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Estádios que eu conheci – Heysel, em Bruxelas

Frederico Jota

O futebol como a gente conhece hoje, sua relação com torcedores e a forma como eles agem nos estádios tem suas sementes plantadas em 29 de maio de 1985, na Bélgica. Há 33 anos, uma tragédia sem precedentes na Europa mudaria muita coisa do mundo do futebol. Naquele dia, 39 torcedores morreram no estádio de Heysel, em Bruxelas, pouco antes da decisão da então Copa dos Campeões (hoje Champions League) entre Juventus e Liverpool. Visitei o estádio, um dos mais emblemáticos do Velho Continente. E neste texto falo não só sobre o trágico maio de 1985 como da história de Heysel, hoje chamado oficialmente Estádio Rei Baudouin.

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A imponente fachada do estádio de Heysel, um dos mais emblemáticos da Europa. Fotos: Frederico Jota.

Atração de feira internacional
Vamos começar pela parte boa, a da história de um dos mais importantes estádios europeus. Inaugurado em agosto de 1930 e construído na planície de Heysel, foi um dos atrativos da Feira Internacional realizada na capital belga em 1935. Fica muito perto de um dos símbolos de Bruxelas, o Atomium, a enorme estrutura de 103 metros, que reproduz o formato de um átomo, construído no final da década de 1950 para outra feira realizada na cidade.

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O estádio hoje: pista de atletismo, cobertura e cadeiras. Uma realidade bem diferente de 1985. Foto: Frederico Jota.

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Foto: Frederico Jota.

Palco de decisões importantes
Originalmente chamado de Estádio Jubileu, passou a ser chamado oficialmente de Estádio de Heysel em 1946 e, com capacidade original para 70 mil pessoas, hospedou decisões históricas das competições europeias. O Real Madrid ganhou duas Copas dos Campeões lá (1958 e 1966), enquanto o grande Bayern de Beckenbauer conquistou naquele estádio o primeiro título do tri da mesma competição, em 1974. Onze anos depois, a Juventus venceria o Liverpool em dia de péssimas lembranças.

A então segunda maior competição continental, a Recopa, que reunia os campeões de copas nacionais, foi decidida três vezes em Heysel. Em 1976, uma histórica conquista do Anderlecht, de Bruxelas, contra o West Ham. Em 1980, o Valencia de Mario Kempes derrotou o Arsenal. Já como Rei Baudoin, em 1996, o estádio viu a conquista do PSG contra o Rapid Wien. Foi a única vez que o espaço, reformado após o desastre de 1985, recebeu um jogo deste porte entre clubes.

Reformulação e renovação
Em 1995, dez anos após a fatídica decisão da Copa dos Campeões, o estádio foi novamente renomeado e totalmente reformulado, incluindo uma fachada renovada, a parte que mais lembra a antiga estrutura. Além disso, recebeu uma cobertura, pista de atletismo moderna e cadeiras para todos os espectadores. Com uma nova cara, sediou a abertura da Eurocopa de 2000, entre Bélgica e Suécia, além de outros quatro jogos daquele torneio, incluindo a semifinal entre França e Portugal. Com capacidade hoje para 50 mil pessoas, chegou a receber 64 mil torcedores em um jogo entre Anderlecht e Dundee United, em 1963.

Casa da seleção belga, o estádio, modernizado, também se habituou a receber outros grandes eventos, como shows de estrelas do porte dos Rolling Stones, U2, Coldplay e Madonna, entre outros, além de jogos de rugby e uma partida histórica de tênis entre Kim Clijsters e Serena Williams.

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Estádio fica dentro de um parque, é fácil de ser acessado e se destaca mesmo quando é visto de longe. Foto: Frederico Jota.

O estádio é bonito, inegavelmente, e fica dentro de um parque gigantesco, o que confere um certo ar bucólico. A fachada, imponente, é clássica e se destaca para quem vê de qualquer ponto. Por dentro, limpo, organizado e com um gramado impecável, pode ser colocado em igualdade de condições com diversos outros templos europeus. Mas não era assim em 1985.

