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Estádios de vida, estados de morte

Alexandre Fernandez Vaz

Sempre tive simpatia pelo Estádio do Pacaembu, no bairro de mesmo nome na capital paulista. Não tenho certeza, mas pode ter sido lá minha primeira visita a um campo de futebol profissional, em 1974, quando assistimos, pai e primos dele, mais meu irmão e eu, a uma partida entre Santos e Juventus, pouco antes de Pelé despedir-se, por primeira vez, do futebol. São dos jogos do Corinthians, no entanto, que me lembro melhor. O Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, como se chama oficialmente o imponente complexo esportivo, foi a casa do Timão durante muitos anos. Sempre me chamou a atenção os diferentes portões por onde entravam cada uma das principais torcidas organizadas do time: Gaviões da Fiel, Camisa 12, Estopim da Fiel, Pavilhão Nove, Fiel Macabra, Coringão Chopp.

No Pacaembu, do qual ao não morar em São Paulo fui frequentador bissexto, vi Emerson Sheik marcar contra o Comercial de Ribeirão Preto, em partida em que se anulou gol legítimo do zagueiro Fabão, anos antes campeão brasileiro, da Libertadores e do Mundial de Clubes, pelo São Paulo; assisti a uma derrota frente ao Cruzeiro, fruto de um raro lance de desatenção de Ralf, que foi desarmado na intermediária defensiva por Wallyson, cujo chute por cobertura venceu o jovem goleiro Renan, recém-contratado ao Avaí, atuando como titular na ausência do lesionado Júlio César; emocionei-me com a despedida de Mano Meneses, prestes a assumir o cargo de treinador da seleção nacional, ovacionado pela torcida, em tarde-noite de lançamento milimétrico do lateral-esquerdo Roberto Carlos para gol de cabeça de Bruno César.

Obras de instalação do Hospital de Campanha de combate ao coronavírus no estádio do Pacaembu. Foto: Governo do Estado de São Paulo.

Tempos depois, Emerson foi o grande nome da conquista da Copa Libertadores, em 2012, Ralf está sem clube, Wallyson atua na Série B pelo Vila Nova, Renan nunca mais repetiu o êxito do início da carreira que, aliás, teve seu último jogo quando o goleiro não tinha mais do que vinte e cinco anos. Mano foi demitido da seleção no momento em que encontrava um time e um esquema, fez bons trabalhos por aí, inclusive novamente no Corinthians, acumulou fracassos difíceis de tragar, quando abandonou o Flamengo em 2013, e segue sendo o mesmo treinador competente em seu jeito pouco ambicioso de jogar.

E o Pacaembu? Antes estádio secundário do Palmeiras, que lá jogava quando sua arena estava ocupada por espetáculos musicais, e objeto de desejo do presidente do Santos, que quer porque quer que seu time nele atue, agora é hospital de campanha para abrigar casos graves, mas não tão agudos, de infectados pelo novo coronavírus. Bravo Pacaembu!

Outros espaços esportivos não tiveram a mesma sorte, a de tentar manter pessoas vivas, e foram lugar de morticínio ou até mesmo viraram cemitérios, como na Conflagração de Ruanda, na última década do século passado. Aconteceu em um estádio de futebol, ademais, um primeiro conflito do processo que desembocaria na Guerra dos Balcãs, há quase trinta anos. Foi em Zagreb, no Estádio Maksimir, em partida entre Dínamo e Estrela Vermelha, de Belgrado, em 13 de maio de 1990, duas semanas antes da deflagração do conflito que desmoronou um país, matou milhares e envergonhou a Europa. Torcedores sérvios entoavam cânticos nacionalistas que eram respondidos pelos croatas que desejavam se separar do domínio da província vizinha, líder da então Iugoslávia. A batalha na arquibancada tomou também o campo, gerando dezenas de feridos.

Grandes espaços que podem ser facilmente lacrados, estádios de futebol se transformaram também poderosos cárceres, para onde foram encaminhados anônimos e famosos. Quando a França, que depois capitularia até com certa facilidade, declarou guerra à Alemanha, em setembro de 1939, cidadãos alemães e austríacos, mesmo que expatriados, foram confinados em praças esportivas. Walter Benjamin, filósofo e crítico literário berlinense, vivia exilado em Paris na antessala da Segunda Guerra e, como seus compatriotas, foi internado em um campo de futebol no Norte da cidade. Dali foi para uma estação de prisioneiros perto de Nevers, onde ficou por três meses. Ele logo se viria impelido ao suicídio ao ter sua saída da França barrada pela polícia de fronteira espanhola, quando tentava seguir caminho para Lisboa e, de lá, para Nova York. Judeu e de posição política à esquerda, apátrida, perseguido, o destino que se deixava ver era o campo de concentração e extermínio. Não sei se em alguma outra ocasião Benjamin esteve em um estádio de futebol.

O caso mais emblemático é, no entanto, o do Estádio Nacional, em Santiago, Chile. Foi para lá que um sem-número de presos políticos foi conduzido logo depois do golpe militar de Augusto Pinochet e seus comparsas. Não fui ao principal palco do futebol chileno em minhas visitas à capital do país, não sei como me sentiria ao tentar assistir a uma partida de futebol, sabendo que ali morreram tantos, o cantor Victor Jara entre eles. Eram muitos os brasileiros que em 1973 estavam no Chile, exilados de outro país onde também houvera golpe. Alguns deles também foram levados ao estádio em que a seleção vencera a Copa de 1962, e de lá não saíram com vida.

Os estádios também são, é claro, lugar de alegria e de se expressar pela democracia. Que se lembre do coro da torcida uruguaia no mítico Centenário, ao final do Mundialito de 1980, vencido pela seleção local contra a brasileira. “Se va acabar, se va acabar, la dictadura militar”, cantavam, celebrando o título e o resultado do plebiscito recém-realizado, que colocaria um ponto final no regime de exceção vivido desde 1973. Os vizinhos do Sul esperaram mais cinco anos pelas eleições diretas, tempo suficiente, no entanto, para os ditadores e seus prepostos amargarem a lembrança do grito de liberdade no Estádio Centenário.

Não vivemos sob ditadura, ainda que vejamos a democracia ser diariamente ameaçada. É terrível, mas os valores democráticos não estão consolidados entre nós. Só em um país profundamente autoritário é possível eleger um presidente fã de Pinochet, que passa o dia afirmando o inverossímil e agindo como se o mundo fosse expressão de seu próprio delírio. Resistir ao novo coronavírus, no Brasil, é lutar pela democracia. Que o Pacaembu não repita o Estádio Nacional, mas acolha cada um, e que dele saiam todos vivos.

Sul da Ilha de Santa Catarina, abril de 2020.