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Estará um dia o futebol livre da homofobia?

William Gomes

Em 4 de julho de 2012, o atacante Emerson Sheik marcou os dois do Corinthians sobre o Boca Juniors na final da Copa Libertadores da América daquele ano, sendo este o primeiro e único título corinthiano desta que é a maior competição de clubes de futebol do continente americano. Ainda podemos adicionar que foi de Emerson o gol da vitória no jogo de ida, na Vila Belmiro, nas semifinais da mesma competição. No jogo seguinte, um empate no Pacaembu e o Corinthians eliminava o Santos de Neymar, Ganso e Muricy Ramalho, até então atuais campeões da América. Estes dois gols gravaram o nome de Sheik para sempre na história do Corinthians, gols tão – ou mais – importantes quanto o de Basílio na final do Campeonato Paulista de 1977, por exemplo.

Apesar de ter sido o grande o herói da conquista inédita do Corinthians e ter caído nas graças da torcida, Emerson foi duramente criticado pouco mais de um ano depois, por uma foto postada em sua conta numa rede social. Em agosto de 2013, após vitória sobre o Coritiba em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, Sheik postou em uma rede social uma foto dando um selinho em um amigo. A repercussão da imagem foi extremamente negativa por parte da torcida corinthiana. Torcedores chegaram a ir ao CT do time protestar contra o jogador portando uma faixa na qual estava escrito “vai beijar a p.q.p. Aqui é lugar de homem”, além de gritarem “viado não aceitamos” e “viado é lá no Morumbi”[1]. Emerson, antes herói, agora passava por maus bocados junto à torcida que não admitia em hipótese alguma que um jogador manchasse a honra do clube com fotos como esta. Apesar de não estar fardado com o uniforme do clube e estando fora do seu ambiente de trabalho, o jogador é entendido como um representante do clube pelo qual está cumprindo contrato.  No caso de Sheik, o Corinthians. A torcida que compareceu ao CT demonstrou que entende que fotos como está não representam o clube, não demonstram bravura, força e virilidade. Não reforçam a heteronormatividade esperada para o ambiente do futebol.

Após o caso do selinho, Emerson foi emprestado ao Botafogo e dispensado pelo Corinthians ao final de 2014. Este é um dos casos de homofobia que mais repercutiu na imprensa brasileira nos ultimo anos. O jogador, ídolo, herói de um título inédito para o clube, sendo repreendido por seus torcedores por acontecimento extra campo, por um acontecimento que em nada, teoricamente, afetaria o seu desempenho dentro de campo. Por que os torcedores não aceitariam este jogador, que se mostrava competente no ataque corinthiano, pelo simples fato dele poder ser gay? E, cabe lembrar, que mesmo com a intenção de levantar a questão do preconceito dentro do futebol e se posicionar contra a homofobia, Sheik em seu post fez questão de pedir que seus seguidores vasculhassem as suas redes sociais antes de fazerem qualquer julgamento sobre a sua orientação sexual. Em sua conta nesta rede social Emerson Sheik, volta e meia, aparece acompanhado de alguma beldade.

durante o treino esta manha no CT Joaquim Grava, zona leste da cidade. O proximo jogo do time será dia 06/05, contra o Guarani, do Paraguai, no Estadio Defensores del Chaco, jogo de ida das oitavas de final da Copa Libertadores da America 2015. Juiz: - Sao Paulo / SP - Brasil - 27/04/2015. Foto: © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Emerson Sheik no CT Joaquim Grava. Foto: © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians.

Agora podemos imaginar o que aconteceria se um jogador brasileiro assumisse publicamente ser homossexual? Quais as proporções disto para a carreira deste jogador, qual a repercussão de seus companheiros de equipe, ou de seu técnico em saber que há um jogador homossexual em sua equipe? No inicio dos anos 90, Justin Fashanu, primeiro jogador negro da Inglaterra a ser negociado por um valor superior a um milhão de libras, foi também o primeiro jogador da Premier League a assumir publicamente ser homossexual. Após a declaração, Fashanu rodou por várias equipes de menor expressão da Escócia, Suécia, Inglaterra e Estados Unidos, numa trajetória pouco expressiva considerando o potencial que o jogador apresentava até então.

Em março de 1998, ele foi acusado, nos Estados Unidos, de abusar sexualmente de um adolescente de 17 anos. Com medo de ser preso, fugiu para a Inglaterra, onde em maio do mesmo ano foi encontrado morto em uma garagem, onde se suicidou. Em sua carta de despedida, Justin admitia que se relacionou com o jovem, mas de forma consensual e disse que fugiu dos Estados Unidos por considerar que não receberia um julgamento justo por ser homossexual. Mais tarde a acusação foi arquivada por faltas de provas.

