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Empodera: transformando o esporte pela presença de mulheres

Wagner Xavier de Camargo

Numa preguiçosa manhã de fins de novembro passado, numa sexta-feira sem qualquer pretensão, não imaginava que teria uma fantástica surpresa ao assistir a uma palestra virtual. “Vou fazer algumas colocações a vocês e peço que permaneçam com suas câmeras abertas, caso ninguém tenha sido afetada/o pelo que vou dizer”. Assim começou a conferencista Jane Moura, uma jovem e entusiasta feminista, co-fundadora da ONG Empodera, responsável por incentivar meninas e mulheres na prática do esporte.

E continuou: “Feche a câmera quem já foi excluída/o no esporte; feche a câmera quem já foi discriminada/o por colegas; feche a câmera quem foi inferiorizada/a por chacotas ou piadas de professores; feche a câmera quem já passou por situações de assédio”. Essas foram algumas das situações disparadas. Grande parte das mulheres do auditório virtual se manteve com suas câmeras fechadas do início ao fim da atividade.

Nesse momento, todas as pessoas que assistiam estavam capturadas pelo carisma da apresentadora e pelo seu poder hipnótico nas palavras.

Imagem: Reprodução Empodera

A realidade trazida por ela marca profundamente a experiência de muitos na sociedade brasileira, particularmente as mulheres. Eu mesmo, não sendo uma delas, passei por quase todas as circunstâncias elencadas. No entanto, o histórico de inferiorização, exclusão, discriminação de mulheres em arenas esportivas é enorme e muito comum em nosso país, e não é de hoje.

Contra isso, nasceu em 2017 a ONG “Empodera – Transformação Social pelo Esporte”, fundada por Jane Moura e Thaís Olivetti Silva, sediada no Rio de Janeiro, mas de atuação nacional. Apesar de lutar por uma sociedade mais igualitária, a ONG tem por missão “empoderar meninas adolescentes em situação de vulnerabilidade social para exercerem seu pleno potencial e direitos, utilizando os jogos lúdicos e o esporte como ferramenta”.

As mulheres tiveram uma trajetória de inserção tardia nos esportes em nível nacional, ainda em fins do século XIX. Em especial, ao longo do século XX, foram afetadas por legislações que as proibiram de usar seus corpos nos esportes, em prol de proteger suas “naturezas”, mantendo-as em funções designadas para elas. Vale citar o Decreto-Lei n. 3.199, de abril de 1941, do Conselho Nacional de Desportos, que considerava a prática esportiva “incompatível” com o corpo de uma mulher. Muitas intelectuais brasileiras já pesquisaram e escreveram sobre isso, denunciando o caráter arbitrário de leis e órgãos oficiais, bem como o machismo estrutural no mundo dos esportes e a misoginia disfarçada de proteção.

Jane sabe disso e destacou que práticas excludentes acompanham ainda as mulheres, haja vista a desvalorização de suas expressões futebolísticas (em comparação com o futebol de homens) e mesmo a falta de mulheres em cargos de chefia ou de poder no esporte. O projeto Empodera tem como meta o aumento da agência de meninas e mulheres para que tais lugares, considerados privilegiados, sejam alcançados e ocupados.

Trata-se, segundo ela, de criação de espaços seguros e inclusivos de práticas esportivas para essas mulheres, e também de suporte técnico para que organizações e entidades, locais e nacionais, possam desenvolver um trabalho nessa direção. Isso ocorre por meio de metodologias que promovem a implantação direta de programas esportivos, focando o empoderamento de meninas e adolescentes mulheres, principalmente em tenras idades.

Por meio de um curto vídeo, Jane nos mostrou tal metodologia a partir de atividades que começam com um círculo inicial para a introdução de uma temática relativa ao projeto, seguido de um aquecimento por meio de uma prática corporal coletiva e interativa, depois ocorre uma prática esportiva (geralmente um jogo cooperativo) e, por fim, uma roda de conversa, que se baseia em uma discussão grupal das dinâmicas de jogo, das habilidades desenvolvidas e de outras relações que apareceram entre praticantes.

Interessante perceber que, por trás da simples atividade criada para as meninas, está um trabalho bem mais profundo, de amparo e valoração às suas autoestimas, de incentivo a lideranças, de reconhecimento de seus direitos sociais e sexuais, ou mesmo de enfrentamento concreto da violência perpetrada em sociedade contra elas.

Dentre os projetos citados, de acordo com ela o que se destaca é o “Uma Vitória Leva à Outra”, um programa conjunto entre a ONU Mulheres e o Comitê Olímpico Internacional (COI), em parceria com a entidade internacional Women Win e alguns patrocinadores privados brasileiros. Ele acontece nas comunidades pobres do Rio de Janeiro (Maré, Morro do Alemão, Cidade de Deus, e outras).

Foto: Reprodução Empodera

O público é composto por meninas adolescentes de 12 a 18 anos, atendidas duas vezes na semana, que desenvolvem oficinas temáticas e práticas esportivas de variadas modalidades. A finalidade básica é “reduzir estereótipos de gênero e comportamentos associados a eles”, promovendo o fortalecimento de autoestima, incentivo à liderança, incremento de conhecimento sobre o corpo e a saúde, além de prevenção das múltiplas violências cotidianas.

Em geral, o programa tem duração de 9 meses e, segundo Jane, seus números são os seguintes: 830 meninas foram diretamente beneficiadas em 2019 e início de 2020, 130 organizações foram treinadas nos propósitos do projeto e 162 profissionais foram beneficiadas/os.

Como alguém que estuda gênero no esporte, eu não poderia deixar de falar sobre a ONG Empodera aqui nesta coluna. Para além de propor algo urgente e necessário frente aos conservadorismos oriundos de uma sociedade machista e patriarcal atualmente em voga no Brasil, a Empodera propõe algo em que acredito, ou seja, a transformação do esporte pela presença de mulheres. Que elas ocupem espaços construídos histórica e ortodoxamente como masculinistas e os transformem para melhor!


Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Empodera: transformando o esporte pela presença de mulheres. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 52, 2020.