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Era uma vez… um clube grande (IV): o Novo Bahia

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

Em novembro de 2019 um dos principais jornais da Inglaterra, The Guardian, publicou uma reportagem especial sobre um clube daqui do Brasil. Você poderia imaginar qual? Talvez o avassalador Flamengo de Jorge Jesus? Ou o gigante Cruzeiro, mergulhado em uma profunda crise e que virou caso de polícia? Nada disso. A reportagem era sobre o Esporte Clube Bahia. Ou talvez fosse o caso de dizer, o “Novo Bahia”: Bahia have cut prices, given fans a voice, tackled political issues and dedicated themselves to ‘affection, integration and love.

A matéria destacava as iniciativas “progressistas” do clube, como o protesto em relação ao derramamento de óleo que atingiu o litoral brasileiro em agosto de 2019, a luta antirracista, contra a homofobia, pelo respeito às mulheres nos estádios, pela demarcação de terras indígenas. Este último tema, inclusive, foi destaque nosso em um texto publicado em maio de 2019 neste mesmo portal. Naquele momento, chamamos atenção para o comentário muito significativo de um torcedor tricolor sobre os posicionamentos do clube: “Sempre amei o meu time, mas ultimamente sinto orgulho”

Foto: Fotos Públicas

Como destaca o jornal The Guardian, as ações do Tricolor, que, passaram a ganhar maior destaque nos últimos dois anos, não surpreendem quem acompanha o futebol brasileiro. Pelo menos desde 2013 a instituição esforça-se para consolidar o que chama de “Novo Bahia”. De acordo com o site do clube, um ano marcado pela “independência” e “libertação” de gestões antidemocráticas e populistas no Bahia; visão também partilhada pelo atual presidente do clube, Guilherme Bellintani. 

E, se concordamos que um clube de futebol, essa entidade abstrata, adquire sentido apenas na medida em que atribuem a ele, e que ele chama para si determinadas representações, poderíamos dizer que o atual “modelo de gestão” do “Novo Bahia” dialoga com um certo imaginário atribuído ao clube? À semelhança de vários outros clubes brasileiros, o Esquadrão de Aço também se auto-identifica como um grande clube e, sobretudo, como um “clube do povo”. No entanto, poucos são as gestões de clubes – para dizer que não lembramos de nenhuma outra – que se engajam sistematicamente em torno de pautas,  digamos, “democráticas”, “progressistas”. 

Evidentemente que não estamos sugerindo que esse artifício acontece de forma mecânica e sem contradições. Ainda assim, acreditamos que é ele que “dá o tom” das ações institucionais mais recentes do clube soteropolitano. Como se para que o “Novo Bahia” de fato pudesse florescer, um novo modelo de gestão também tivesse que surgir. Todo esse processo de “reformulação” ficou conhecido como “democratização do Bahia”; uma espécie de divisor de águas na história do clube e que, nesse sentido, mereceria uma atenção muito maior do que a que vamos dar neste texto (como sugestão, indicamos o livro “Um grito de liberdade: o processo de democratização do Esporte Clube Bahia” da jornalista Fernanda Varela, publicado com o apoio do clube).

Talvez a reforma estatutária Tricolor, levada a cabo entre 2011 e 2013, seja um dos principais marcos dessa tal “democratização do Bahia”. Desde então, o “Sócio Esquadrão”, cuja menor mensalidade em setembro de 2020 era de R$ 34,00, passou a poder votar para presidente, participar das Assembleias Gerais – órgão máximo e soberano do clube –, e concorrer ao Conselho Deliberativo. Em paralelo, os novos gestores do Bahia iniciaram um esforço de equilibrar as finanças do clube. O jornalista Rodrigo Capelo, conhecido por analisar a situação orçamentária dos clubes brasileiros, qualificou como “tranquila” a situação do Bahia no início de 2020, o que, em sua visão, constitui-se como uma raridade na elite do futebol brasileiro. Só para se ter uma ideia, segundo o presidente Guilherme Bellintani, o faturamento do Bahia dobrou em apenas dois anos e no último ano faltou muito pouco para o balanço não ser superavitário. O que tem permitido a atual administração do tricolor baiano investir pesado em infraestrutura. Só nos últimos três anos foram cerca de 35 milhões para reforma do CT

