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Então, tia eu sou negro né!?

Roberta Pereira da Silva

A agitação corriqueira de pés habilidosos que sonham dia, tarde e noite por um lugar ao sol. Que almejam as compras, as mulheres, a fama, ou simplesmente dar uma vida melhor para a mãe[1]… Estava eu em uma sala grande localizada em um grande clube da cidade de São Paulo, cercada por meninos de exatos onze anos, que compõem as categorias de base.

Recebi um “Oi, tia!” e um beijo no rosto de cada um deles, e a cada menino que entrava para o seu rosto eu olhava, exatamente como na canção dos Originais do Samba[2], mas nesta situação não havia engano, questionava-me em frações de segundos como eram “pequenos”, como eram crianças, como eram…..

Podem ser muitas coisas? Deveriam ser muitas coisas? Seriam capazes de romper o estereótipo masculino de que o lugar do menino – menino negro – é o futebol? Neste exato lapso de tempo são jogadores de futebol, ou melhor estão em formação (como rege as linhas frias de uma tal lei doravante intitulada “lei Pelé”[3]). Sentamos em círculo no chão, todos no mesmo nível: equipe técnica, jogadores, comissão técnica e eu. Os olhos ora me fitavam, ora me driblavam. Alguns se fecharam num misto de “que saco” e cansaço, afinal todos estavam retornando da escola. Foi assim que comecei a conversa proposta pela equipe técnica (psicóloga, educadora e assistente social) com o tema Racismo no Futebol.

Mal iniciei a discussão em relação à formação do futebol no Brasil e com a rapidez de um contra-ataque santista os presentes afirmaram:

– Antigamente negros não podiam jogar futebol!!!!

Porém, ao apresentar as fotos de ídolos do esporte dos pés, todos negros[4] – aqueles que começavam a destacaram-se na época de Lima Barreto – o quase completo silêncio, afinal não houve silêncio total em nem um momento durante os 60 minutos de conversa, o que consideramos ótimo, já que em tempos de mordaça no ensino, dialogar e permitir a fala é revolucionário.

A primeira foto apresentada foi a de Arthur Friedenreich e nenhum menino absolutamente soube identificá-lo. Fui apresentando outros jogadores e entre uma foto e outra, contava-lhes como foi a trajetória dos jogadores negros no futebol brasileiro.

Dentre os meninos, havia um participante em especial que me questionou por muitas vezes e a primeira pergunta – teste foi: – Me conta a história do pó de arroz; depois quem foi Django Livre… E assim seguiu o rapazinho de pele escura, cabelos crespos e sorriso fácil.

Foto: Jannik Skorna/Unsplash.

A prosa seguiu e eis que um garoto branco me questiona: “Eu sou branco, ele é negro. Se eu erro não acontece nada. Se ele erra é porque é negro?”. O questionamento veio após a fotografia do goleiro Barbosa… Havia dois goleiros extremamente concentrados. Um deles, negro, prestava atenção em cada palavra, no decorrer do encontro foi se aproximando, sentando mais próximo a mim, não perguntou nada, não respondeu nada, apenas me olhava…

Dois momentos me tiraram do eixo: o primeiro foi quando mostrei a foto do Rei Pelé com apenas 16 anos. Fiz questão de levar uma fotografia em que ele está vestido com o manto sagrado. De repente, não mais que de repente, iniciou-se uma cantoria frenética:

ÔÔÔÔ 58 foi Pelé,

em 62 foi pro Mané,

em 70 pro esquadrão,

primeiro a ser tri campeão…”

Tudo bem que 11 anos é uma idade de pura agitação, mas a sala foi tomada por uma euforia que eu não fazia a menor ideia… Foi totalmente inesperado. Tais meninos não tiveram nenhum contato com Pelé (jogador) mas o quanto este jogador mobiliza, só reforça minhas angústias o quanto seria importante e necessário seu posicionamento em relação ao racismo.

O segundo momento, não menos importante, foi quando afirmei que o técnico Jair Ventura, atual treinador do Corinthians, é negro. Alguns jogadores levantaram-se e com toda imposição de um zagueiro diziam: “ELE NÃO É NEGRO!!!” “Ele não é negro…” “ele não é negro?” “Eu sou negro então?” O debate do colorismo colocou-se presente… Conversamos um pouco, discutimos as situações de racismo na atualidade, e sobre a ausência de negros nos postos decisórios. Por fim para não dizer que não falei da África mostrei a foto de Mbappé. Lembram-se do garoto de pele escura, cabelos crespos e sorriso fácil? Sim, ele prontamente me alertou: “Olha, Mbappé nasceu na França, em…” antes mesmo que eu discorresse sobre alguns dos debates étnico-raciais que permearam a vitória da seleção francesa na Copa do Mundo de 2018.

Ao final da atividade, beijos fraternos, fotos/selfs e pelo menos três garotos se dirigiram a mim, perguntando:

– Então, tia, eu sou negro, né?


[1] Relato da oficina “Racismo no Futebol”, ocorrida em novembro/2018 e organizada pelo NESP – Núcleo Educacional Social Psicológico, responsável pelas categorias de base do Sport Club Corinthians Paulista.

[2] Do lado direito da rua direita – Originais do Samba (1972)

[3] Lei n. 9615 de 24 de março de 1998 com alterações em 2011 dos artigos que tratam especificamente da “formação” de crianças e adolescente inseridos nas categorias de base dos clubes de futebol. Há uma série de exigências que o clube deve cumprir para ser considerado “clube formador” e consequentemente ter ressarcimento dos “valores” gastos com a “formação”.

[4] Foram utilizadas fotografias de jogadores como Diamante Negro, Ademir da Guia, o material foi confeccionado pela mediadora, foi elaborado um material com depoimentos de jogadores negros, retirados da dissertação: Além dos gramados: história oral de vida de negros no futebol brasileiro – Marcel Tonini – São Paulo – 2010 e tese: Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu – Marcel Tonini – São Paulo – 2016.