Um dia para não ser esquecido – A Tragédia de Heysel
Mesmo sendo um dos mais importantes palcos do futebol europeu, Heysel não tinha boas condições e não era um local apropriado para receber uma decisão daquele porte – aliás, como vários outros estádios naquela época. E, em um momento em que a televisão alcançava cada vez mais gente, a tragédia assustou o resto do mundo e enterrou uma época até certo ponto romântica do esporte – que já sofria com o hooliganismo e outros problemas. Heysel escancarou tudo de uma só vez.

Resumidamente, uma confusão iniciada em um dos setores neutros do estádio, a famigerada zona Z, causou a morte de 39 torcedores da Juventus, além de vários feridos. Parte dos fãs do Liverpool, ao que tudo indica, embriagados, passaram das frágeis barreiras de segurança e encurralaram os italianos, que não tiveram para onde correr. Prensados, esmagados, mortos por asfixia. Uma tragédia também causada pelas condições precárias de conservação do estádio e pela falta de preparação policial. Sem falar da lentidão para socorrer as vítimas. Tudo isso antes do jogo mais importante do continente. Um desastre.

Abaixo, um documentário de 90 minutos para entender melhor a tragédia

O mais inacreditável é que, temendo novos confrontos, a UEFA exigiu a realização do jogo, apesar da negativa do Liverpool. O jogo, fraco tecnicamente muito em função do abalo causado pelas mortes, foi “coroado” por uma falta sofrida pelo polonês Boniek fora da área que o juiz suíço André Daina enxergou um pênalti. Platini fez o gol da vitória. Pateticamente, comemorou, como se estivesse em um outro planeta. Outra cena grotesca: mesmo com a sugestão de receber a taça nos vestiários, a Juventus fez questão de dar uma volta olímpica. Uma frieza que, revendo as imagens anos depois, me causou uma certa repulsa.

Acreditem, teve jogo depois das 39 mortes. E comemoração. Uma lástima.

O culpado maior foi eleito: o hooliganismo das torcidas inglesas. Os clubes da Inglaterra imediatamente ficaram proibidos de participar de todas as competições continentais por cinco anos – o Liverpool, a princípio, sem um prazo definido, ficaria seis. O prejuízo foi incalculável – lembrando que, entre 1977 e 1985, apenas duas vezes um inglês não levantou a principal taça continental. Demorou muito para recuperar, inclusive. Apenas em 1999 o Manchester United voltaria a levar a taça para o Reino Unido. Entre Heysel e a conquista dos Red Devils, outra mancha na história do futebol inglês aconteceu em 1989, em Hillsborough, quando 96 torcedores foram mortos em um dia de superlotação do estádio do Sheffield Wednesday e de ação grotesca da polícia.

A tragédia na Bélgica acabou com a época romântica do futebol, expôs ao mundo a precariedade das estruturas de estádios velhos, a incompetência da polícia em lidar com torcedores violentos, reforçando a necessidade de uma profissionalização em todos os aspectos. Nascia ali a base para o que um dia viria a se transformar na milionária Champions League, com estádios adequados, regulamento que privilegia a participação das maiores marcas do continente e punições rigorosas para clubes e torcedores que burlarem as leis. Não precisaram esperar nem dez anos para tal. Por tudo isso, Heysel é emblemático. Por isso mesmo, merece uma visita de qualquer fã de futebol.

Como chegar
O Estádio Rei Baudouin, o maior da Bélgica, ganhou quatro estrelas na rígida classificação da UEFA. E pode ser visitado. Confira os detalhes:

  • Endereço: Marathonlann, 135/2, Bruxelas
  • Visitas: Entre segunda e quinta, das 10h às 17h, e as sextas, das 10h às 16h, exceto quando o estádio recebe grandes eventos. As vistas custam 6 euros e podem ser guiadas (com pedidos por antecedência) ou não.
  • Como chegar: três estações de metrô deixam bem próximo do estádio – Heysel, Roi Baudouin, e Houba-Brugmann (as duas primeiras, preferencialmente).
  • Curiosidade: estádio faz parte do complexo que tem o Atomium, a sede da Federação Belga de Futebol e a Mini-Europa, além do Planetário
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O estádio de Heysel visto de um dos principais pontos turísticos de Bruxelas, o Atomium. Foto: Frederico Jota.