126.29

“Em time que está ganhando não se mexe”: como títulos casuais ajudaram a destruir o Cruzeiro

Mateus de Paula Narciso Rocha

Em 2018, o Cruzeiro foi campeão da Copa do Brasil vencendo o Corinthians na “Arena”. O título transformou o Cruzeiro no maior vencedor do torneio, com seis taças, ultrapassando o Grêmio. A vitória renovou a confiança no trabalho de Mano Menezes, o comandante de um time de apresentações sofríveis, ou no popular: “de doer os olhos”. A conquista fez esquecer a eliminação na Libertadores, em casa, e a campanha fraca no Campeonato Brasileiro. Além disso, colocou muito dinheiro nos cofres celestes, algo em torno de 70 milhões de reais. Desse modo, salvou o ano e ainda assegurou a disputa da próxima Libertadores, com boa perspectiva de bilheteria. A diretoria viveu a glória momentânea, e os jogadores ganharam o suculento “bicho” da conquista, pago a conta gotas.

Comemoração dos jogadores cruzeirenses após eliminarem o Palmeiras, no segundo jogo das semifinais da Copa do Brasil 2018, no Mineirão, em Belo Horizonte/MG. Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro.

Dobrando a aposta

Sobreveio uma maré de aplausos e exaltações, poucos destoaram. Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, crítico reiterado do trabalho de Mano Menezes, destacou como era fraquíssimo o futebol do Cruzeiro. Outros jornalistas afirmaram como era arriscada e irresponsável a aposta financeira de ganhar um título para fechar o ano com as contas minimamente equilibradas. Mas nenhum diretor do Cruzeiro deu ouvidos. No contexto da glória, isso era filigrana, discurso ressentido. Sem surpresa, o “planejamento” para 2019 requentou a receita “vitoriosa”. Foi redobrada a aposta em jogadores experientes, aumentaram os salários astronômicos, e o treinador retranqueiro, caro e vitorioso, foi mantido no cargo. O que poderia dar errado?

Porém, a mesma receita que levou aos títulos em 2017/2018 culminou com o rebaixamento em 2019. E o Cruzeiro, um dos três maiores gastos salariais do campeonato, foi rebaixado vencendo 7 partidas em 38 rodadas. Várias hipóteses tentam explicar a catástrofe. Os adeptos da teoria da conspiração indicam que o problema foi o “Fantástico”, da Rede Globo, ter levantado o tapete e mostrado a sujeira da diretoria. A partir dali, o Cruzeiro entrou em queda livre. Outros indicam que o problema foi o erro pontual em uma ou outra contração em 2019. Não foi bem isso.

Algumas hipóteses são mais corretas. A insistência com os aposentados em atividade, o goleador “Fred” e o decisivo “Thiago Neves”, teve impacto direto na queda. O complô de Thiago Neves, Edílson, Fred, Egídio e Dedé para derrubar Rogério Ceni foi também um problema grave. Porém, uma coisa é o estopim, outra é o barril de pólvora. E as escalações e o complô dos medalhões não foram os explosivos, mas os estopins.

O sucesso fortuito e a catástrofe

A real causa da catástrofe foi a própria receita que levou aos dois títulos da Copa do Brasil. Os títulos foram, sem eufemismo, fortuitos. Assim, em nada se assemelham às conquistas dos Campeonatos Brasileiros de 2013 e 2014 e, muito menos, à campanha de 2003. Em 2017, o Cruzeiro passou aos tropeços na semifinal e na final, com duas vitórias nos pênaltis. Em 2018, o árbitro de Cruzeiro e Santos, nas quartas de final, encerrou a partida em meio a um feroz contra-ataque santista que possivelmente retiraria a Raposa da competição. O Cruzeiro teve méritos, mas não foi incontestável, venceu no limite e poderia ter caído em várias situações.

E teria sido melhor a queda. As conquistas casuais ratificaram um trabalho técnico fraquíssimo, uma administração financeira péssima, bem como respaldaram a continuidade de alguns jogadores medíocres, sem idade ou interesse para o futebol de alto nível.

Na história das guerras é conhecido como os vencedores, inebriados pelas conquistas, ampliaram os objetivos e repetiram as receitas dos prévios sucessos até o inesperado e generalizado fracasso. Do mesmo modo, os aproveitadores nas casas de apostas sabem que se deve deixar uma presa ter pequenas vitórias para depois capturar todas as economias do ambicioso inocente. A razão desses distintos processos é psicológica. As vitórias instigam o sentimento de invencibilidade, fortalecem a crença de que o futuro repetirá o presente e favorecem a ampliação das apostas.

“O torcedor pode ficar tranquilo”

“O torcedor pode ficar tranquilo”. Essas foram as repetidas palavras de Itair Machado, o real presidente do Cruzeiro, após a reportagem avassaladora do “Fantástico” em maio. Curiosamente, foram as conquistas e, por consequência, a tranquilidade para trabalhar que conduziram o Cruzeiro ao caos. Na ausência de inteligência e estratégia, faltou fracassar antes. As derrotas teriam ensinado mais, teriam pressionado a diretoria, o técnico e os jogadores, bem como possibilitado uma correção de curso inviável com o sucesso fortuito.

Agora, Inês é morta. O passado é imutável, mas deveria educar.