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A espetacularização asséptica do futebol e a morte matada dos boleiros

Georgino Jorge de Souza Neto, Tomaz Salles de Amorim Pereira

Nos últimos tempos, temos assistido (de pay-per-view), a mais profunda transformação do futebol brasileiro. De maneira sutil e sub-reptícia, o cenário futebolístico nacional vem se alterando radicalmente. Hoje, os personagens protagonistas deste espetáculo já não são mais os mesmos. O perfil de jogadores, torcedores, dirigentes e treinadores já se encontram distante de um tempo não tão distante assim.

Ainda que possamos ser acusados de um romantismo saudosista e ingênuo, julgamos essencial nos atentarmos para a paulatina perda de aspectos tradicionais que compuseram a história do nosso futebol – marcado pela ginga e malandragem, saudades? Talvez como consequência nefasta e irreversível de ter sedeado uma Copa do Mundo – motriz da emergência de um novo quadro – estamos à volta com a transição dolorosa para um novo mundo. Um rito de passagem, tal qual vivenciado exige a morte de um tempo para que outro possa surgir.

Novos estádios precisam de novos torcedores. Novos dirigentes demandam novos jogadores. Novos jogadores pedem novos técnicos. Mas para onde foi o que antes havia? Onde foram parar os clássicos com torcidas divididas? E cadê aqueles jogadores que davam entrevistas. Alguém poderia dizer em que lugar encontram-se os folclóricos treinadores, professores de tudo, com ciência e sabedoria inigualáveis? Para onde foi, respondam pelo amor de Deus, aquelas jogadas genialmente irresponsáveis, construídas por pés e cabeças sem juízo algum? Onde está o imponderável do futebol, que garantia a graça e a beleza de tudo?

Moderno estádio Mané Garrincha, memória póstuma ao irreverente jogador de pernas tortas, contrasta gerações. Foto: Fábio Rodrigues – Agência Brasil.

Será que teremos que perder tudo isto para a sofisticação asséptica do jogo? Para a transmissão televisa paga, os programas de sócio-torcedores, técnicos estudados e de fala mansa e arrogante, dirigentes, empresários e jogadores programados para o óbvio?

Neste embate entre tradição e novo estamos todos perdidos. A partir de agora, senhoras e senhores, seremos o pragmático futebol dos outros, sobretudo, daqueles que outrora nos invejavam. Inauguremos, assim, o futebol clean, que trará para as futuras gerações as emoções indizíveis de um clássico com torcida única. Ademais, o desfazimento do boleiro e da boleiragem será o fim definitivo de uma época em que o nosso futebol era próprio e distintivo, justamente por ser malandro, ingênuo e irresponsável (não necessariamente nesta ordem).

O futebol, dito moderno, incorporou o estilo europeu e de modo quase arbitrário alterou a maneira de vivenciar o universo da bola no Brasil. Visíveis e mais impactantes são as mudanças ocasionadas nos estádios, agora vistos como grandes arenas multiuso e comercias; e no público, tipicamente composto por sócio-torcedores. Não obstante, as transformações alteraram de modo significativo, todavia, silenciosa à relação dos jogadores com o futebol.

Os jogadores passaram a representar o modelo arbitrário supramencionado. O futebol enquanto produto comercial inibiu e oprimiu o momento máximo de gozo e alegria, o gol. A espontaneidade, a euforia e o caráter de extravaso das comemorações foram forçosamente contidos, consta-se em lei a punição com o cartão amarelo em caso de festejos considerados desrespeitosos. Tirar a camisa é desprezar o patrocinador em momento de visibilidade da marca. Colocar as mãos nos ouvidos para ouvir a torcida adversária é tratado como provocação. Comemorar, respeitável consumidor, é ato de etiqueta estabelecido e programático.

Cláudio Winck, sem camisa, comemora o gol do Internacional de Porto Alegre. Foto: Alexandre Lops – Sport Club Internacional.

Entrevistas irreverentes e mensagens provocadoras tem espaço nesse novo futebol? Hoje, a lista de perguntas é previamente analisada e arquitetada pelo assessor de imprensa, o jogador assume um papel extremamente político e demasiadamente respeitoso. As respostas não fogem do senso comum, marcadas pela padronização e pela ponderação. Haveria espaço para Edmundo, Romário, Renato Gaúcho, Vampeta e companhia nesse cenário de pragmatismo?  As saudosas e inesquecíveis declarações destes traziam um aspecto diferenciado, provocativo, malandro e boleiro para o futebol. Recriminadas a todo instante são as frases polêmicas, basta uma brincadeira, ainda que branda, para que as críticas pairem. “Vamos respeitar o adversário, eles têm uma grande equipe, mas vamos lutar aí… E se Deus quiser conquistar os três pontos.”

Romário, o baixinho marrento do futebol brasileiro. Foto: Ricardo Ayres – Photocamera.

O futebol atual tem um anseio e uma preocupação forte com o aspecto tático, técnico e programático da partida. Treinadores estudiosos trazem vídeos, análises e estatísticas a despeito do adversário. Sim, de fato tais precauções são importantes, mas a mim, mero adepto do futebol, essa atenção excessiva tirou do jogador brasileiro características intrínsecas. O drible, a ginga, a irresponsabilidade tática, a irreverência e a jogada arrojada, diferente. Em qual artigo Edilson “Capetinha” seria enquadrado se repetisse as embaixadas da final do Paulista em 1999?

Ser boleiro na acepção da palavra não é, apenas, vestir uma camisa, calçar uma chuteira e entrar em campo. Antes a boleiragem incita um estilo próprio, irreverente, malandro e essencialmente brasileiro. Não se pode acabar com um dos grandes diferenciais do futebol aqui enraizado. Vida longa à Garrincha, Romário, Evaristo de Macedo, Vampeta, Edílson e Éder Aleixo. A estes, ser boleiro significou carregar a ginga na vida e a incorporar o estilo: “Boleiro é Boleiro, Mané é Mané”.

Como citar

SOUZA NETO, Georgino Jorge de; PEREIRA, Tomaz Salles de Amorim. A espetacularização asséptica do futebol e a morte matada dos boleiros. Ludopédio, São Paulo, v. 71, n. 5, 2015.