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Entre lesões e polêmicas: os jogadores brasileiros cortados nas Copas do Mundo da Argentina à Itália

Leonardo Turchi Pacheco

Nunca fui um grande conhecedor de Drummond. Claro! Conheço as suas poesias consagradas: “José”, “Poema de sete faces”, “Quadrilha” e “No meio do caminho”. Porém, confesso que me agradam seus poemas eróticos e suas crônicas de futebol – “O amor natural” e “Quando é dia de futebol”.

Em “Quando é dia de futebol” há uma crônica em forma de poesia publicada no jornal Correio da Manhã no dia 03 de Abril de 1966 intitulada “A seleção” que revelava os possíveis convocados para a Copa da Inglaterra.

Uma infinidade de nomes surgiam:

“Vai Rildo, não vai Amarildo?

Vão Pelé e, que bom, Mané,

o menino gaúcho Alcindo

e nosso veterano Dino,

Altair, rima de Oldair,

ecoando na ponta: Ivair,

e na quadra do gol: Valdir.

Fábio, o que não pode faltar,

e também não pode Gilmar,

como, entre os santos dos santos,

o patriarca Djalma Santos,

sem esquecer Djalma Dias

e, entre mil e uma noites, Dias.

Mas se a comissão não se zanga,

quero ver em Everton, Manga.

É canhoto, e daí? Fefeu,

quando chuta, nunca perdeu.

A chance que lhe foi roubada,

desta vez a tenha Parada.

Paraná, invicto guerreiro

para guerrear como aqui, lá.

Olhando pro chão, Jairzinho

é como joga legalzinho.

Não abro mão de Nado e Zito,

nem que fique o Brito por não-dito.

Ditão, é claro, por que não?

e o mineiríssimo Tostão,

o grande Silva, corintiana

glória e mais o áspero Fontana,

Dudu, Edu… e vou juntando

bons nomes ao nome de Orlando,

para chegar até Bellini

em cujas mãos a taça tine.

Célio, Servílio: suaves eles

já completados por Fidelis.

Edson, Denílson e Murilo,

cada um com seu próprio estilo.

Um lugar para Paulo Henrique

enquanto digo para Flávio: fique!

Com Paulo Borges bem na ponta

eu conto, e sei que você conta.

Na lateral, Carlos Alberto

estou certo que vai dar certo.

Acham tampinha Ubirajara?

Valor não se mede por vara.

Leônidas, nome que é legenda.

E se Gérson do Botafogo

entra no campo, ganha o jogo.

Não poderia esquecer do Lima

e seu chute de muita estima.

Com tudo isso e mais Rinaldo

e o canarinho de Ziraldo, quarenta e seis, se conto bem

– um time igual eu nunca vi

em Europa, França e Belém –

que barbada seria o tri,

hein?” (Quando é dia de futebol, 2007, p.71-72).

Eram os tempos áureos do futebol brasileiro, como frequentemente dizem aqueles que viveram a época. Por isso foram convocados 44 jogadores. Metade deles foram cortados. Dos vinte e dois que sobraram vinte entraram em campo nas três partidas daquele Mundial, entre eles um Garrincha acima do peso e um Pelé machucado. A eliminação foi creditada a essa desorganização e a indecisão do técnico Feola.

Como estamos às vésperas de uma nova convocação, desta vez para a Copa de 2018, escolho explorar nesse texto as lesões e a polêmicas que envolveram os jogadores brasileiros cortados das Copas da Argentina, Espanha, México e Itália.

O ritual de convocação dos vinte e dois selecionáveis é marcado, na maioria das vezes, por uma grande cobertura midiática e um conjunto de sentimentos misturados. Há o sofrimento dos jogadores que esperam ver o nome na lista dos convocados, há a angustia e surpresas dos torcedores sobre os prognósticos de quem deveria ou não estar na lista dos convocados. E por fim, depois da lista divulgada, aqueles envolvidos com o mundo do futebol, das mesas redondas até a mesa de bar discutem apaixonadamente sobre presenças e ausências daquele que irão e daqueles que não irão à Copa.

durante a partida entre Alemanha e Brasil realizada no Estadio Olimpico de Berlim em Berlim na Alemanha, amistoso preparativo para a Copa da Russia de 2018.

Seleção Brasileira que iniciou a partida contra a Alemanha. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Mas isso não é tudo. Do momento da convocação até a estreia na Copa ainda há a indefinição de quem serão os titulares e os reservas. O corte ameaça os jogadores durante esse período de preparação, sobretudo por motivo de lesão ou por polêmicas que extrapolam o campo de jogo.

Assim, na Argentina, em 1978, os cortados foram o Lateral Zé Maria do Corinthians e o centroavante Nunes, que atuava pela equipe do Santa Cruz. Zé Maria teve uma lesão no menisco interno do joelho direito e Nunes, em um treino de chutes a gol, torceu o tornozelo após chutar um montinho de grama. Em seus lugares foram convocados Nelinho, lateral do Cruzeiro e Roberto Dinamite centroavante do Vasco. Nelinho atuou pouco, mas quando o fez marcou gols. Um de falta contra a Polônia e outro memorável na decisão de terceiro lugar contra a Itália. Dinamite entrou no Terceiro e decisivo jogo contra a Áustria na primeira fase. Entrou no lugar de Reinaldo e marcou o gol solitário que decretou a vitória brasileira. Assumiu a titularidade até o final do certame e ainda fez mais dois gols contra a Polônia.

