do time de cima, mas coordenando a formação de jogadores. Pelé está às voltas com as dificuldades para caminhar, envolto em alguma tristeza, ao que parece, mas sem depressão. A propósito, qual seria o grande problema de Pelé estar deprimido? Para ele, claro, seria ruim, como para qualquer um que está sob sofrimento psíquico em nível patológico. Depressão não é sinal de fraqueza de caráter ou coisa que o valha. Falemos mais delas, sem baixar a voz, no esporte e fora dele.
Filho do Rei sem ser o Príncipe. Não deve ser fácil.

Ilha de Santa Catarina, março de 2020.