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Estádio Bastos Padilha: do Fla-Flu da Lagoa ao Flamengo e Corinthians no Futebol Feminino

Leda Costa
Estádio José Bastos Padilha, Gávea, Rio de Janeiro.

Debaixo do Cristo Redentor, Estádio Bastos Padilha

O futebol feminino me proporcionou uma agradabilíssima experiência futebolística. Não somente assisti a um ótimo Flamengo e Corinthians como também tive a oportunidade de pela primeira vez visitar o estádio Bastos Padilha. Popularmente conhecido como estádio da Gávea, sua inauguração data de 4 de setembro de 1938, ano em que o Flamengo consolida sua popularidade ampliada com a contratação dos ídolos nacionais Leônidas da Silva, Fausto e Domingos na Guia.

Enquanto permanecia sentada nas arquibancadas do estádio Bastos Padilha eu lembrava do “Fla-Flu da Lagoa” e pensava também que o futebol – assim como a vida –  é algo absolutamente dinâmico. Afinal, lá estava eu zanzando no clube que tem sua imagem fortemente vinculada a ideia de povo, mas cuja sede e estádio se localizam em uma das áreas mais caras do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro, por sua vez, é uma cidade com características curiosas. Sua geografia, por exemplo, permite que diferentes classes possam trafegar no mesmo espaço físico, sobretudo devido a presença de comunidades localizadas em bairros considerados “nobres”. Esse tráfego, entretanto, longe de gerar proximidade, evidencia a distância que separa os ricos dos pobres. Distancia essa explicitada, por exemplo, na divisão social do trabalho de locais como Gávea que é colada com a Lagoa e muito próxima do Leblon. Andar nesses espaços pode nos fazer sentir como se estivéssemos em uma novela de Manoel Carlos, atuando como coadjuvantes.

Nessa “cidade partida” talvez o futebol – em especial, o Flamengo – seja um dos únicos elementos que perpasse mundos tão díspares. E no dia 12 de abril, nos gramados do estádio Bastos Padilha, localizado em um dos metros quadrados mais caros do mundo, o Flamengo jogou contra o Corinthians na versão feminina do mais popular clássico do país.

Bastos Padilha, o estádio do Fla Flu da Lagoa

José Bastos Padilha foi um dos mais importantes presidentes da história do Clube de Regatas do Flamengo e não sem motivos, o estádio da Gávea oficialmente tem seu nome. Bastos Padilha era empresário do ramo da litografia e começou a carreira elaborando pequenas propagandas de estabelecimentos comerciais, impressos em pequenos cartazes e distribuídos aos clientes. O negócio prosperou e, em 1933, quando assume o Flamengo, Padilha já era um bem estabelecido empresário que mantinha ótimas relações com nomes influentes da alta sociedade, incluindo importantes políticos. Um de seus principais amigos era Mário Filho, também seu cunhado, jornalista que estabelece carreira no jornal O Globo na década de 1930 e que com ajuda financeira de Arnaldo Guinle, Roberto Marinho e Bastos Padilha, compra parte do Jornal do Sports, em 1936.

Padilha esteve à frente do clube em momento fundamental do futebol brasileiro quando da transição do amadorismo para o profissionalismo. É durante sua gestão que a identidade do clube passa por transformações na direção de um projeto que exaltava seu caráter popular assim como intensificava a imagem do clube com representante popular de uma nação. Em 1936, Padilha contrata o habilidoso trio de jogadores negros Fausto, Domingos da Guia e o polêmico Leônidas da Silva que, em 1938, ficaria mundialmente conhecido, graças as suas ótimas atuações na Copa do Mundo daquele ano.

Como parte do projeto de elevação do clube estava a construção de um estádio próprio, já que desde 1932 o Flamengo havia ficado sem campo para mandar as partidas do campeonato carioca. De 1915 a 1932, o Flamengo costumava mandar seus jogos no campo do Paysandu, sediado no bairro das Laranjeiras. O clube Paysandu foi campeão carioca em 1912 e encerrou suas atividades no futebol dois anos depois dessa conquista. A família Guinle que era proprietária do terreno resolve então alugá-lo ao Flamengo que constrói um pequeno estádio no local.  Porém, com o fim do contrato de locação e sem dinheiro para comprar o terreno, o clube se vê forçado a procurar outro lugar para jogar.

Fonte: Estádio do Flamengo na rua Paysandu http://mail.camara.rj.gov.br/Apl/Legislativos/scpro1316.nsf/409c628ddaf9002803257abe006c66cf/88a78f30188270cb83257eec006829b8/$FILE/estadioruapaissandu7.jpg

Fonte: Estádio do Flamengo na rua Paysandu.

