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Estádio sem partido? A política da vida “neutra” nas arquibancadas

Marina de Mattos Dantas, Georgino Jorge de Souza Neto

Nesse texto retomamos (ou continuamos) um assunto já tratado em outras oportunidades aqui na sessão Arquibancada do Ludopédio: as relações entre futebol e política.

O tema, oportunamente escolhido para a ocasião, surgiu a partir dos últimos debates ouvidos pelas ruas, nos estádios e nas mídias sociais sobre os limites das manifestações políticas nos estádios, bem como da recente discussão sobre a neutralidade política nos currículos e programas escolares (a chamada “Escola sem Partido”), inspiração para o título do presente ensaio opinativo.

Se para muitos que não têm certa intimidade com o esporte e com o torcer, o futebol pode parecer um mero instrumento de manipulação e perpetuação da corrupção sistêmica e endógena das instituições – rendendo, muitas vezes, aos que gostam desse esporte, a alcunha de “alienado” –, dentre os amantes da bola, alguns parecem fazer questão de assim enxergar o estádio: como um espaço “apolítico”.

Nessa acepção o apolítico é, por vezes, anunciado como sinônimo de apartidário ou suprapartidário, outras vezes entendido estritamente como um contexto onde a política, em sentido mais amplo, não deve estar presente.

Este entendimento enviesado corrobora com a equivocada noção de que o futebol é o ópio do povo, como se o mesmo não fosse um espaço em íntima relação com as conjunturas políticas e econômicas que o circundam e transpassam.

Houve um período no qual (alguns) estádios suportavam a presença de 100 mil, 200 mil pessoas, e a principal fonte de renda dos clubes era a bilheteria. Estes espaços eram, sim, populosos, por conta do interesse em levar as pessoas para dentro deles. Podemos perceber esse movimento de “superpovoamento” dos estádios principalmente entre os anos 1940 e 1970[1]. Acreditava-se, que estando nesses espaços, torcendo para seu time ou seleção, as pessoas não teriam tempo e/ou disposição para revoltar-se ou contestar o que quer que fosse. Com o tempo, descobriu-se nisso um ledo engano.

Em algum momento nesse mesmo período, as torcidas organizadas se configuram, muitas delas estimuladas pela vontade de participação na vida dos clubes e também pela situação política do país – principalmente nos anos de 1964 e 1985, durante a ditadura civil-militar[2].

Longe de querer romantizar esses momentos anteriores, hoje vivemos uma época na qual, ao contrário, não se aposta muito na presença de pessoas nos estádios. Não é que estas sejam dispensáveis, mas atualmente as cotas televisivas importam mais que a bilheteria e é preciso uma audiência também do lado de fora. Quanto a essas pessoas – os torcedores – um torcer asséptico, ordeiro e consumidor do estádio e de seus produtos é a (não tão nova) tendência. Um requisito para um novo “modus operandi” de ser e estar nestes lugares[3].

Mas não estamos dizendo com isso que, de repente, um novo modo de torcer surgiu e se instalou como condição sine qua non de existência. Novos modos de torcer surgem também de transformações políticas, econômicas e sociais. Os torcedores continuam a existir em sua diversidade até mesmo dentre as torcidas organizadas.

Para ficarmos apenas no caso brasileiro – porque o Brasil já é muita coisa – a diversidade de modos de torcer é enorme nos clubes – as torcidas se organizam por motivos diversos além do time, algumas com mais e outras com menos “brigões”. Torcidas e torcedores divergem o tempo todo: sobre a escolha do técnico, dos jogadores, nas disputas de espaço dentro dos estádios, sobre o melhor lugar para assistir o jogo. Disputam poderes e negociam vantagens. As torcidas – organizadas ou não – estão longe de ser uma massa homogênea e compacta de pessoas que pensam todas do mesmo jeito e na mesma direção.

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Mais festa menos opressão no protesto da torcida santista. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

No caso das organizadas, conhecidas e reconhecidas por serem coladas a um tipo de violência que criminaliza a instituição e todos os seus integrantes (e para as quais várias outras violências sofridas e praticadas são aceitas e silenciadas), a “diversidade inclusiva” atual tende a abarcar nos estádios aqueles membros que tenham dinheiro para consumir, convertendo-os em sócios-torcedores individualizados. Estes, potenciais consumidores fidelizados, estão cada vez mais integrados como renda para os clubes e, consequentemente, para os estádios.

É o sócio-renda-fixa o novo público-alvo preferencial dos clubes. Nesse contexto, os torcedores organizados são indesejáveis para os padrões de certas forças econômicas e sociais, pois representam um velho e desqualificado jeito de torcer, trabalhoso e desinteressante para os negócios do futebol. São esses também os torcedores que, mobilizam, via de regra, os outros diversos torcedores no apoio ou na crítica aos clubes ou a quaisquer outras situações que queiram apoiar ou rechaçar nesse meio[4].

