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Escravos de um sonho – Acra, Gana

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Quando Patrick Abeiku chegou à Tailândia não encontrou o agente que o tinha contactado. O futebolista, hoje com 25 anos, tinha pago mais de 2000 euros para ir jogar para a Ásia mas ao se ver sozinho em Bangkok percebeu que tinha sido burlado. “Fiquei por minha conta e tive de sobreviver sozinho com 22 anos”, diz o atleta. “Vagueei pelas ruas e telefonei a jogadores ganeses a jogar na Tailândia. Acabei por ficar num clube que não estava inscrito na FIFA e que me fazia contratos de mês a mês. Quando me lesionei, mandaram-me embora e não me pagaram nada”. Da Tailândia, Patrick viajou por sua conta para Hong Kong e conseguiu entrar no Sonhai F.C., então na primeira divisão chinesa. “No início, disseram-me que tinha poucas hipóteses porque era negro e eles não gostavam de nós. Mas eu disse-lhes que iria ser o primeiro aficano a jogar na equipa e consegui ficar”, diz o extremo-esquerdo. No entanto, a experiência durou apenas três meses. O visto de Patrick expirou por dois dias e os serviços de migração mandaram-no regressar ao Gana. Há um ano em Acra, voltou recentemente a ser burlado: “Conheci um agente ganês na internet que me deu o seu endereço na Rússia para lhe enviar o passaporte. Prometeu-me que me iria colocar numa equipa da primeira divisão da Arménia. Mas, algumas semanas depois, disse-me que a equipa já não estava interessada em mim e que lhe devia pagar 1500 euros para me devolver os documentos”. Actualmente, Patrick está falido e sem clube. Perdeu a forma e engordou mas continua a ter o sonho de outros milheres de jovens futebolistas ganeses: jogar na Europa.

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Foto: João Henriques.

Patrick nasceu em Mamprobi, um bairro da classe trabalhadora na zona sul de Acra, capital do Gana. De manhã, centenas de crianças de idades entre os 7 e os 17 anos distribuem-se pelos três campos pelados do bairro, formando uma nuvem de uniformes coloridos e irrequietos carregada de talento precoce. Foi neste campo de terra vermelha que craques como Michael Essien, Stephen Appiah, Gyan, Ofori-Quaye e Asamoah Gyan deram os seus primeiros pontapés na bola. Na ânsia de antecipar o novo grande valor do futebol africano, agentes de todo o Mundo peregrinam até Mamprobi de bloco de notas na mão, decididos a pagar aos pais das crianças somas irrisórias pelo pré-contrato daqueles que eles consideram as maiores promessas do continente. Yaw Ghanebei (nome fictício) é um desses agentes não reconhecidos pela FIFA. Começou a trabalhar como olheiro e agente com 35 anos quando percebeu que o futebol era a nova “galinha de ovos de ouro” no Gana. “Visito parques comunitários de 10 regiões do Gana, onde procuro jogadores com idades entre os 12 e os 17 anos. Organizo um torneio e escolho os melhores. Depois tiro fotografias e faço vídeos e envio-os para o meu sócio em Barcelona que os difunde por todo o Mundo”, diz Yaw. Yaw faz catálogos de crianças futebolistas para vender na Europa mas, em Acra, há outras formas ainda mais clandestinas de explorar o talento futebolístico.

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Patrick Abeiku. Foto: João Henriques.

