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Bicheiro Emil Pinheiro e o Carioca de 1989: Botafogo na cabeça

Fábio Areias

Fevereiro de 1987. Emil Pinheiro, bicheiro – ou corretor zoológico, como diziam as páginas de jornais da época – assume a diretoria de futebol do Botafogo de Futebol e Regatas. Uma figura serena, calma e de poucas palavras. Pouco entendia do riscado, mas tinha algo fundamental ao clube: dinheiro.

O Botafogo de 1987 pouco lembrava o clube vencedor da época de Garrincha, Didi, Nilton Santos e tantos outros craques. Amargava uma terrível fila de 19 anos sem títulos. O último havia sido o Estadual de 1968. Passou a década de 1970 sem conquistas e possivelmente os anos 1980 também seriam em branco. Faltavam alegrias, sobravam dívidas.

Além da seca de conquistas, em 1977, o clube ainda vendeu sua sede e estádio em General Severiano para a mineradora Vale do Rio Doce e se mudou para o distante (e quente) subúrbio, em Marechal Hermes. Uma estrutura precária em um ambiente desolador. Nem os apelos do histórico dirigente Carlito Rocha impediram a mudança. Mais um golpe na identidade botafoguense. Tu és o Glorioso, mas passou por momentos terríveis. O Botafogo precisava muito mais de Emil do que o contrário.

Segundo narra o livro 21 depois de 21, escrito pelos jornalistas Rafael Casé e Paulo Marcelo Sampaio, Emil foi um visionário: comprou em 1959 um ponto do jogo do bicho na Barra da Tijuca. Local isolado da cidade, mas com enorme potencial de crescimento. Com o controle total dos pontos de bicho da região, ficou milionário. Dinheiro que poderia ser usado na contratação de bons jogadores e altos salários. O que não seria possível em condições normais para o clube naquele momento.

Jogo do bicho: ilegal e tão enraizado em nossa cultura

Ainda de acordo com o livro, o amor de Emil Pinheiro pelo Botafogo foi devido ao filho Ernesto, que era botafoguense e havia morrido em um acidente de avião em 1978. A promessa de dar um título como forma de homenagem ao filho falecido foi o que fez Emil aceitar o desafio e não poupar esforços para alcançá-lo. “O Botafogo foi uma coisa para ele se apegar depois da morte do filho”, afirma na obra o radialista Walmir Luiz.

O sucesso não veio logo de cara. Com pouca experiência, Emil contratou bons jogadores e outros nem tanto. Caiu algumas vezes no conto de empresários que vendiam o novo Garrincha. Trouxe também muitos jogadores. Segundos relatos, em 1988, o Botafogo treinava com 44 atletas e em um ambiente de vaidade, pressão e falta de comprometimento. Não poderia dar certo, mesmo com nomes consagrados como Éder Aleixo, Marinho e Cláudio Adão. Mas aí chegou 1989.

O campeonato estadual do Rio de Janeiro de 1989 foi a redenção para os botafoguenses. Se o destino se mostrou tão traiçoeiro em anos anteriores, ele se redimiu (ao menos em partes) naquele momento, com a conquista do tão aguardado título. Não faltaram personagens e histórias: concentração em Friburgo, Valdir Espinosa, campanha invicta, Galvão e Gottardo, gol do Maurício na decisão com a camisa 7, vitória sobre o Flamengo, gandula Sonja, Nilton Santos nas arquibancadas… Teve também Emil, que, enfim, cumprira sua promessa a Ernesto. Naquele Rio de Janeiro de 1989, as estrelas brilharam na Terra. Não de forma solitária, mas juntas em uma catarse coletiva.

O que era impossível tinha acontecido. Só que Emil era um contraventor. E, nas histórias, o vilão não pode acabar bem. Em 1993, foi condenado junto com outros 13 bicheiros do Rio de Janeiro e preso por formação de quadrilha. Foi enxotado do Botafogo e deixou o clube à míngua, sem jogadores e sem seu dinheiro. Acabaria morrendo de Mal de Parkinson em 2001.

Do ponto de vista ético, não há como defender Emil. Mas também não há como negar sua importância em um momento delicadíssimo da história do Botafogo. Os vilões também podem fazer coisas boas. Poucos mocinhos poderiam entregar a alegria que esse malfeitor ofereceu a milhões de pessoas. Acertou no 21. Deu Botafogo na cabeça!