A substituição paulatina desses torcedores dos estádios por aqueles que se aproximem mais do torcedor-consumidor mencionado por Alvito em 2006 – pouco participativo e sedento por seus direitos (de consumidor) – é o imperativo atual e isso não é novidade. Torcedores que não necessariamente estão organizados, apesar de alguns deles também estarem nas organizadas, mas que sejam “neutros” em relação ao que os rodeia e permeia – alheias à organização do espetáculo –, apartidários e apolíticos que rezem a cartilha do novo torcedor público-alvo.

Retornemos então ao “apolítico”. Como é possível dizer, dentre todas essas relações que os permeiam, que o futebol e o torcer devem ser apolíticos? Não seriam essas mudanças efeitos de uma nova política de arquibancada?

Parece que há certo esquecimento – proposital ou não – sobre como produzimos as experiências culturais do cotidiano. Não há, e nem pode haver, neutralidade em quaisquer campos de atuação humana. Simplesmente porque não somos imunes àquilo que nos toca (e cada vez mais o que nos toca está exponencialmente ampliado, num mundo onde a ideia de aldeia global[5] faz sentido como nunca dantes).

É como se ao apoiar os nossos clubes não apoiássemos, por tabela, uma série de modos de se conduzir o espetáculo esportivo e a própria conduta dos torcedores. E é como se as transformações da política institucional não impactassem no cotidiano das pessoas que vivem e torcem.

Reações ocorridas depois que torcedores levantaram faixas de Fora Temer e Globo Golpista em alguns desses espaços expõem a ferida do problema (ou onde queremos pôr o dedo). Junto a elas, coexistiram reações de apoio e de não-aceitação, de organizadas e de não-organizadas, bradando que o país está dividido (como se um dia ele tivesse sido unificado) e que, portanto, tais manifestações não devem ocorrer nas arquibancadas.

Ora, a questão é perceber quem e como resiste e/ou adere à noção de estádio como espaço de contestação e publicização das fissuras sociais conforme a faixa levantada. Que papel ocupa o torcedor neste cenário? E os organizados, como se posicionam? Em que medida as mudanças provocadas pelas novas arenas alcançam também os comportamentos no interior destes espaços?

Vamos a um outro exemplo. Por ocasião do polêmico desfile do uniforme do Atlético-MG para a temporada 2016[6] na qual torcedoras do clube lançaram uma nota de repúdio[7] que, concordando com Leda Costa, entendemos que “não se restringe ao evento em si, mas faz dele uma oportunidade para mostrar os diversos modos de exclusão e preconceito que afetam a muitas mulheres no ambiente futebolístico”[8].

Rapidamente, interpretações que julgavam a nota como moralista, alegando que o incomodo das mulheres era meramente a exposição do corpo feminino, se alastravam pela opinião pública.

Diante desse acontecimento, podemos pensar, por exemplo, em que mensagem passam algumas torcidas do Galo ao posicionarem-se, espontaneamente, como grupo, em apoio a um fornecedor de materiais desportivos (e, de certa forma, contra as torcedoras que reivindicam para si, estereótipos menos clichês)[9], não seria esse um posicionamento politico contra a fala daquelas mulheres?

Já ao negar a autoria das faixas “Globo golpista” e “Fora Temer” o mesmo grupo de torcidas afirma que “nas torcidas organizadas existem pessoas de todos os grupos políticos e por isso respeitamos as opiniões de todos. Porém, dentro dos estádios, entendemos que nosso papel é exclusivamente de apoiar o Galo!”[10]

Não estariam essas torcidas, em ambos os casos, desempenhando um papel político?

Esses dois exemplos, longe de serem únicos no universo do futebol, nos fazem pensar que, junto ao apolítico acopla-se uma concepção de um lugar neutro, de uma verdade que não deve ser tocada por outras verdades que são eleitas como “ideologias”.

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Torcida do Corinthians protesta contra a Globo, CBF e FPF. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

Não é de hoje que essa temática invade as arquibancadas, mas vemos essa discussão ganhar força, principalmente quando fatos de potente impacto social extravasam os interstícios de nichos pontuais e alcançam o ambiente aparentemente apolíticos do futebol.

Em que medida um “estádio sem partido” não aponta para uma ordem de “deixemo-nos conduzir”, regido por um novo investimento no futebol como ópio do povo? Uma espécie de “condução coercitiva subliminar”, onde determinados valores são construídos no embate das relações de poder e, notadamente, pelos fluxos de mercado que regem o espetáculo atual.