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Estádio da Rua Paysandu.

Porém, um ano antes, o Flamengo por decisão do decreto municipal de número 3.686 havia ganhado o direito de cessão e aforamento de um terreno que margeava a Lagoa Rodrigo de Freitas. Na época, é válido que se diga que essa área era pouco valorizada, carecendo de maiores investimentos em urbanização. Da sede localizada no bairro do Flamengo, o clube gradativamente vai construindo sua nova casa no bairro da Gávea. Em 1936, as arquibancadas começam a ser erguidas e no dia 04 de setembro de 1938, o estádio foi inaugurado com um Flamengo x Vasco que venceu a partida por 2 a 0.

A inauguração do estádio da Gávea foi recebida com burburinho pelo Jornal dos Sports que com certo estardalhaço comemorou o surgimento de um a nova praça esportiva envolvendo-a com uma atmosfera de promessas de um futuro grandioso. Bastos Padilha não era mais presidente do clube, mas seu nome estava plenamente vinculado ao estádio da Gávea que para ele representava uma ótima conquista não somente para o clube como para o próprio esporte nacional:

Digo ainda e com maior convicção– acentua Bastos – que uma vez completa a obra idealizada, o Brasil terá recebido insuperável campo para Olimpíadas, na qual poderiam ser praticados todos os esportes (Jornal dos Sports, 04/07/1938).

Dia da inauguração do estádio da Gávea, Jornal dos Sports, 04/07/1938

Dia da inauguração do estádio da Gávea, Jornal dos Sports, 04/07/1938 (reprodução).

Dia da inauguração do estádio da Gávea, Jornal dos Sports, 04/07/1938

Dia da inauguração do estádio da Gávea, Jornal dos Sports, 04/07/1938 (reprodução).

Jornal dos Sports, 06/07/1938

Jornal dos Sports, 06/07/1938 (reprodução).

O tempo mostrou que as projeções de Bastos Padilha não se concretizaram. O estádio permaneceu acanhado em termos de tamanho e tornou-se palco quase que exclusivo das atuações do Flamengo em campeonatos regionais. A partir de 1950, o Maracanã passa a ser o local privilegiado do futebol carioca, em especial do Flamengo que continuou atuando na Gávea em jogos de menor apelo público. Em 1997, o estádio da Gávea deixa de receber jogos profissionais.

O Bastos Padilha protagonizou um histórico clássico imortalizado por Mário Filho como o “Fla-Flu da Lagoa”. A partida que decidiria o campeonato carioca de 1941 estava empatada em 2 a 2, a seis minutos do fim. Após estar perdendo por 2 a 0, o time do Flamengo conseguira igualar o placar, mas ainda precisava de mais um gol, pois caso contrário o título ficaria com o clube das Laranjeiras. Os jogadores do Fluminense então resolveram chutar as bolas na direção da Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma desesperada forma de fazer cera.

Entretanto, procurando nos jornais da época, inclusive o Jornal dos Sports e a análise do jogo feita pelo próprio Mário Filho, não é possível encontrar menção alguma às bolas chutadas na direção da Lagoa

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Crônica de Mário Filho sobre Fla-Flu de 1941, nela não há menção às bolas atiradas na Lagoa. Jornal dos Sports, 25/11/1941 (reprodução).

Grande parte das polêmicas acadêmicas em torno das obras de Mário Filho se referem à desconfiança quanto a fidedignidade de seus relatos. Por outro lado, tenho a impressão de que sua obra se mantém viva justamente devido a tendência de Mário Filho privilegiar o como contar uma história.  Quando leio Mario Filho, sobretudo aquele que escreve livros como Histórias do Flamengo e O negro no futebol, lembro do que Eric Auerbach falou sobre Homero: “Enquanto ouvimos ou lemos a sua estória, é nos absolutamente indiferente saber que tudo não passa de uma lenda, que é tudo “mentira”. A exprobação frequentemente levantada contra Homero de que ele seria um mentiroso nada tira de sua eficiência; ele não tem necessidade de fazer alarde da verdade histórica de seu relato, a sua realidade é bastante forte; emaranha-nos, apanha-nos em sua rede, e isto lhe basta” (A cicatriz de Ulisses. In: Mimesis, p.10).