Calcula-se que existam cerca de 500 academias ilegais na cidade. Muitas delas têm nomes bíblicos como “Atletas de Cristo”  ou “Filhos de Moisés”. Normalmente, são administradas por pseudo-empresários sem escrúpulos e sem experiência no desporto. Obrigam as famílias a tirar as crianças da escola e a vender jóias e televisores para pagar uma viagem para a Europa onde prometem treinos de captação em clubes como o Paris Saint-Germain ou o Real Madrid. “Algumas vendem mesmo a casa na aldeia e mudam-se para os bairros de lata de Acra para pagar a deslocação aos filhos”, diz-nos Osey Welbeck, também ele irmão de um jovem jogador de futebol que está a tentar a sua sorte no futebol sul-africano. Quando chegam a Paris ou a Londres, por vezes após uma viagem clandestina de barco onde são sujeitos a hipotermia e desidratação, os futebolistas são deixados à sua sorte nas ruas das grandes metrópoles. Envergonhados e sem dinheiro, recusam-se a voltar, deambulando à procura de comida longe dos relvados prometidos. Só a Culture Football Solidaire, uma ONG nos subúrbios de Paris, trabalha directamente com 800 crianças que chegaram à Europa para seguir as pisadas de Essien e que acabaram a mendigar ou a vender roupa contrafeita nas ruas. Basta um passeio por Acra para perceber a dimensão do problema; no pavimento em ruínas de Jamestown, na praia de Labadi??, em qualquer baldio da cidade, crianças vestidas com coletes fluorescentes treinam afincadamente para agradar aos seus senhores. Aos melhores será dada a oportunidade utópica de vingar na Europa.

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Emock Yartey. Foto: João Henriques.

O irmão de Emock Yartey, Henrik, 18 anos, foi um dos escolhidos. Viajou para a Roménia mas, ao não convencer nos treinos, foi abandonado pelo agente. “Ficou a dormir debaixo de uma ponte com outro jogador ganês durante duas semanas. Um dia, enquanto pediam nas ruas, encontraram uma mulher que era casada com um empresário de futebol. Levou-os para uma equipa da segunda divisão, onde estão agora a jogar”, diz Emock. Também Jimmy Wulff, 25 anos, passou um mau bocado em 2009. Chegou ao Cairo, no Egipto, em trânsito para conseguir o visto para chegar à Bósnia, onde o seu antigo agente lhe tinha reservado um lugar numa equipa de topo. No entanto, mal pôs os pés fora do aeroporto, percebeu que o agente tinha desaparecido. Sem saber o que fazer, saltitou durante um mês e meio de casa em casa de seus conterrâneos, até que, frustrado por tanta espera, decidiu regressar a casa. “Perdi muito dinheiro pois paguei a viagem e gastei mais de 200 euros só em comida no Cairo. E só tive casa graças aos meus amigos”, diz. Abedi Pelé, o melhor jogador da história do futebol ganês, está consciente da gravidade do problema: “Esses jovens sofrem muito. Estamos fartos de lhes dizer para que se certifiquem se têm um contrato ou uma equipa garantida para fazerem os treinos de captação antes de viajarem. E se não forem chamados nas captações, se não vingarem, que voltem! É melhor voltar para África do que dormir numa estação de comboio”. Indiferentes ao flagelo, equipas europeias continuam a recrutar as prodigiosas crianças africanas a baixo custo. Umas fazem-no através de olheiros destacados em Abidjan, outras, mais correctas, como as holandesas Ajax e Feynoord, abriram academias de excelência em Acra.

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Jimmy Wulff. Foto: João Henriques.