Esses dois eventos, de Sheik e Fashanu, são suficientes para percebermos que a homofobia e o preconceito são de fato constatados dentro do futebol. Ao compararmos as manifestações homofóbicas sofridas por Emerson e Justin é possível imaginar que pouco tenha se evoluído com relação a essa forma de preconceito no futebol. Contudo, também é possível identificar episódios nos quais a reação à homossexualidade de futebolistas foi aparentemente de maior apoio, respeito e tolerância – por parte da família, colegas jogadores e torcedores – do que o preconceito. Cito o exemplo do ex-volante alemão Thomas Hitzlsperger, já aposentado. O jogador assumiu ser homossexual em uma entrevista para a revista alemã Die Zeit: “declaro minha homossexualidade porque quero ver progressos neste tema no mundo do esporte profissional”[2]. Em reportagens veiculadas em seguida, o jogador disse que o apoio da família foi fundamental para debater a causa e que após a revelação a repercussão foi muito positiva, principalmente nas redes sociais. Até mesmo o governo alemão, por meio de seu porta-voz, Steffen Seibert, aprovou a atitude do jogador afirmando que “vivemos em um país onde ninguém deve ter medo de reconhecer a sua sexualidade por causa da intolerância”. Também o atacante alemão Lukas Podolski se manifestou em sua conta numa rede social: “brava e correta decisão. Respeito Thomas Hitzlsperger. Sua atitude é um importante sinal em nossos tempos”. Contudo, apesar da repercussão positiva, Thomas comentou que apenas dois jogadores fizeram contato com ele desde a revelação.

Outro exemplo no mundo do esporte profissional, é do jogador norte americano Robbie Rogers. O atleta assumiu sua homossexualidade no início de 2013, quando decidiu aposentar-se de forma precoce. Contudo, após três meses afastado dos gramados, o atleta foi contratado pelo Los Angeles Galaxy, onde joga até hoje. Em sua estreia pelo time californiano, entrando aos 32 minutos do segundo tempo em um jogo contra o Seattle Soundres, Robbie foi aplaudido de pé por cerda de 25 mil torcedores que acompanhavam a partida (ver vídeo abaixo). Em 2015, a camiseta de Rogers foi umas das mais vendidas da Liga, a frente das de Giovinco, Drogba e Giovani dos Santos, craques de renome mundial.

Em outras modalidades esportivas também encontramos episódios de aceitação de jogadores homossexuais. No basquete, Jason Collins foi o primeiro jogador da NBA (National Basketball Association) a se assumir homossexual, no final da temporada 2012/2013. O atleta ganhou apoio da torcida e até mesmo do presidente Barack Obama, além de ver a sua camiseta sendo a mais vendida da liga no mesmo ano. Ainda nos Estados Unidos, temos dois exemplos na NFL (National Football League). O primeiro, Michael Sam, assumiu ser homossexual pouco antes de ser draftado, em 2014. Inspirado por Michael Sam, Edward Sarafin assumiu ser homossexual na sua transição de jogador universitário para profissional quando assinou contrato com o St. Louis Rams. Os exemplos ainda são poucos, mas possibilitam certo otimismo.

O futebol vai além do seu valor esportivo, de ser um jogo, de ser uma atividade física. O futebol tem um papel muito amplo no contexto social e cultural de uma sociedade, na qual é difundido. No Brasil, o futebol é inclusive um sonho de inúmeras crianças, sobretudo para jovens de classes baixas que pretendem por meio deste esporte garantir uma vida confortável no futuro para suas famílias, representando uma chance de ascensão social. Também é o futebol a principal forma de lazer de boa parte da população, seja jogando, seja torcendo.

Na cultura do futebol é visto com muito bons olhos a força, a velocidade, o poder de liderança, de se mostrar forte, a afirmação da masculinidade; são características entendidas como fundamentais para um jogador de futebol. Características estas que, no senso comum, pouco são relacionadas aos indivíduos homossexuais. Atribui-se a figura do homossexual uma fragilidade e uma passividade. Um homossexual, por acaso, não pode ser forte, veloz, ser um líder, demonstrar masculinidade? Para muitos, essa orientação desabilita um indivíduo a jogar futebol, excluindo estes da prática do futebol. Devido a essa discriminação, mesmo que o individuo tenha habilidade necessária para chegar ao futebol de alto rendimento, ele é excluído da prática ou se vê obrigado a esconder sua orientação sexual. Imaginando que vários jogadores foram excluídos pela falta destas características “viris”, ou então que deixaram de praticar futebol por conta de preconceito sofrido, poderíamos esperar que se jogadores homossexuais tivessem a chance de se desenvolver em um grande clube sem sofrer preconceito, algum deles poderia atingir níveis técnicos alcançados por grandes jogadores da atualidade, como por exemplo, Messi ou Cristiano Ronaldo. Poderíamos ter um jogador homossexual idolatrado por milhões. Porém, como pode um homossexual almejar ser um jogador profissional, se um dos principais xingamentos ouvidos em estádios de futebol é o menosprezo em relação à sua orientação sexual?

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Bandeira LGBT. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil.

