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Concurso Nacional de Melhor Performance em Entrevista Coletiva

Leandro Marçal

Os jurados posicionaram papeis e placas com as notas em cima da mesa. O assessor de imprensa e apresentador ajeitou os fones de ouvido para falar com a central. Tinha um microfone às mãos. Milhões de telespectadores pelo país pararam todas as tarefas para acompanhar a final do Concurso Nacional de Melhor Performance em Entrevista Coletiva. O treinador terminou de ajeitar os cabelos. Os competidores tremiam de ansiedade, sabiam dos picos de audiência e precisavam mostrar um desempenho acima da média.

Assessor de Imprensa: Estaremos no ar em 3, 2, 1… Agora é a sua vez.

Repórter 1: Boa noite senhor ilustríssimo treinador. Sou da Rádio Hiper Mega Blaster, do interior de Nossa Senhora de Pirapora do Sul, a maior audiência em toda a cercania do quarteirão. É uma honra estar falando em rede nacional nesse concurso tão importante para o desenvolvimento do nosso país. Primeiramente, meus parabéns por estar tão cheiroso. Deu pra sentir seu perfume daqui, o que demonstra tanto comprometimento com os valores e odores da pátria. Não é à toa que acompanho sua trajetória desde os primeiros times do interior, sem verba, sem nada. Lembro bem que naquele tempo você desenvolveu um trabalho tático extremamente revolucionário na base do XV de Nossa Senhora de Pirapora do Sul. Era notável. E relevante. Fez muita gente repensar os sistemas táticos e técnicos das equipes desconhecidas. Você foi subindo, galgando novos lugares, ganhando títulos de expressão até chegar aqui. Enfim, qual a escalação para o jogo de amanhã?

O assessor de imprensa pediu silêncio. Aproveitou o levantar das mãos e expôs às câmeras o relógio de mil reais. Muita gente ficou impressionada com a performance. Entre os jurados, os comentários sussurrados eram elogiosos à capacidade do primeiro finalista em começar a pergunta com um preâmbulo incompreensível e encerrar com uma pergunta sem relação alguma com o começo da apresentação. Deveria receber nota máxima.

Assessor de Imprensa: Sua vez.

Na coletiva. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Repórter 2: Boa noite senhor treinador, também te parabenizo e desejo muita sorte, com muitas conquistas nas próximas competições. Muita ansiedade para o jogo de amanhã?

Torcedores e familiares ficaram decepcionados. Estava nítido o nervosismo do competidor que chegara ali com pinta de azarão. Ser direto na pergunta durante a entrevista coletiva era um erro estratégico, certamente os jurados descontariam notas na avaliação. Mas já era uma grande conquista ter chegado até ali. Até porque sua pretensão inicial era apenas ser jornalista, não um grande performer.

Nos bastidores, havia muito frio na barriga para a festa pós-premiação. Entre os convidados, bajuladores de boleiros figuravam na lista VIP. Todos olhavam os gigantes monitores e aguardavam o último participante.

Assessor de Imprensa: Vamos ao último competidor.

Repórter 3: Opaaaa! Meu caro treinador, sempre bem-humorado e nos tratando muito bem. Eu peço uma salva de palmas para esse cara tão gentil, por favor. Isso, mais alto, mais alto! Olha, faz muito tempo que eu tô querendo fazer essa perguntinha aqui, mas antes queria que você falasse o que acha do novo penteado do craque. Olha, tá fazendo um barulho gigantesco nas redes sociais, todo mundo tá comentando. Além disso, tem um jogo de perguntas e respostas na nossa atração principal para preencher a grade, é uma entrevista para tratar de temas banais e irrelevantes, mas não pode dar risada, hein? Pra finalizar: quem você acha que vai ganhar o nosso reality show de melhor sósia do atacante do seu time?

O treinador ficou impressionado com a pergunta, os jurados também. O assessor anunciaria o vencedor do pioneiro Concurso Nacional de Melhor Performance em Entrevista Coletiva dali a 20 minutos. O repórter 2 estava descartado nas casas de apostas. A briga entre o repórter 1 e o repórter 3 era acirrada.

Nos bastidores, comemorava-se o recorde de audiência. E o treinador só queria ir para casa.