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Esporte: vou acabar com isso aí, talquei?

Luciane de Castro

O pleito mais surreal e insano das últimas décadas acabou, mas o pesadelo está apenas começando. Não que o campo progressista e pessoas com algum senso dos absurdos vindouros não tivessem consciência dos péssimos tempos que se aproximam, mas algumas das medidas já anunciadas – sem contar os covardes e violentos ataques às pessoas – fortalecem o caráter aniquilador do governo eleito.

Vários foram os anúncios de extinção ou fusão de ministérios, e a notícia que mais pega para nós, que lidamos com o esporte, é sobre o fim do Ministério do Esporte. O esporte, antes gerido através de pasta mista, se desvinculou em 2003 e, a partir de 2005, criou o Bolsa Atleta, benefício exclusivo de incentivo ao atleta brasileiro.

Se tínhamos dificuldades para melhorar nosso desempenho nos Jogos Olímpicos, com o fim da pasta e, provavelmente, fim do benefício, o atleta brasileiro encontrará maiores dificuldades em se manter competindo em alto rendimento dada a necessidade de dedicação integral aos treinos.

Pelo menos a mim não surpreende a estratégia do (des)governo eleito, mas vários atletas se abstiveram de compreender mais profundamente o discurso e a estratégia do “novo” governo durante a campanha ou simplesmente adotaram o discurso de “combate à corrupção do PT”.

Isto posto, cabe salientar a ausência de manifestação no período de campanha em que batíamos na tecla do retrocesso, retirada de direitos conquistados, atentado violento ao estado democrático de direito, entre tantos outros fatos absolutamente inaceitáveis, mas não fomos ouvidos.

Agora tememos que – e conhecemos bem a árdua realidade dos atletas – o esporte ficará entre tantos outros assuntos dentro de uma única pasta que provavelmente – e seguindo a linha pavorosa dos nomes que se apresentam para as demais – sofrerá cortes agudos e influenciará definitivamente na vida de quem depende de verba para se manter competindo.

E, se não bastasse o fato em si, podemos sublinhar o caráter misógino do presidente eleito, seus asseclas e o que ele pensa sobre o espaço ocupado pela mulher nas mais variadas áreas da sociedade. Se a luta pela isonomia no campo esportivo já era difícil, não seria demais dizer que, em especial para as atletas do futebol, voltarmos às leis de 1941 e a resolução de 1965 é uma possibilidade.

Nos últimos três anos de trabalho com exposições e nos últimos dez de trabalho de pesquisa e visibilidade para as mulheres do futebol, fizemos questão de contar a história da proibição. Ela está no Museu do Futebol, ela está em estudos acadêmicos, em reportagens, materiais especiais pela web, mas não me parece ser interessante o suficiente para parte das atletas. Caso fosse, teriam se manifestado em massa pela manutenção de nossa democracia e compreenderiam o perigo pro qual alertávamos incessantemente.

O campo democrático sofreu uma amarga derrota neste pleito com ampla ajuda – e às cegas – de muitos que gozam de benefícios criados no início e em meados dos anos 2000 e que abraçaram, sem nenhuma análise, o discurso difamatório veiculado a largo por emissoras de tevê que compactuaram com o golpe de 2016.

Chegamos aonde chegamos. Destruição. Sabe o esporte ao qual você dedicou sua vida inteira? Então, ele vai acabar com ele também, “talquei”?