A FIFA (Federation Internationale de Football Association) deu um pequeno passo a fim de coibir atos homofóbicos oriundos das torcidas. A entidade anunciou sansões contra federações de futebol de países da América por conta de cânticos homofóbicos oriundos das torcidas. Argentina, Chile, Honduras, México, Peru e Uruguai foram punidos com multas que variaram entre 20 e 70 mil francos suíços em março deste ano[3]. A Federação Mexicana de Futebol saiu na frente no combate a tais manifestações e fez uma campanha com suas principais estrelas pedindo que as diferenças sejam respeitadas e que ninguém seja descriminado[4]. No Brasil, seria interessante que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) propusesse uma ação semelhante a esta da FIFA para combater este tipo de preconceito dentro dos estádios de futebol, uma vez que a Confederação já tomou medidas cabíveis para coibir outro tipo de preconceito dentro dos estádios, as de cunho racial.

O exemplo de represália mais recente foi a exclusão do Grêmio das oitavas de final da Copa do Brasil de 2014, por xingamentos de cunho racista vindos da torcida gremista tendo como alvo o goleiro Aranha. Talvez uma punição mimética à sofrida pelo Grêmio ou então multas como as aplicadas pela FIFA possam intimidar os torcedores e ainda levar o clube a tomar medidas contra a homofobia. Claro que medidas punitivas são apenas um caminho agudo contra este tipo discriminação, algo que em curto prazo pode diminuir a frequência com que escutamos xingamentos entoados pelas torcidas durante os jogos, mas que não necessariamente modifica o fenômeno da homofobia propriamente dito. De todo modo, não punir atos homofóbicos e punir atos racistas, me parece também uma conivência com este hábito preconceituoso. A aceitação da homofobia e a contrariedade ao racismo, parece assim, que levamos a homofobia como uma atitude jocosa ou de desestabilização o adversário, enquanto o racismo é de fato combatido e tratado como crime. Enquanto houver xingamentos homofóbicos nos estádios e estes forem presenciados e incentivados, isto vai ecoar futuramente nos torcedores mais jovens, que vão ao estádio desde criança, fazendo com que o preconceito tenda a perdurar.

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Jogadores do Grêmio carregam faixa com a mensagem: “Somos azuis, pretos e brancos. Chega de racismo”. Foto: Edison Vara/ Grêmio FBPA.

Não apenas os jogadores são vítimas de atos homofóbicos, mas os árbitros também sofrem com estes tipos de xingamentos vindos das arquibancadas. O caso do árbitro espanhol Jesus Tomillero é o mais recente. Após assumir ser homossexual e ver a torcida focar os xingamentos em sua orientação sexual, o juiz preferiu “pendurar o apito” por não ter o apoio do comitê de árbitros da sua região e da Federação Espanhola de Futebol.

Dentro das torcidas o preconceito também acontece. A mesma Gaviões da Fiel que incentivou, através de uma nota oficial, seus integrantes a substituírem o gripo “oooh, bicha”, por “vaaai Corinthians”[5], na hora em que o goleiro adversário bate o tiro de meta, com o intuito de diminuir este tipo preconceito e ainda incentivar o time, expulsou um de seus diretores após mensagens eróticas entre ele e outro homem tornarem-se públicas. Este foi o gatilho para uma enxurrada de mensagens preconceituosas, muitas provindas dos próprios integrantes da torcida, entre as quais houve inclusive a defesa de que o suposto integrante homossexual deveria levar uma surra.

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Em 2014, o Ludens/USP (Núcleo de Pesquisa sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) realizou uma campanha de combate à homofobia nos estádios – Vista sua camisa com orgulho – com o apoio da própria USP e da Prefeitura de São Paulo.

No Brasil, infelizmente, a resistência à participação de homossexuais no âmbito do futebol ainda parece ser bastante grande. A condição de homossexual parece ser vista pela torcida, ou até mesmo por dirigentes, como um limitador para o atleta, como um aspecto que o torna um mau representante do clube, independentemente de suas qualidades técnicas. Nem mesmo os interesses mercadológicos de incluir novos consumidores – possibilitando arrecadações com ingressos, camisetas, planos de sócios, entre outros – motivou dirigentes a se posicionarem contra a homofobia. Não temos ainda uma data defina para que todos possam entrar no estádio e torcer juntos, para entoar apenas cânticos em apoio para o seu time do coração, sem menosprezar ninguém por sua orientação sexual, crenças religiosas, posição política, ou seja qual for sua individualidade. Que o futebol seja, um dia, uma área de livre-comércio de amor e paixão pelo seu clube.

[1] http://www.foxsports.com.br/news/115997-torcedores-vao-ao-ct-do-timao-exigir-pedido-de-desculpa-de-sheik

[2] https://exame.com/mundo/ex-jogador-alemao-assume-homossexualidade/

[3] https://trivela.com.br/america-do-sul/fifa-pune-paises-por-cantos-homofobicos-podemos-ficar-esperancosos/

[4] http://sportv.globo.com/site/programas/planeta-sportv/noticia/2016/04/federacao-mexicana-lanca-campanha-contra-homofobia-apos-punicao-da-fifa.html

[5] http://torcedores.com/noticias/2016/05/em-nota-gavioes-pede-para-corintianos-pararem-de-gritar-bicha-nas-arquibancadas

Como citar

GOMES, William. Estará um dia o futebol livre da homofobia?. Ludopédio, São Paulo, v. 84, n. 6, 2016.