141.19

Era uma vez… um clube grande (V): Cruzeiro e a “Era Brandi”

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

Até 2019 o céu lá pros lados da Toca da Raposa parecia bem azul (desculpe-nos o trocadilho), afinal o Cruzeiro Esporte Clube havia acabado de ser campeão da Copa do Brasil pelo segundo ano seguido, tornando-se hexacampeão e o clube que mais venceu a competição. Contudo, os resultados positivos dentro de campo pareciam encobrir a situação fora dele. Apesar da conquista de títulos de expressão entre 2013 e 2018, nesse mesmo período a dívida do clube “saltou de R$ 109 milhões em 2012 para R$ 982,54 milhões em oito anos”. Rapidamente a crise financeira revelou e somou-se a outras de cunho técnico e administrativo, virando inclusive caso de polícia. Toda essa tempestade não podia dar em outra: o ano de 2019 terminou com o clube mineiro rebaixado dentro de campo e afundado em crises fora dele. E 2020 também não foi nada animador. No estadual, o clube se viu fora das semifinais e na Série B brigou para não cair para a terceira divisão nacional, amargando, ao término da competição, o 11° lugar, convertendo-se no primeiro “grande” a não subir. 

Apesar da enorme crise no Cruzeiro, ninguém em sã consciência afirmaria que o clube mineiro apequenou-se. Mas, a posição de destaque atual (mesmo que negativo), trouxe à tona algumas polêmicas bem conhecidas em terras (ou bares?) de Minas, que tentam desmerecer o time celeste. Uma delas questiona, justamente, a “grandeza” do “Cabuloso” antes dos anos 1960. Essa questão foi tratada pelo nosso colega de Memória FC, Bruno Parreiras, na “Memória Polêmica” do mês de janeiro.

Como pessoas à margem da hegemônica rivalidade futebolística mineira, mais do que responder se a polêmica procede ou não, nos inquietou saber de onde ela viria. Em outras palavras, nos perguntamos: quem inventou essa história de que o Cruzeiro era pequeno antes de 1960? A que possíveis interesses essa narrativa poderia servir? 

Cruzeiro1971

Time do Cruzeiro em 1971. Foto: Wikipédia

Antes de mais nada é preciso reconhecer que os anos de 1960 e 1970 foram mágicos para o Cruzeiro. Talvez seja dos anos 1960 o time mais relembrado da história do clube, com Raul, Procópio, Piazza, Natal, Dirceu Lopes, Tostão e companhia. Foram eles os responsáveis pelo pentacampeonato mineiro entre 1965 e 1969 e, principalmente, pela conquista da Taça Brasil de 1966, desbancando o Santos de Pelé depois de aplicar, no primeiro jogo da decisão, uma sonora goleada de 6 a 2 no Mineirão. Na década seguinte, alguns remanescentes dessa equipe conquistaram a Libertadores de 1976.

Taça Brasil de 1966

Taça Brasil de 1966. Foto: Wikipédia

Isso por si só já faria os anos 1960 serem considerados um divisor de águas na história do clube. No entanto, para a nossa “surpresa”, essa narrativa de que o Cruzeiro não era grande antes dos 1960 não está apenas na boca dos rivais, nem tampouco apenas ancoradas nas conquistas do clube. Então tem coisa aí!  

Nossas pesquisas sobre a década de 1960 do Cruzeiro, invariavelmente, nos levaram ao nome de Felício Brandi, presidente do clube entre 1961 e 1982. A marcante presença de Felício Brandi nessa memória cruzeirense não seria possível se não houvesse entre os cruzeirenses um certo tipo ideal de cartola capaz de representar o clube e sua torcida. Um tipo ideal que Brandi parece ter encarnado com maestria.1

Na memória do clube, os primeiros ensaios da existência desse tipo ideal de cartola remontam, ainda, aos anos 1920 e 1930, quando personagens como os Falci, os Noce, os Ranieri e os Savassi, comerciantes belo-horizontinos ligados à colônia italiana, financiaram o então Palestra Itália, integrando-o à disputa hegemônica da cidade naquela época, protagonizada por América e Atlético. Na década seguinte, o presidente Mário Grosso, timoneiro do clube durante a sua “nacionalização”, teria dado sequência a essa linhagem. Trabalhador e perspicaz, Grosso conseguiu apoio do então interventor municipal Juscelino Kubitschek para ampliar o estádio do clube e, em campo, montou uma equipe que voltou a conquistar o campeonato mineiro após uma década de jejum – campeão em 1940 e tricampeão entre 1943 e 1945. Sua imagem parece ter sido tão cultuada que Fernando Pierucetti, o Mangabeira, teria se inspirado nele, e em seu modelo de gestão, para desenhar a raposa como mascote do clube. 