Na Espanha a lesão muscular na coxa esquerda tirou o centroavante Careca do Guarani da Copa. Roberto Dinamite foi convocado, mas não teve chances de atuar na equipe de Telê Santana. Nem ele e nem o preterido Reinaldo, do Atlético Mineiro. Esse nem foi convocado para a Copa. Serginho Chulapa foi titular absoluto e muito contestado, juntamente com Waldir Peres, em uma seleção festejada, apesar da derrota, como sendo a última que praticou o “verdadeiro futebol-arte brasileiro”.

No México, Zico não foi cortado, mas jogou machucado e perdeu pênalti decisivo contra a França. Por outro lado, Mozer e Toninho Cerezo sofreram lesões e deram lugar a Mauro Galvão e Valdo. Nenhum dos dois figurou nem no banco de reserva nas partidas. Édison, lateral do Corinthians, que fora convocado no lugar de Leandro do Flamengo, sofreu uma contusão no jogo contra a Argélia e deu lugar a Josimar do Botafogo. A ascensão e queda de Josimar duraram dois meses. Na Copa jogou três jogos e marcou dois gols antológicos – contra a Irlanda do Norte e Polônia. Voltou ao Brasil depois da Copa e foi preso por agredir uma garota de programa. Uma semana depois se envolveu em um acidente automobilístico. Parou um tempo para se recuperar e saiu dos holofotes.

zico

Zico perde pênalti na Copa de 1986.

Em se tratando de polêmicas, o time brasileiro pode ser considerado o campeão, de fato, e não somente moral da Copa da Argentina. Primeiro, o extraordinário meio campista Falcão foi menosprezado por Coutinho. Falcão deu declarações polêmicas sobre a comissão técnica, exigiu a própria titularidade e contestou o estilo de jogo adotado e por esse motivo deu lugar a Chicão. Este último foi convocado por ser um jogador viril, “machão” e violento. Coutinho justificou sua convocação porque previa uma Copa do Mundo ríspida. Portanto, preferiu apostar na força física e descartar um jogador talentoso. De fato, Chicão foi útil. Entrou em diversas partidas e foi titular no jogo em Rosário contra a Argentina – o qual a imprensa brasileira definiu com uma “Guerra entre Machões”.

Na Espanha, Telê Santana preferiu Serginho Chulapa à Reinaldo. Reinaldo, muito engajado politicamente à época, foi acusado de não se cuidar como atleta pelo técnico justificando assim a sua ausência – o contraditório foi que o convocado Sócrates que também era engajado politicamente e não se cuidava como atleta não sofreu o retaliações e foi a Copa. O fato é que enquanto Serginho Chulapa perdia gols aos borbotões na Espanha, Reinaldo, ao contrário, os marcava nos gramados mineiros no campeonato estadual.

Às vésperas da Copa do México três jogadores se envolveram em polêmicas. O primeiro foi Éder Aleixo, do Atlético Mineiro. Em um jogo amistoso com os juvenis do Peru, Éder, famoso pela potência do seu chute de perna esquerda, que, inclusive, lhe rendeu o apelido de bomba, deu um soco em um jovem peruano e foi expulso. Telê Santana, um técnico disciplinador, o expulsou da seleção no intervalo da partida dentro do vestiário. Justificando que não poderia contar com um jogador descontrolado nos campos do México, pois poderia prejudicar o desempenho brasileiro se fosse expulso em um jogo de Copa do Mundo. Dizem que Renato Gaúcho, então no Grêmio, saiu em defesa de Éder e criou o um mal estar generalizado.

Meses mais tarde, na concentração da seleção, na Toca da Raposa, para a Copa em Belo Horizonte, um dia de folga foi dado aos convocados com um horário de retorno à concentração no mesmo dia a noite. Leandro, Renato Gaúcho foram à casa de Éder para um churrasco. Entre cervejas e carnes decidiram emendar a noite na Savassi. Extrapolaram o horário estipulado e tentaram pular o muro da concentração. Estavam embriagados e não conseguiram. Um jornalista que estava de plantão no local deu a notícia em rede nacional. Renato Gaúcho foi cortado e Leandro, em solidariedade com o amigo, pediu dispensa. Esse fato foi explorado pela imprensa esportiva como uma “amizade sem limites” onde a heterossexualidade de ambos os jogadores foram colocadas em dúvida. Afinal, segundo os relatos, ninguém em um estado racional de consciência deixaria de ir a uma Copa do Mundo em solidariedade a um amigo, a não ser que houvesse uma relação afetivo-erótica envolvida.

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Para a Copa de 1986, Renato Gaúcho foi cortado e Leandro pediu dispensa.

Enfim, na Copa da Itália em 1990 não houve cortados. Os vinte e dois convocados permaneceram do início ao fim. Em função disso e do péssimo futebol jogado até a eliminação pela Argentina nas oitavas de final dessa Copa, creio ser prudente que um ou mais jogadores sofram lesões ou se envolvam em e polêmicas antes da Copa da Rússia começar. Pois, o sucesso da seleção brasileira, vista por esse ângulo, depende disso.