Na análise do jornalista Diogo Magri, uma consequência direta disso é o processo de “inversão da hierarquia tradicional do futebol nacional”. Ou seja, hoje o Bahia é capaz de driblar os adversários do seleto grupo dos “12 grandes” na disputa por jogadores. O caso emblemático é o do atacante Rossi, concorrido por Atlético Mineiro e Fluminense e que acabou trocando o Vasco pelo Esquadrão. Escolha, segundo ele, balizada pela estrutura do clube e por seu “projeto muito ambicioso”. Ou ainda o caso da transferência do meia Rodriguinho do Cruzeiro para o Bahia. 

No entanto, não se pode dizer que essa reconfiguração político-administrativa tenha impactado diretamente o desempenho do time de futebol do Bahia. Embora distante da Série C, onde esteve entre 2006 e 2007, voltando a vencer consecutivamente o estadual em 2014, algo que não acontecia desde o final dos anos 1990, e registrando sua melhor participação na Copa Sul-americana em 2018, quando foi eliminado pelo futuro campeão Athletico, a verdade é que o tricolor baiano ainda oscila muito entre a elite do nacional e a divisão de acesso, tendo a frequentado duas vezes – 2015 e 2016 – nas últimas décadas. Não por coincidência, atualmente ele ocupa a 20ª e última colocação no ranking acumulado dos vinte melhores nacionais na “era dos pontos corridos”.

Ainda assim, a torcida do Esquadrão de Aço é uma das maiores do país, com cerca de 1% dos torcedores brasileiros ao lado do Botafogo, do Fluminense e na frente do Athletico. Enquanto, na Bahia, ela é a mais expressiva, com 20% dos torcedores baianos; quase 5% a mais que o Vitória, segundo lugar no estado. De modo que seria muito ingenuidade de nossa parte acreditar que a grandeza do tricolor baiano só começou a ser forjada nessa última década, com as interessantes iniciativas do “Novo Bahia”.

De onde então viria a grandeza do Bahia? Quando o Bahia passou a ser considerado um “grande clube” do nosso futebol? Aliás, seria possível precisar um único momento para definir quando o Bahia – ou qualquer outro clube – passou a ser considerado grande?

Pelo que tem nos mostrado nosso colega José Eliomar dos Santos Filho, da Uneb, o Esporte Clube Bahia nasceu grande, vencendo competições oficiais, arrebatando as paixões dos soteropolitanos e dos baianos, especialmente dos mais humildes. E nunca é demais relembrar: entre os anos 1950 e 1980, o Bahia brilhou no cenário nacional, vencendo a primeira Taça Brasil, disputada em 1959, e também a Copa União de 1988. E se tornou o recordista nordestino em participações na Copa Libertadores da América, com três presenças, todas nas décadas de 1960 e 1990. O que, possivelmente contribuiu para sua fama, seu espraiamento social. A ponto do Bahia ser o único clube do nordeste, ou fora dos “12 grandes”, a participar da criação do Clube dos 13.

Mas essa não seria uma narrativa inventada? Uma tradição necessária à identidade cultivada pelo Esquadrão de Aço?

A série “Era uma vez… um clube grande” não termina aqui. Então deixemos algumas questões pra nossa contribuição. Antes de dar por concluído esse texto, uma última observação. Já virou rotina fecharmos os textos da série estimulando que o nosso leitor opine sobre o assunto. Hoje não dispensaremos sua opinião, é claro. Mas, por tudo o que representa o “Novo Bahia”, somos levados a dar o nosso veredicto. Ao menos para nós, o tricolor não é um clube grande. Na verdade,“o Bahia é gigante. Não só pelos títulos, pela torcida, pela tradição e pela história. O Bahia é gigante porque sabe o seu tamanho. E o seu papel.”


Como citar

MARCOLAN, Letícia; LAGE, Marcus Vinícius Costa. Era uma vez… um clube grande (IV): o Novo Bahia. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 48, 2020.