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Era uma vez… um clube grande (I)

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

De um lado, uma fanática pelo Clube de Regatas Flamengo. Uma “nação”, costumeiramente representada como a maior torcida do Brasil. Um clube de tantas glórias e memórias, “campeão de terra e mar”. De outro lado, um adepto incondicional do América Mineiro. Um clube simpático, de uniforme vistoso, torcida diminuta, estádio moderno e performances discretas. Um clube muitas vezes esquecido e ofuscado pelos badalados Atlético e Cruzeiro.

De fato, vivemos situações diametralmente opostas em relação às nossas paixões futebolísticas. Mas, curiosamente, seria justamente essa dessemelhante realidade que nos motivou escrever uma breve sequência de textos, que têm um mesmo interesse. Por motivações evidentemente distintas temos nos perguntado: o que faz um clube ser grande? Uma questão que, pela perspectiva da flamenguista, poderia ser formulada da seguinte maneira: como o Flamengo se tornou tão grande? E que, pela ótica do americano, seria dita mais ou menos assim: por que o América não é visto como um dos grandes do nosso futebol?

Camisa do Flamengo 2020. Foto: Reprodução/Twitter.

Antes, porém, de iniciarmos este projeto, deixamos claro, aqui, que nosso objetivo não é o de suscitar provocações ou polêmicas, muito embora saibamos que este exercício poderá ferir muitos sentimentos. Talvez fosse desnecessário dizer que a “grandeza” de um clube seja um dos predicados mais estimados pelos nativos do futebol brasileiro. Torcer por um “clube grande” invariavelmente significa participar de uma importante rede de sociabilidades que é o futebol em nosso país. Significa ser prestigiado, reconhecido socialmente; mesmo que esse préstimo se restrinja ao universo futebolístico.

Por isso, pedimos desculpas antecipadamente caso desconsideremos a grandeza de seu “time do coração”. Aliás, não temos a menor pretensão em arrolar aqui os clubes que são grandes e os que são pequenos. Especialmente porque reconhecemos que “paixão não se mede”. Para a torcedora e o torcedor, sua paixão sempre será gigante.

Mais do que isso, reconhecemos que a “grandeza” é uma medida subjetiva e imprecisa por natureza, que só pode ser precisada se posta em comparação. Em outras palavras, algo ou alguém só é grande em relação ao que lhe é menor. Uma lógica lírica e didaticamente traduzida por Pedro Bandeira, no poema infantil intitulado “Pontinho de vista”:

“Eu sou pequeno, me dizem,

e eu fico zangado.

Tenho de olhar todo mundo

com o queixo levantado.

Mas, se a formiga falasse

e me visse lá do chão,

ia dizer, com certeza:

Minha nossa, que grandão!”

No caso que nos interessa isso significa que um clube pode, perfeitamente, ser considerado grande em um circuito mais regionalizado, e pequeno em um contexto territorial maior, como as competições internacionais, por exemplo. Ainda assim, a questão inicial persiste: quais critérios seriam usados para que um clube seja considerado grande?

Camisa do América-MG pendurada na rede do Estádio Independência. Foto: Divulgação/América-MG.

Embora não exista uma norma que defina quais sejam esses parâmetros, no imaginário daqueles envolvidos com o futebol, um clube é grande ou pequeno pelo tamanho de sua torcida e pelas performances de sua equipe ao longo da história. Por isso, começaremos essa série de textos questionando justamente essa premissa, explorando alguns casos contemporâneos do futebol brasileiro que evidenciam como a grandeza de um clube depende de outros ingredientes que são tão ou mais importantes quanto aqueles dois. 

Sem negar nossas formações, depois desta primeira aproximação ao tema, recuaremos aos primeiros decênios do século XX para mostrar como o significado original de “clube grande” no futebol brasileiro nem sempre esteve associado ao número de adeptos nas arquibancadas, por exemplo. Diante disso, sugeriremos, em outras três contribuições, uma genealogia do atual entendimento da expressão.

Aguardamos vocês!