Como parte dessa linhagem, a gestão de Brandi aparece em boa parte das fontes encontradas como uma das chaves explicativas para todo o sucesso vivido pelo Cruzeiro durante aqueles anos de 1960 e 1970. Um exemplo nesse sentido pode ser encontrado no portal Cruzeiropédia, uma das principais manifestações historiográficas digitais sobre o clube – e feitas por torcedores do clube. Ali, Felício Brandi é representado como um “visionário” que, além de “am[ar] o Cruzeiro incondicionalmente a ponto de colocar dinheiro e o casamento em risco pelo clube”,  “participou de todo o processo de transformação do Cruzeiro[, de] clube provinciano, para clube respeitado e conhecido em qualquer parte do mundo.” Dentre suas realizações, destaca o portal, Brandi “usou de marketing para fazer aumentar em número de torcedores celestes, construiu o primeiro centro de treinamento de clubes do Brasil”, e, principalmente, “ganhou o seu título nacional, vencendo o temido Santos de Pelé, e conquistou sua primeira Libertadores em 1976.” Aliás, segundo o Cruzeiropédia, teria sido com Brandi que “começ[ou a] criação de um DNA celeste, um DNA vencedor, e de futebol ofensivo.” Não por coincidência, cartolas mais recentes, interessados em inspirar e legitimar suas ações, recuperam a memória cruzeirense de Felício Brandi. 

Cruzeiro em 1976. Foto: Reprodução Twitter

Na década de 1990, por exemplo, a TV Cultura lançou uma reportagem sobre a “Era de Ouro” do Cruzeiro. Um dos entrevistados, Zezé Perrella, ainda um jovem presidente do clube, dizia se inspirar em Felício Brandi, “um exemplo de dirigente”. Mais do que isso, Perrella fazia questão de registrar sua relação pessoal com Brandi, afirmando ter se tornado “cruzeirense por causa daquela equipe que ele montou” Mais recentemente, no ano passado o atual presidente do Cruzeiro Sérgio Rodrigues rebatizou a Toca da Raposa II de “Centro de Formação Felício Brandi”, afirmando o seguinte na cerimônia:

Desde que assumi a presidência falo sobre inovação, transparência, gestão profissional, paixão e transformação social. […] E não podíamos deixar de lembrar e reconhecer neste momento a enorme contribuição e pioneirismo do Felício, criando o primeiro centro de treinamentos voltado exclusivamente para treinos e concentração de uma equipe de futebol no Brasil […] Hoje anunciamos que o legado que esse homem visionário e apaixonado nos deixou, a Toca da Raposa I, será renomeada com louvor para Centro de Formação Felício Brandi.

Bom, mas esta é só uma parte da história. Para concluir, gostaríamos de recuperar a reportagem da TV Cultura. Logo na abertura, Brandi é caracterizado como um “ambicioso” e “jovem empresário”, que “queria transformar o Cruzeiro numa potência dentro e fora de Minas Gerais”. Como presidente do clube, continua o vídeo, ele teria iniciado “as mudanças que revolucionariam”, não apenas o seu Cruzeiro, como o próprio futebol mineiro, já que, segundo suas próprias palavras: 

Quando nós começamos a trabalhar no Cruzeiro o futebol mineiro era bem devagar, e nós conseguimos imprimir assim um ritmo mais forte e logo em seguida Minas Gerais conquistou o título brasileiro de campeão e com isso o futebol mineiro foi evoluindo […] Eu acredito que o Cruzeiro tenha sido um marco de visão de duas eras: antes e depois que a gente começou a trabalhar no clube.

Mais do que isso, nesse especial da TV Cultura Felício Brandi recuperou uma historinha que é bem conhecida aqui em BH, que diz que antes de sua gestão:

O Cruzeiro não tinha uma grande torcida. Então o quê que nós fizemos? Vamos pegar a meninada porque daqui a dez anos o Cruzeiro vai ter a maior torcida de Minas. E começamos então a comprar lápis, caderno, borracha, fazer artigos de promoção do Cruzeiro. E com isso nós contamos com a boa vontade dos jogadores que iam nos grupos escolares fazer a distribuição desse material. Com isso, além da presença dos jogadores, que eram os ídolos, os garotinhos do grupo escolar recebiam caderno, régua, lápis, todo o material escolar.

Difícil precisar se essa narrativa foi criada por Felício Brandi e seus apoiadores. No entanto, é fácil presumir que ela contribuiu para forjar, em torno dele, a imagem de dirigente revolucionário, transformador, que tirou o Cruzeiro e o futebol mineiro do limbo, alçando-o à condição de protagonismo. E que havia, antes dele, um Cruzeiro, senão pequeno, “bem devagar”, sem “uma grande torcida”. E que sua gestão o engrandeceu. Verdade ou ficção? Talvez um pouco dos dois.

 

Notas

[1] Importante dizer que grande parte das reflexões desse texto estão ancoradas em: ROCHA , Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto. A outra razão: os presidentes de futebol entre práticas e representações. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013, p. 27. Acesso em: 18 fev. 2021.


Como citar

MARCOLAN, Letícia; LAGE, Marcus Vinícius Costa. Era uma vez… um clube grande (V): Cruzeiro e a “Era Brandi”. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 19, 2021.