Não temos respostas para essas questões, mas sim certas desconfianças…

Um imperativo de despolitização que antes vinha somente de fora, de uma “censura por parte dos poderes políticos e econômicos estabelecidos”[11] ainda se faz presente, cada vez mais presente, em uma ordem vinda de torcedores sobre os próprios torcedores. Praticamente um simulacro da passagem do poder disciplinar de Foucault à sociedade do controle de Deleuze.[12]

É preciso tomar cuidado quando todos juntos deixa de ser consequência e passa a ser imperativo. Que possamos ser capazes de enxergar nos estádios a vida que existe fora dele. Que a beleza das diferenças sejam respeitadas, sem temer jamais (e sem o perdão do trocadilho)!

Diante disso, como reinventar liberdades (para além das de mercado) nas arquibancadas?

As lutas continuam porque na vida não há espaço para sínteses. E devemos estar atento a quais vozes que acabam sendo silenciadas. Se podemos gritar GOLLLLL, que inventemos outros gritos.

Voltando às faixas… bem, se alguns grupos fazem questão deixar claro que nada tinham a ver com elas, vamos observar se estas continuarão ou não aparecendo. As torcidas podem ser apartidárias, mas mesmo que queiram, nunca serão apolíticas. Contra, a favor do Temer ou de lado algum, as torcidas e os torcedores continuam sendo criminalizados por suas paixões, pagando ingressos caros, seguindo horários escolhidos à revelia de seus interesses, uma ordem e o progresso que é também de outra bandeira que não a dos seus times.

Todos nós, mesmo sem partido, falamos de algum lugar. E escolher quando falar e quando se calar é também, e sempre, um ato político.

[1] Para saber mais sobre o futebol e os estádios nesse período, recomendamos a leitura de MASCARENHAS, Gilmar. Entradas e Bandeiras: a conquistado do Brasil pelo futebol. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2014.

[2] Sobre o futebol e as torcidas organizadas ver: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Torcidas organizadas de futebol: entre memória e história. In: Testemunhos: história e política, , 2011, Recife. X Encontro Nacional de História Oral, Testemunhos: história e política. Congresso, Testemunhos: história e política, 2011.

[3] Sobre essa questão, não nos prolongaremos muito. Marcos Alvito já problematizava essas transformações no futebol em 2006. E esse texto de Tiago Rosa Machado, de 2012, também aborda a temática melhor do que daríamos conta nesse espaço.

[4] Ver também: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-estado-democratico-e-o-direito-associativo-das-torcidas-de-futebol/

[5] O conceito de aldeia global foi desenvolvido por Marshall McLuhan na década de 60, como forma de explicar os efeitos da comunicação de massa sobre a sociedade contemporânea, no mundo todo. De acordo com sua teoria a abolição das distâncias e do tempo, bem como a velocidade cada vez maior que ocorreria no processo de comunicação em escala global, nos levaria a um processo de retribalização, onde barreiras culturais, étnicas, geográficas, entre outras, seriam relativizadas, nos levando a uma homogeneização sócio-cultural. Neste caso, imaginava ele, ações sociais e políticas, por exemplo, poderiam ter início simultaneamente e em escala global e as pessoas seriam guiadas por ideais comuns de uma “sociedade mundial”.

[6] Para saber mais detalhes a respeito desse episódio: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2016/02/16/polemica-em-redes-sociais-marca-lancamento-da-nova-camisa-do-atletico-mg.htm

[7] Confira a nota na íntegra: http://espnfc.espn.uol.com.br/atletico-mineiro/camikaze/7843-nota-de-repudio-machismo-em-evento-do-galo

[8] COSTA, Leda. O preconceito está nos olhos de quem vê? O empoderamento das torcedoras e o machismo no futebol. Disponível em: https://comunicacaoeesporte.com/2016/02/24/o-preconceito-esta-nos-olhos-de-quem-ve-o-empoderamento-das-torcedoras-e-o-machismo-no-futebol/

[9] Declarações das torcidas do movimento Unidos pelo Galo: https://www.instagram.com/p/BB2cK9aylDx/?taken-by=galometaloficial

[10] https://www.instagram.com/p/BHcokeMjbDZ/

[11] GIGLIO, Sérgio; FIGOLS, Victor de Leonardo; LIMA, Marco Antunes de. A despolitização do futebol.

[12] Para mais informações consultar: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Entre a serpente e a toupeira: transitando pelas iséias de foucault e deleuze.. In: BRUHNS, Heloisa Turini (Org.). Lazer E Ciências Sociais: Diálogos Pertinentes. São Paulo: Chronos, 2002. Coleção Lazer, Esportos & Sociedade. (p. 43-56).