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Esqueçam Clairefontaine

Arthur Sales

Essa foi a segunda Copa que acompanhei como jornalista. Mais uma vez, buscando fomentar reflexões de interesse público, como prega o código de ética da nossa profissão, relacionadas ao esporte. Em 2014, com o baque do 7 x 1, pude perceber que na busca por culpados e soluções, comum nas discussões que sucedem uma derrota brasileira, ainda mais após um vexame histórico como o que havia acontecido, as categorias de base foram apontadas como as grandes vilãs.

O Brasil já não tinha tanta qualidade como antigamente, diziam. A referência do momento era projeto de reconstrução executado pela Alemanha e seu modelo de formação. Terminado o mundial de 2018, a França é agora a bola da vez. Mesmo antes da final, o trabalho desenvolvido pela Federação Francesa de futebol no seu centro de excelência de Clairefontaine, passou a ser o alvo das atenções.

Segundo as recentes reportagens, textos e posts, é lá que, há algumas décadas, grupos de elite de jovens de 12 a 15 anos são preparados para se tornarem os próximos grandes jogadores do país, o que ajudaria a explicar o sucesso da atual geração, tão promissora e já campeã do mundo.

mbappe

Mbappé, o craque francês de 19 anos. Arte: André Fidusi.

Sem entrar no mérito do que é realmente feito por lá, ficando no que essa descrição representa o que tenho a dizer é, esqueçam Clairefontaine. Quando falamos de um centro que agrupa uma elite de jovens de 12 a 15 anos nos remetemos a duas ideias que juntas são perigosas para um ambiente saudável de formação de jogadores: a seletividade e a precocidade.

Por si só, o ambiente das categorias de base já é altamente seletivo. Clubes e empresários tentam cada vez mais cedo encontrar jovens talentos. No Brasil, crianças, com seus 8, 9 anos, vem sendo convidadas a incorporar equipes fora de suas cidades e até estados. Milhares de vidas viradas de ponta cabeça em nome de um projeto, ou sonho, de uma carreira esportiva que é muito mais das famílias, clubes e empresários, com chances estatisticamente lotéricas de sucesso. É a busca pelo “talento nato”, não se acredita no desenvolvimento do jogador, e sim no descobrimento de uma joia, ênfase total em identificar, selecionar e descartar.

Afirmar que a Clairefontaine da seletividade precoce é o caminho, reforça esse modelo. Quem faz isso joga contra um processo de formação de jogadores que poderia ser mais humano, porque, apesar de o trabalho dos grandes clubes, em muitos casos, contar com uma estrutura física e profissionais capazes de receber crianças e familiares, ele é apenas a ponta do iceberg de uma rede muito mais abrangente na qual enxergar e tratar crianças como mercadoria, desrespeitando seus direitos básicos, é o padrão.

Para o Brasil ser uma potência, seja no futebol ou em qualquer outra modalidade, não são necessários centros de excelência. Segundo o último Censo, 32 milhões de crianças e jovens com idades entre 5 e 14 anos viviam no país (16,3 mi meninos e 15,7 mi meninas) em 2010, muito mais do que a população da Croácia finalista na Copa. Basta entender que não é preciso garimpar, mas sim tratar crianças como gente. Proporcionar uma vida digna a todas elas, permitindo que brinquem, corram, dancem, nadem, escalem e conheçam tantas modalidades esportivas quanto o possível, para que na hora certa as que se demonstrarem aptas, e serão muitas mais do que hoje, estejam preparadas para o salto competitivo. Vem muito mais das ruas de suas cidades (recomendo o documentário “Bola no asfalto”) do que de Clairefontaine a explicação para o título francês, assim como foi da terra, vielas e praias que sempre surgiram os craques brasileiros. Na formação de jogadores importa muito mais o processo, mesmo quando acontece de forma espontânea, não formal, do que o “talento nato”.

Lembrando também que vale muito mais o bem-estar de todas as crianças do país do que uma estrela no peito em uma camisa de futebol, mas é possível fazer os dois.