Em outras palavras, na condição de leitores costumamos ser cativados por histórias bem contadas. E Mário Filho era um ótimo narrador. Os historiadores que me perdoem, mas crônicas como a “Fla-Flu da Lagoa”, publicada na revista Manchete Esportiva em 1956, explicam porque Mário Filho foi tão influente em seu tempo:

Noutro campo a história desse Fla-Flu seria diferente. Bola fora volta logo, na Lagoa demorava. E o Flamengo jogou na água guarnições inteiras de remo para apanhar a bola na Lagoa. Parecia que essas guarnições disputavam um campeonato de remo. Apanhavam a bola, mandavam-na de novo para o campo e ficavam n’água, os remos suspensos, os músculos retesados, prontos para quarenta remadas por minuto. Que outra bola havia de vir, e rápida. Enquanto o Fluminense pudesse jogar bolas na Lagoa, não faria outra coisa (…) O Fluminense acabou percebendo que, quanto mais bola jogasse na Lagoa, mais o jogo se demorava a acabar. Aqueles seis minutos poderia durar horas e então ninguém do Fluminense, nem do Flamengo aguentaria (1994, p.88-89).

O Fla-Flu da Lagoa, ao que parece, é uma imaginativa invenção do jornalista.  Uma invenção com certo de nível de verossimilhança, afinal há de se considerar que o campo do Flamengo naquela época era muito próximo das águas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Fonte: O campo do Flamengo sendo margeado pelas águas da Lagoa. https://flamengoalternativo.wordpress.com/2016/03/02/dossie-gavea-passado-presente-e-futuro-do-estadio-rubro-negro/

O campo do Flamengo sendo margeado pelas águas da Lagoa.

Hoje em dia, a versão de Mário Filho seria inviável. Além de o estádio não receber mais Fla-Flus em nível profissional, a Lagoa Rodrigo de Freitas deixou de margear o campo do clube, após passar por novas etapas de aterramento para dar passagem a construção de ruas, dando continuidade ao processo de higienização urbana e de expansão mobiliária que marcou a região na década de 1960. Além do aterramento, houve diversas remoções de favelas na zona sul do Rio. A Favela do Pinto, que ficava ao lado do clube do Flamengo, foi substituída por um conjunto de prédios denominados de Selva de Pedra em alusão a novela homônima que fazia sucesso na TV na época.

Fonte: http://salacristinageo.blogspot.com.br/2013/11/cidade-de-deus-cdd-historia-do-bairro.html?view=snapshot

Reprodução.

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Foto: Leda Costa.

Hoje não há mais possibilidades de bolas na Lagoa, sejam elas inventadas ou não. Entre o campo e as águas há a Avenida Borges de Medeiros e a sede do clube que pode ser vista ao fundo.
Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Os tempos são outros. Do Fla-Flu de 1941 até os dia de hoje muita coisa mudou, algumas para o bem e outras nem tanto. Mas uma mudança há de se destacar e comemorar, pois se no ano do Fla-Flu da Lagoa, o futebol feminino foi proibido no Brasil, em 2016 lá estava o estádio Bastos Padilha abrigando o clássico Flamengo e Corinthians pela 4a rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino.

Flamengo x Corinthians, campeonato feminino de futebol 2016

Em muitos jogos do campeonato feminino de futebol não existe a obrigatoriedade de venda de ingresso, o que permite que eles ocorram em estádios que não costumam abrir para o grande público, como é o caso do Bastos Padilha. Sendo assim, se você gosta de futebol e tem algum tempinho sobrando,  assistir a um jogo das meninas não somente é importante para dar força para essa modalidade, como pode ser uma oportunidade de assistir a um bom futebol em um estádio com história para contar. Em uma tarde de outono, esse é um programa esportivo muito bem vindo. 

Foto: Leda Costa.

O problema é que o outono no Rio de Janeiro pode ter temperaturas bem altas, como foi o caso da tarde de Flamengo x Corinthians. E essa é a parte ruim do Campeonato Feminino: o horário de alguns jogos. O Estádio da Gávea não tem iluminação artificial, por isso, as partidas precisam ser realizadas em horários que considero pouquíssimo adequados tanto para quem pratica quanto para os que assistem. Corinthians e Flamengo, por exemplo, começou às 15h debaixo de um sol escaldante. O Flamengo também costuma mandar seus jogos no estádio Antunes, que pertence ao CFZ (Centro de Futebol Zico), onde há as partidas podem ser iniciadas mais tarde. Porém, sua localização não é nada animadora. Caso não se tenha carro – como é meu caso – o acesso é um tanto difícil.

