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Em qual Mineirão você vai hoje?

Christian Matheus Kolanski Vieira

Durante décadas o torcedor mineiro se acostumou a circular no interior do Mineirão com “certas liberdades”, desde sua inauguração em 1965. Digo entre aspas, pois sair da Geral e ir para as Arquibancadas, por exemplo, ou mesmo adentrar os espaços destinados a torcida visitante sempre foram práticas não permitidas. Apesar disso, dentro do setor para o qual o torcedor comprara seu ingresso, a mobilidade era livre.

Era perfeitamente possível caminhar pela arquibancada lateral, passando pelo arco atrás do gol chegando até a lateral oposta. Prática comum para se evitar o sol, ver o jogo por outro ângulo, ficar mais perto do gol no qual seu time está atacando, se aproximar ou afastar das torcidas organizadas, para comer o tropeiro de algum bar específico de preferência do torcedor ou mesmo para encontrar com algum conhecido dentro do estádio que havia entrado por outro portão. Fato é, era uma prática que acontecia com regularidade.

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Vista da arquibancada do Mineirão em partida entre Cruzeiro e Atlético em 2008. Foto: Elmo Alves.

Entretanto, nos primeiros anos do século XXI foram colocadas grades de ferro nestes locais, iniciando um processo de cerceamento dos torcedores. Se antes as divisões eram em setores como, arquibancada, geral, etc, agora, cada um desses setores também possuem suas próprias divisões. Após o fechamento do estádio no período de Junho de 2010 à Dezembro de 2012, em decorrência de reformas para a Copa do Mundo de 2014, o Mineirão é reinaugurado para o futebol com uma série de mudanças em Fevereiro de 2013. Uma delas se refere ao aumento deste cerceamento durante as partidas.

São paredes de vidro que separam as arquibancadas (agora já não contamos mais com a geral), impedindo que quem esteja nas arquibancadas laterais se desloque para trás do gol ou mesmo para as arquibancadas do lado oposto, ou seja, impedindo que o torcedor “mude de cor”. Antes se comprava ingressos associados ao portão de entrada, portão 3, 6, 7A, etc, agora, se compra ingressos para o laranja, amarelo, vermelho ou roxo (seja na área inferior ou superior).

O espaço atrás do gol no qual a Máfia Azul se reunia durante os jogos antes da reforma (lado da cidade), agora ganhou um colorido amarelo. O lado oposto, onde a Galoucura costumava ficar (lado da lagoa), agora é o setor laranja. A lateral do campo onde se encontram as cabines de rádio, setor roxo, e a lateral oposta agora é o setor vermelho. Mas quais as implicações disso?

Em decorrência de minha participação no Grupo de Estudos Sobre Futebol e Torcidas (GEFuT-UFMG), tive a oportunidade de participar da pesquisa de campo desenvolvida pelo grupo no interior do Mineirão. A pesquisa tem como objetivo verificar a qual percepção dos torcedores presentes nos jogos sobre a reforma do estádio, utilizando como instrumento a aplicação de formulários. Desde 2014 estive presente em grande parte das partidas realizadas até o momento, e não apenas isso, também tive a oportunidade de assistir aos jogos a partir de “todas as cores” do estádio. A impressão que fica é que são estádios diferentes, pois cada setor guarda suas peculiaridades, que por sinal não são poucas e destoam entre esses espaços.

Divisão das arquibancadas por cores. Fonte: http://www.archdaily.com.br (montagem do autor do texto). Acesso em 03 de Dez. 2015.

Divisão das arquibancadas por cores. Fonte: http://www.archdaily.com.br (montagem do autor do texto). Acesso em 03 de Dez. 2015.

No setor laranja se encontram duas das maiores torcidas organizadas do Cruzeiro, Torcida Fanáti-Cruz (TFC) e China Azul. É um dos setores mais efusivos, mais animados e que mais festejam durante os jogos. Apesar das normativas FIFA solicitarem que os torcedores assistam às partidas sentados, no laranja essa orientação passa longe de ser atendida. É nele que se concentram os ingressos mais baratos, o que em tese o rotula como setor que agrupa grande parte dos torcedores com menor renda salarial. Como foi o ultimo a ter seu próprio plano de sócio-torcedor (a partir de Junho de 2015), por um longo período foi possível perceber no laranja que as pessoas que ali estavam presentes mudavam muito jogo a jogo, contando também com um grande contingente de excursionistas vindos em caravanas de outras cidades do interior de Minas Gerais e até mesmo de outros estados.