Há quem diga que o fenómeno não é recente: “Já Odartey Lamptey, uma estrela do futebol ganês dos anos 90, chegou à Europa depois de atravessar as fronteiras até à Nigéria escondido dentro de um caixão”, diz-nos o editor de desporto da TV3, televisão nacional ganesa. Hoje, a situação inverteu-se. Adolescentes da Nigéria, do Burkina Faso, Níger e Mali viajam para o Gana e Costa do Marfim com o objectivo de se naturalizarem e mostrarem serviço com os equipamentos nacionais dos seus países de adopção, muito cotados a nível internacional. É o caso de Emmanuel Onyedicachi, 19 anos, nigeriano, que após a morte da mãe, em 2006, se instalou em Acra. “Quero impôr-me aqui porque daqui é mais fácil saltar para a Europa”, diz. O mercado negro aproveita-se deste êxodo. Os jovens imigrantes conseguem comprar um passaporte ganês por cerca de 75 euros. A comunidade internacional começa a reagir a este problema. Joseph Blatter, presidente da FIFA, diz que os clubes europeus estão a cometer “uma violaçao social e económica” e chamou os agentes ilegais de “falsos profetas”. A ONG “Save the Children” emitiu um comunicado em 2008 que dizia que “o tráfico relacionado com o futebol e a disseminação de academias ditas de excelência são factores de preocupação crescente da instituição”. No treino da sua equipa de jovens jogadores, o F.C. Nania, Abedi Pelé adverte constantemente os futebolistas de que “nem todos podem chegar a profissionais” e de que é preciso estudar “para ler os contratos e não ser enganado”. Depois do ouro e dos diamantes de sangue, os pés mágicos das crianças africanas são o novo negócio sujo do continente. Mesmo assim, Yaw não deixa de tentar fazer o seu golpe. Por e-mail, faz-nos a proposta indecente: “Por favor, coloquem o Jimmy a jogar em Portugal. Vocês ganham 20% e eu 10% do valor da transferência”. Não, obrigado.

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Jimmy Wulff. Foto: João Henriques.

Caixas

Futebol no Gana

O campeonato do Gana é um dos mais competetivos da região. O Hearts of Oak e o Asante Kotoko, ambos com 21 títulos, são as duas maiores equipas do país. O jogo entre os rivais é de alta tensão e, em 2001, provocou centenas de mortos após uma investida da polícia com gás lacrimogéneo. A selecção nacional ganesa já venceu por quatro vezes a Taça de África das Nações e marcará na África do Sul a sua segunda presença em fases finais de Campeonatos do Mundo. O Gana est´alinhado no grupo D, com a Alemanha, a Sérvia e a Austrália. Um dos maiores feitos na história do futebol do país foi a conquista do campeonato do Mundo de sub-20, em 2009, no Egipto.

Os números do drama

500 academias de futebol ilegais a funcionar no Gana.

750.000 crianças africanas participaram nos treinos de captação da academia Aspire, do Qatar, para lutar por 23 lugares na escola de futebol.

2200 euros é o preço que um empresário pode pedir à família de um jovem talento para o pôr a jogar na Europa.

A Culture Football Solidaire, uma ONG com sede nos subúrbios de Paris, trabalha directamente com 800 futebolistas africanos clandestinos, quase todos menores de idade.

Em Maio de 2007, 130 jovens africanos desembarcaram desidratados na praia de La Mejita, Tenerife. A polícia detectou que 15 desses adolescentes acreditava que ia a caminho dos treinos em equipas como o Real Madrid, o Marselha e o Paris St.Germain.

75 euros é quanto custa um passaporte ganês para um jogador natural do Níger, do Burkina Faso ou da Nigéria.

33% da população ganesa vive com menos de um dólar por dia. A pobreza está na base da esperança de enriquecemento com o futebol.

Os esquemas de burla

Um dos esquemas que mais ouvimos é o de burla na Internet. O empresário diz ao futebolista para lhe mandar o passaporte com a promessa de o colocar numa equipa europeia. Afinal, acaba a reclamar dinheiro para devolver o passaporte ao jogador.

Outros empresários, treinam crianças desde os sete anos e convencem os pais a dar-lhes dinheiro para colocar o atleta a jogar na Europa. Muitas famílias são obrigadas a tirar os filhos da escola, a vender património e até as casas. O rapaz parte para a Europa mas não vinga nas exigentes equipas europeias, ficando entregue à marginalidade.

Há ainda os que convencem os jogadores mais velhos a tentar a sua sorte em países longínquos como a Tailândia, a Arménia e a China, obrigando a pagar-lhes para obter o visto. Quando os jogadores chegam ao aeroporto de destino percebem que o visto não é válido e, mesmo quando conseguem ultrapassar essa barreira, são abandonados pelos burlões.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.