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Entre a notícia e o entretenimento

Lucas Dorta

No início de 2009, Tiago Leifert estreava na versão regionalizada do Globo Esporte trazendo uma linguagem mais informal para o jornalismo esportivo. Isso dividiu opiniões. Enquanto alguns achavam mais divertido esse novo formato, outros, mais conservadores, questionavam as consequências que isso poderia trazer para jornalismo esportivo.

Tiago Leifert foi apresentador do Globo Esporte São Paulo entre 2009 e 2015. Foto: Divulgação.

Mais tarde veio o Jogo Aberto, também apostando na informalidade. A maioria da mídia esportiva também passou a usar um tom descontraído; a internet se aproveitou disso e as páginas voltadas ao entretenimento esportivo crescem cada vez mais. Porém, quem tem razão nessa discussão? É necessária essa escolha entre um e outro ou é possível dosar a informação e o entretenimento?

Muitas pessoas procuram na informação esportiva uma forma de relaxamento. Nesse ponto é necessária a linguagem mais informal, pois o telespectador pode não enxergar o noticiário esportivo como enxerga o de economia, política, saúde e outras editorias de conteúdo mais “sisudo”. Porém, a mídia esportiva tem que tomar muito cuidado para que o “riso” não passe a ser mais importante do que o jornalismo e a informação em si.

Também é importante não obrigar todos os jornalistas a terem que ser engraçados, pois muitos podem não ter esse perfil e isso não significa que o jornalista esportivo que não se encaixar nesse novo modelo tenha que ser descartado. Pelo contrário, cada um pode ter um estilo diferente e isso é uma das vantagens que as variedades dos veículos de comunicação trouxeram. O problema é quando ele passa a fazer papel de torcedor e perde o lado profissional.

O programa esportivo “Jogo Aberto” é apresentado por Renata Fan e tem como comentarista o ex-jogador Denílson. Foto: Divulgação/Band.

Um caso importante para essa reflexão é o Jogo Aberto, talvez o grande exemplo dessa mistura de opinião e entretenimento. Mas será que o programa às vezes não ultrapassa o limite? Vale essa reflexão ao leitor. Os integrantes, em alguma parte do programa, já fizeram o papel de torcedores ultrapassando a linha entre a informação e o entretenimento. Às vezes, até com certa apelação.

Vocês não acham que a longo prazo isso pode tirar o papel crítico do jornalista e vermos cada vez mais torcedores fazendo comentários na TV quando o público busca uma reflexão mais profunda e equilibrada? Se a maioria das emissoras apostar no excesso de brincadeiras, será que os jornalistas que não têm um perfil brincalhão terão espaço no mercado? Essas são reflexões importantes para estudantes de jornalismo, imprensa e telespectador.

Espaço para todos de uma forma saudável

É importante todos os perfis de jornalismo esportivo terem espaços na mídia, principalmente com o crescimento da internet, que dá espaço para muitas pessoas expressarem suas ideias. Assim como na vida, existe a hora certa para descontrair e a de ser mais sério. Porém, é necessária a dosagem entre a informação e entretenimento. Isto pode ser feito com imparcialidade, sem ser necessário fazer papel de torcedor ou querer bancar o engraçadinho a todo momento.

Quem está certo nessa discussão do jornalismo esportivo x entretenimento? Todos. Afinal, os mais variados formatos podem ter o seu lugar desde que haja uma dosagem entre eles e que nem todos sejam forçados a serem engraçadões.

É possível informar de forma descontraída sem que o papel crítico do jornalista se torne secundário. Assim, a mídia pode ter espaço para todos de maneira saudável.


Publicado também no dia 04/06/2016 em Observatório da Imprensa.