No setor amarelo se encontram duas outras grandes organizadas do Cruzeiro, Geral Celeste e Máfia Azul. Apesar de estrutura e visibilidade serem similares a do laranja, o setor amarelo guarda suas individualidades. Assim como no laranja, é um dos setores mais animados, onde a torcida mais canta, onde se conseguem os ingressos mais baratos e também não há quase nenhuma preocupação em obedecer a regra de assistir as partidas sentados. Por outro lado, se distancia em duas grandes questões: a repulsa de alguns torcedores do amarelo pelo laranja por historicamente ter se constituído como “lugar da Galoucura” e, sua grande ocupação por sócios. Diferente do laranja, dificilmente se consegue comprar ingressos na bilheteria para o amarelo, considerando que grande parte dos torcedores que ocupam este setor são sócios, o que cria alguns laços entre os mesmos naquele espaço.

No setor vermelho não há mais a presença de grandes organizadas, a TFC nos primeiros anos permanecia lá, mas no primeiro semestre de 2015 se transferiu para o laranja. No quesito participativo não chega nem perto da animação e festa realizada no amarelo e laranja, se restringindo a acompanhar alguns cânticos iniciados nos outros setores. É dos setores mais “organizados” no quesito assistir sentados às partidas em sua respectiva cadeira numerada. Não chega a ser uma unanimidade, mas é onde é comum presenciar torcedores reclamarem que há alguém sentado no seu lugar, algo que nunca presenciei nos setores amarelo e laranja. Os valores dos ingressos para este setor são intermediários quando comparados aos demais.

Se hoje uma das grandes discussões que paira nos estudos do futebol diz respeito a (possível) elitização dos torcedores presentes nos estádios, o setor roxo ajuda muito na busca por respostas. Além dos ingressos mais caros serem os deste setor, é nele que se localizam os camarotes. Para a última rodada do Brasileirão 2015 realizada no Mineirão, os ingressos do Cruzeiro foram para as bilheterias com os seguintes valores: Amarelo Inferior e Superior – esgotados (todos os ingressos foram adquiridos pelos sócios antes mesmo de abrir a venda nas bilheterias); Laranja Inferior – R$ 40; Laranja Superior – R$ 50; Vermelho – R$ 80; e, Roxo – R$ 120.

Seguindo pelo caminho oposto ao que acontece no laranja e no amarelo, no roxo, parece haver uma tremenda preocupação em se seguir os padrões de comportamento que nossa sociedade exige. As manifestações comemorativas, são mais contidas, é o que alguns chamam de “lugar de família”. Assistir jogo de pé, nem pensar! Só mesmo em alguns lances mais decisivos é “permitido” ficar de pé por um breve momento, antes que alguém reclame. Assim como no vermelho, há uma tendência das pessoas respeitarem os lugares uns dos outros, o que cria uma atmosfera amigável, já que a cada jogo são os mesmos torcedores que estão ao seu lado.

Belo Horizonte, 03 de fevereiro de 2013 Jogo de inauguracao do estadio Mineirao, com o classico Atletico e Cruzeiro. Foto: BRUNO MAGALHAES / NITRO

Vista interna do estádio Mineirão, em 2013, reformado para a Copa do Mundo. Foto: ME – Portal da Copa.

No final das contas a reforma trouxe muitas mudanças, algumas positivas outras nem tanto. Ao que parece, é que pelo menos no quesito gosto (deixando claro que não se pode ignorar os impactos financeiros), o Mineirão parece estar agradando mais: tem lugar para quem quer assistir de pé, vibrando, cantando, apoiando o jogo inteiro e tem lugar para quem quer assistir sentado, batendo palmas, sem ninguém na frente atrapalhando a visão; tem lugar para os adeptos das velhas tradições e tem lugar para os inovadores; tem lugar pra fazer festa e tem lugar pra assistir o jogo concentrado; tem lugar para quem apoia as organizadas e tem lugar para quem não as tolera. E aí, vai em qual Mineirão hoje?