133.56

O vazio de espaços de lazer em tempos de pandemia: reflexões sobre o esporte e o Estádio Mineirinho

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

A pandemia do COVID-19, que alcançou o Brasil recentemente, estimulou a tomada de medidas de prevenção e de controle da propagação do vírus. Diferentes setores da sociedade precisaram se organizar e reinventar novas possibilidades de ação, diante das dificuldades que foram postas pela limitação da convivência social, devido, em especial, às medidas de distanciamento e isolamento que precisaram ser implementadas.

Deparamo-nos com um novo panorama, inimaginável anteriormente para o nosso contexto, apresentando muitas situações inusitadas no cotidiano, impactando nossos sentimentos, as relações interpessoais e o modo como vivemos. Ações corriqueiras foram alteradas, nos impulsionando a reinventar o modo como trabalhamos, estudamos e nos divertimos.

Este momento tem evidenciado algumas realidades pouco comuns até então. Talvez a mais impactante seja a dificuldade ou impossibilidade do toque humano. É muito estranho ver as pessoas e não poder abraçá-las. Até mesmo a saída de casa para ir ao mercado pode causar estranhamento, evidenciando dúvidas e a sensação de que seria melhor ficar em casa.

E a casa? Se considerarmos os diferentes espaços sociais, é possível que neste período a moradia tenha se transformado significativamente para muitas pessoas. De local utilizado predominantemente para descanso e convivência em família, ela assumiu múltiplas funcionalidades. O uso da internet e de outras tecnologias contribuiu para a aproximação das pessoas, que estando em suas casas, puderam se comunicar e se encontrar no ambiente virtual. Videochamadas também foram utilizadas para o trabalho em casa, além de videoconferências e de ligações telefônicas.

A escola também está adentrando o espaço doméstico durante a pandemia. Ainda que no momento não seja uma possibilidade para todos os estudantes dos diferentes níveis de ensino, é possível identificar que instituições educacionais, públicas ou privadas, estão se reorganizando e construindo estratégias para minimizar os efeitos do distanciamento na educação. Videoaulas e outros recursos impulsionam a continuidade da educação formal nestes tempos de escolas vazias e de estudantes distantes do ambiente físico escolar.

Até mesmo o lazer, que anteriormente já se fazia presente no ambiente doméstico (em situações como encontros entre amigos, festas ou em atividades de descanso e divertimento realizadas em casa), foi impactado pela longa permanência das pessoas nesse ambiente. A determinação de suspensão do funcionamento de espaços públicos e privados como teatros, parques, estádios e cinemas, que buscavam evitar a aglomeração de pessoas nesses locais, ocasionou a inviabilidade do acesso ao lazer fora de casa. Desse modo, frente ao esvaziamento desses e de outros espaços propícios ao lazer, é possível observar uma maior utilização das moradias para esse fim, sendo locus para: as brincadeiras das crianças; acompanhar lives de diversos artistas; participar de jogos eletrônicos on-line; conversar em redes sociais; e, nas últimas semanas, acompanhar as competições esportivas que estão sendo retomadas. Essas e outras diversões vividas no ambiente doméstico podem ser compreendidas como reflexos da inviabilidade de vivenciar o lazer, de modo múltiplo, no espaço público.

O Mineirinho vazio. Foto: Luciana Cirino.

A percepção da limitação do uso dos espaços públicos, neste contexto da pandemia, me impulsou a refletir sobre a importância que o lazer pode ter em nosso cotidiano. É possível identificar que se trata de um campo muito amplo, propício a estudos que podem ser abordados por meio de análises econômicas, sociais e de impactos na saúde. E essa reflexão me conduziu ao período em que realizei o levantamento documental da pesquisa[i] sobre o Estádio Jornalista Felipe Drummond, o Mineirinho.

Entre idas e vindas ao arquivo documental no próprio Mineirinho, que contribuíram para que eu me ambientasse a ele, também tive a oportunidade de garimpar memórias em documentos e em relatos de pessoas que ali trabalharam. Um dos aspectos que se destacou foi a possibilidade que esse espaço público pode ter no fomento a muitas ações no campo do lazer, e, entre elas, diversas modalidades esportivas.

Vista externa do Mineirinho. Foto: Luciana Cirino.