Mas vamos deixar as reclamações um pouco de lado porque o campeonato feminino este ano tem motivos para comemorar. Clubes importantes do país montaram equipes femininas como Vasco, Flamengo, Corinthians e outros já tradicionais como o Iranduba do Amazonas que tem obtido ótimas médias de público em seus jogos realizados na Arena da Amazônia. Médias maiores que muitos jogos do Campeonato Carioca e infinitamente maiores que as do campeonato masculino de futebol Amazonense. Indatuba x Corinthians realizado em março levou quase 9 mil pessoas às arquibancadas. Indatuba X Flamengo, realizado dia 20 de abril, teve um público de 7 mil pessoas. 

O Flamengo x Corinthians foi assistido por poucas pessoas na Gávea, entre as quais parentes de jogadoras, futuras jogadoras, assim como pessoas que estavam no clube e resolveram dar uma passada no campo. E quem esteve nas arquibancadas pode assistir a um bom espetáculo futebolístico de dois times com algumas jogadoras que pretendem atuar pela seleção Brasileira nas Olimpíadas de 2016. 

Grupo de jogadoras. Foto: Leda Costa.

Filmagem do jogo e notem duas pessoas assistindo à partida deitadas nas arquibancadas. Isso é um privilégio. Foto: Leda Costa.

Da seleção feminina, o Flamengo tem Maurine e Bia e o Corinthians Letícia e Rafaela Travalão, todas já convocadas pelo técnico Vadão. Elas integram os times graças ao processo de draft adotado pela CBF, desde 2015, com a finalidade de distribuir as jogadoras da seleção brasileira permanente entre os clubes classificados para a segunda fase do campeonato brasileiro.  Além dessas jogadoras o Flamengo também tem atletas experientes como Maycon e Tania Maranhão medalhistas olímpicas em 2004 e 2008.

O jogo entre as equipes teve uma característica fundamental: não foi morrinhento. As meninas estavam de fato interessadas em ganhar o jogo, mesmo debaixo de um intenso calor. O time paulista, entretanto, aos 21 minutos, ficou sem a jogadora Mayara, expulsa depois de tentar dar um soco em uma adversária. Uma jogadora a menos pode significar uma grande desvantagem e foi o que aconteceu com o Corinthians que chegou a estar perdendo o jogo por 3 a 0 até os 37 minutos do 2o tempo. Foi então que o time de São Paulo fez dois gols em 4 minutos e quase conseguiu empatar. Mas não conseguiu.

Final de partida: Flamengo 3 x Corinthians 2. 

O Corinthians em parceria com o Grêmio Audax Osasco, voltou a disputar um torneio feminino após sete anos de ausência, tendo Aline Peregrino como supervisora técnica. Em 2008, o clube paulista chegou a contratar a jogadora Cristiane que havia sido destaque pela seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Seul. O clube quis montar um clube que fosse campeão do Paulista, o que não aconteceu. Em 2009, o time feminino, já sem Cristiane, chegou a disputar o campeonato Paulista, mas foi desfeito no mesmo ano.  Este ano, o Corinthians- Audax não conseguiu classificação para as semifinais. Espero que isso não sirva de motivo para que o clube desista de manter uma equipe feminina.

A instabilidade é um dos problemas do futebol feminino no Brasil, mas creio que há esperanças de melhoras futuras, sobretudo, se  clubes tradicionais não desistirem de projetos que envolvam o futebol feminino. Creio que essa modalidade não tem mais o que provar quanto a sua importância e a potencialidade de gerar recursos. Certamente que obstáculos existem, em se tratando de Brasil em que existe uma espécie de monocultura esportiva. Muitos obstáculos enfrentados pelas meninas do futebol são derivados do fato de que em nosso país as atenções se concentram no futebol masculino e um tipo específico de futebol: o espetacularizado, formado pelos clubes mais populares, ricos e masculinos.

Mas, ouvir o “vai Corintia!” e o “Vai pra cima deles mengo!” na direção das meninas, sobretudo em um estádio como o Bastos Padilha, é algo que alimenta a esperança de dias melhores para o futebol feminino. 

 

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

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Foto: Leda Costa.

Foto Leda Costa

Imagem de São Judas Tadeu padroeiro do Flamengo. Foto: Leda Costa.

Quase um mês depois desse jogo, o Flamengo se classificou para as semifinais do Campeonato Brasileiro Feminino e creio que o Bastos Padilha seria um estádio ótimo para receber as partidas decisivas do clube da Gávea.

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Espero voltar lá em breve.