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Esquecer a guerra – Grand-Bassam, Costa do Marfim

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

A morte é sempre uma visita indesejada. Contudo, torna-se mais fácil de a aceitar se ela aparecer de rosto descoberto, se mostrar os seus documentos, quer seja sob a forma de homicídio, acidente ou doença. Não há morte mais difícil de definir do que a acontece em guerra. É uma morte anónima e encapuzada, sem nome nem rosto, que irrompe do meio do mato e desfere, impiedosa, o golpe letal. Aos que perdem os seus ente-queridos na guerra, não lhes é permitido apontar o dedo a nada nem a ninguém, recorrer aos melhores médicos ou sentar o assassino no banco dos réus. A guerra é intocável e inimputável, não responde a acusações, ignora friamente preces e lágrimas . Quando uma criança tem de explicar a morte dos pais num cenário de carnificina, diz apenas que faleceu na “guerra”. Ao longo da sua vida, não pode procurar a vingança, a culpa e a redenção. Porque foi a “guerra”. Porque a guerra vem-e-vai mas não liberta os seus reféns. Assim, a criança vê-se, de repente, desprotegida, como se uma palavra de magia negra lhe tivesse roubado os progenitores e transformado a vida num pesadelo. O maior desafio dos órfãos de guerra é ultrapassar este trauma e é nesse sentido que o orfanato EMSF (Enfants Meutrie Sans Frontières) trabalha.

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Foto: João Henriques.

“Algumas dessas crianças chegaram aqui muito traumatizadas porque viram os pais morrer à sua frente”, diz Erick Attiapo, coordenador da instituição. “São crianças que têm de ter um acompanhamento permanente e não devem andar sozinhas. Creio que, na maioria, já ultrapassaram esse trauma”. O EMSF começou a funcionar em 2002, por coincidência, o ano de eclosão da guerra civil na Costa do Marfim. Mas foi em 2005, no pico dos ataques mais sangrentos, que esta organização privada recebeu mais órfãos. “Em 2005, o país empobreceu muito”, diz Erick. “Então começámos a ir para os bairros de lata identificar os casos mais precários. Quando detectávamos uma criança subnutrida ou sem acompanhamento familiar, davamos-lhe arroz, milho e livros escolares. Mas se, mesmo assim, a falta de meios dos pais impedisse o seu bom desenvolvimento, não nos restava outra hipótese senão trazê-la para o orfanato”. Hoje, albergam 36 crianças, 21 rapazes e 15 raparigas, crianças dos 12 aos 15 anos de todos os pontos do país que tentam refazer a vida em Grand-Bassam, a pouco mais de 20 quilómetros de Abidjan, junto às águas infinitas do Atlântico.

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Foto: João Henriques.

Equipados com camisolas amarelas e azuis, as crianças divertem-se na aula de desporto. No meio do canavial, aproveitam uma clareira de areia cinzenta para praticar futebol com pequenas balizas. Começam as raparigas, todas de cabelo curto, que soltam gritos estridentes quando a bola se acerca dos postes. Os pais destas crianças dispararam uns contra os outros, na guerra civil que dividiu o norte e o sul da Costa do Marfim entre 2002 e 2007. Calcula-se que tenham morrido de 4000 a 5000 pessoas. Provavelmente, sobre esta areia cinzenta estão filhos de pais que se odiaram de morte, crianças que cresceram a ver os pais defender o rebelião das Forces Nouvelles, do norte, ou o exército leal ao presidente Gbagbo, do sul. Mas, indiferentes a este passado de raiva, ingénuos como as crianças devem ser, os filhos da guerra divertem-se com a mesma bola, riem e saltam uns para cima dos outros como se fossem filhos de uma só causa – a de construir uma Costa do Marfim unida e pacífica.

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Foto: João Henriques.

A história de vida de Osvald, 15 anos, é sintomática da realidade durante a guerra. Filho de pais adolescentes, foi obrigado, em 1998, a fugir de Bouaké, a sua cidade natal no norte do país, para se refugiar com os pais num bairro de lata de Abidjan. “Lembro-me que a guerra começou a afectar muita gente e que milhares de pessoas começaram a deslocar-se para Abidjan”, diz. “Quando chegámos, fiquei a dormir no chão de uma sala, onde não tinha as mínimas condições. Eu e os meus irmãos vivíamos todos ao molho”. Para piorar a situação, o pai de Osvald, ainda muito jovem, foi recrutado pela milícia rebelde e acabou por morrer em combate. “A vida tornou-se muito difícil e nem tínhamos o que comer”, diz. “Até que uma senhora me trouxe para cá. Aqui estou muito melhor porque me dão comida e se ocupam de mim”. Osvald gosta de compor músicas de rap com letras contra a guerra e a denunciar a pobreza e quer tornar-se basquetebolista, como o seu ídolo Michael Jordan.

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Foto: João Henriques.

 

No fim da aula de desporto, as crianças saltam à nossa volta, gritando nomes de jogadores portugueses: “Deco, Deco, Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo”. O reboliço é grade mas, à mínima chamada de atenção de Erick, metem-se em sentido. A maioria destas crianças nasceu em famílias disfuncionais, cresceu em bairros de zinco com um cheiro pestilento e não teve incentivo escolar, mas não têm menos educação e respeito do que os filhos de um diplomata francês. Talvez porque reconhecem o que o orfanato fez por eles ou porque dão valor às novas oportunidades que lhes deram, uma verdadeira bóia lançada a um náufrago indefeso no meio de uma tempestade.

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Foto: João Henriques.

Entramos nos dormitórios das raparigas, com pequenos beliches adornados com bonecos de peluche. Nas paredes, estão folhas dos cadernos de matemática com nomes de futebolistas marfinenses rabiscados ao lado de corações sombreados: Keita, Drogba, Yaya, Aruna…Cada quarto aloja de três a quatro meninas e o programa de tarefas domésticas está afixado na parede. “Aqui está tudo programado; se é hora de brincar, brincamos, se é hora de comer, comemos, se é hora de estudar, estudamos”, diz Victoire, 13 anos. Victoire gosta de história mas o que quer mesmo é ser polícia porque, diz, adora mandar. “A guerra destruiu-nos a vida e peço que ela acabe para mais nenhuma criança sofrer o mesmo que nós”, diz.

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Foto: João Henriques.

 

Também Marc, 15 anos, o melhor futebolista do orfanato, perdeu o pai na frente de combate. “Vivíamos mal, muito mal mesmo”, recorda. “Até que tive a sorte de ser chamado a uma reunião com uma assistente social que me trouxe para o orfanato. Aqui cada um tem o seu quarto, a sua cama, o seu armário, lá fora tínhamos cada uma destas coisas a dividir pela família toda”. Hoje ambiciona chegar ao Real Madrid e seguir o passos do seu ídolo, o brasileiro Ronaldinho.

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Foto: João Henriques.

Erick informa as crianças que nos vamos embora. De imediato, cercam-nos sorrisos abertos e despedidas em português. O EMSF é a antítese da imagem negativa que assombra os orfanatos. Vê-se, claramente, que as crianças são felizes, sem terem de cortar os laços com as suas famílias directas, com quem passam as férias. “Apesar de, por vezes, desaprenderem nesse período o que lhes é aqui incutido”, diz Erick. Mas o coordenador deve dar-se por contente. Não só fez com que as crianças perdoassem e esquecessem a face da assassina dos seus pais, a guerra, como fez com que, certamente, recordem para sempre a face de quem lhes relançou a vida.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup* Foi mantida a grafia original, no português de Portugal.