Construído pelo Governo de Minas Gerais nos anos 70, foi inaugurado em 15 de março de 1980, e ao longo dos anos vem alcançando significativa relevância em função das diversas possibilidades de utilização que oferece à população, com destaque para a realização de eventos esportivos e artísticos. Ao longo de quarenta anos de seu funcionamento, foi palco[ii] para a apresentação de artistas e bandas de destaque nacional e internacional, entre eles: Roberto Carlos, Milton Nascimento, Mercedes Sosa, Kiss e Creedence.

No campo esportivo, o Mineirinho proporcionou a realização de diversos jogos e torneios, contando com a presença maciça da torcida e a cobertura da imprensa esportiva em algumas competições, como ocorreu na Superliga de Voleibol em 2017 e em 2018[iii], em que o Cruzeiro conquistou o hexacampeonato nacional, e na Liga Nacional de Futsal em 1999[iv], quando o Atlético Mineiro conquistou o bicampeonato na Liga. Mas a relevância do Mineirinho no campo esportivo também pode ser percebida em modalidades que despertam pouco interesse na cobertura da imprensa, mas que são relevantes para seus praticantes e seus torcedores.

Final da Superliga de voleibol em 2017 no Mineirinho. Foto: Luciana Cirino.

Além de ser a sede de muitas federações esportivas (de modalidades como boxe, arco e flecha e futebol de mesa), é possível identificar a realização de competições dessas e de outras modalidades, que muitas vezes contam com menos cobertura das emissoras de televisão e de rádio, e que demandam maior apoio para se desenvolverem. Desse modo, o Mineirinho também teve e tem papel relevante no desenvolvimento dessas modalidades, que contribuíram para levar agitação e movimentação aos espaços externos e internos dele, fosse pelo funcionamento das federações, ou ainda durante os eventos esportivos.

Pensando nessa animação de espaços públicos de lazer como o Mineirinho, os quais agora que se encontram silenciados devido às medidas de distanciamento social, é possível observar como as pessoas são fundamentais para tais espaços e como os mesmos são importantes para nós. Tanto no ambiente público quanto no ambiente privado, é possível perceber como o lazer pode perpassar a vida das pessoas e as relações sociais. Ele pode ser campo de atuação, de formação e a própria diversão. E os esportes são pilares potentes nessa estrutura. Saudade desses tempos de trânsito livre nos campos, nas quadras, nos estádios, nos ginásios e nas pistas.

E o que seria saudade? Penso que a saudade é um sentimento afetuoso daquilo que nos falta. Guarda estreita relação com as situações em que nos lembramos de pessoas, de momentos especiais ou daquelas coisas das quais gostamos. Nos tempos em que estamos vivendo, além das muitas pessoas das quais tenho saudade (de vê-las presencialmente e da sensação gostosa do contato, do aperto de mão e dos abraços), também sinto falta do lazer público, de ir ao Mineirinho, apreciar a sua arquitetura, andar em seu entorno e frequentar a feira às quintas-feiras à noite e aos domingos. Ir ao seu vizinho, o Mineirão, e assistir ao jogo do glorioso celeste. Observar elementos técnicos e táticos do jogo, cantar e vibrar na arquibancada e viajar nos pensamentos sobre a beleza que é a diversidade dos personagens que constituem a torcida. E, antes ou depois da partida, desfrutar a diversidade gastronômica que se instaura no entorno do estádio em cada dia de jogo, em que o tropeiro é prato de destaque. Enquanto esse tempo não volta, navego nas memórias, sustentada pela esperança de dias melhores e de muita força para seguirmos adiante.


Notas

[i] Pesquisa vinculada ao Programa de Pós-graduação em Estudos do Lazer, orientada pelo professor Dr. Elcio Loureiro Cornelsen, concluída em julho de 2019 com a defesa da Tese: Mineirinho, dos planos ao concreto: memória e história do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (1959-1980). Acesso em: 15 jul. 2020.

[ii] Veja mais informações na reportagem de Thaís Leocádio disponível neste link. Acesso em: 15 jul. 2020.

[iii] Veja mais informações na reportagem de Matheus Adler disponível neste link. Acesso em: 15 jul. 2020.  

[iv] Veja mais informações na reportagem de André Camargo, Flávio Dilascio e Renan Wance disponível neste link. Acesso em: 15 jul. 2020.