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Estocolmo 1912 – Os Jogos Olímpicos chegam à Escandinávia

Paulinho Oliveira
Pôster Jogos Olímpicos 1912

Cartaz promocional de Estocolmo 1912, em sueco.

Encerrados os Jogos de Londres 1908, o quadro de medalhas mostrava uma surpresa na terceira colocação: a Suécia. Tendo participado de outras duas edições (Atenas 1896 e Paris 1900), o país não havia conseguido maior destaque, com apenas um bronze conquistado na capital francesa. Em Londres, entretanto, conquistou 25 medalhas no total, sendo 8 de ouro, só sendo superado pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos. Foi a melhor participação sueca até então em Jogos Olímpicos. Este foi um dos motivos pelos quais a Suécia viu aberta a possibilidade de sediar sua própria Olimpíada em 1912.

Contribuiu decisivamente para a realização do sonho a presença de dois suecos entre os dirigentes do Comitê Olímpico Internacional: Viktor Balck (um dos membros fundadores do COI, desde 1894) e Clarence von Rosen (membro desde 1900). Além disso, o próprio rei Gustavo V era um entusiasta dos esportes, praticante de tênis, tendo presidido, de 1897 a 1907 (enquanto ainda era príncipe-herdeiro de seu pai, Óscar II), a Associação Sueca de Esportes. O monarca sueco garantiu ao parlamento apoio financeiro à candidatura de Estocolmo para sediar os Jogos de 1912. Segundo o rei, os Jogos custariam aos cofres suecos 415 mil coroas (equivalente a pouco mais de 115 mil dólares, em cotação da época). Com o apoio garantido pela monarquia sueca, e nenhuma outra cidade se apresentando como candidata, os membros do COI, em sua 10ª sessão realizada em Berlim, no dia 27 de maio de 1909, escolheram Estocolmo, por unanimidade, como cidade-sede da edição de 1912 dos Jogos Olímpicos.

Não era por acaso que o rei Gustavo V poderia assegurar a realização dos Jogos de Estocolmo 1912 com tranquilidade financeira. A Suécia, naqueles primeiros anos do Século XX, passava por uma grande fase de crescimento econômico, registrando – junto com a Dinamarca – uma evolução de seu PIB da ordem de 24% entre 1870 e 1913, crescendo mais que o restante da Europa. A política era estável, com um regime de monarquia parlamentar constitucional vigorando desde 1876 e eleições regulares, em média, a cada 3 ou 4 anos. Esse cenário era bem diverso do que o país vivia até a década de 1870, quando era praticamente subdesenvolvido, com um desenvolvimento industrial tardio em relação a outros países europeus fora da Escandinávia.

A Suécia na época de Estocolmo 1912

Havia um conflito entre as duas maiores personalidades políticas da Suécia, no tempo de Estocolmo 1912. O país em si, aliás, era, politicamente, um paradoxo, embora, economicamente, vivesse uma fase de prosperidade. De acordo com a Constituição de 1809, o rei, sozinho, governava o país – esta era a interpretação literal de seu artigo 4º. Não obstante, desde 1876, o Executivo ficava a cargo de um primeiro-ministro, que era nomeado pelo rei, mas cuidava, após sua nomeação, do governo sueco. Ocorre que, como a Constituição previa que quem governava o país era o rei, e não havia menção alguma a primeiro-ministro na ordem constitucional vigente, isso favorecia a possibilidade de conflitos relativos a concepções de governo entre o monarca e o chefe do Executivo. Era assim em 1912, quando o chefe de Estado, rei Gustavo V, tinha concepções absolutistas, enquanto o primeiro-ministro Karl Staaff era um constitucionalista, defensor histórico do sufrágio universal e do sistema parlamentar de governo.

Não era apenas no campo político que as controvérsias na Suécia existiam ao tempo de Estocolmo 1912. Uma delas era a questão de gênero. De acordo com a SCB (Statistika centralbyrån) – o serviço de estatística oficial do país –, as mulheres eram maioria na população sueca, com 51,13%, contra 48,87% de homens. Entretanto, o direito de voto só poderia ser exercido de forma plena por eleitores masculinos – as mulheres podiam votar, de forma restrita, em eleições municipais. A igualdade de voto entre homens e mulheres só seria conquistada na Suécia em 1918, sendo implementada, pela primeira vez, apenas nas eleições gerais de 1924. Outra controvérsia persistia no direito penal, pois um dos crimes previstos na legislação sueca era a homossexualidade (chamada de “bestialidade” e considerada “crime contra a natureza”), com pena máxima prevista de dois anos de trabalhos forçados, o que só seria revogado a partir de 1944.

A Suécia vivia, desde a década de 1870, uma fase de elevado crescimento econômico e redução das desigualdades sociais e da pobreza. Todavia, o custo de vida elevou-se a tal ponto que estimulou a emigração em massa para outros países, notadamente os Estados Unidos. Segundo a SCB, na década de 1850, deixaram a Suécia 1.690 pessoas. Já na década seguinte, foram 12.245 suecos a emigrarem: um crescimento de 724%. Entre as décadas de 1880 e 1900, mais de 80 mil pessoas deixaram a Suécia para viver em outros países. O fluxo emigratório começou a diminuir a partir da década de 1910, até chegar a pouco mais de 2.500 partidas na década de 1930, época em que se estabilizaria o estado de bem-estar social sueco.

Em 1912, mais de 10% dos habitantes da Suécia se concentravam na cidade de Estocolmo, capital do país desde 1634. Segundo a SCB, Estocolmo teve população rural superior à urbana até 1865, quando foram computados 133 mil habitantes na cidade e 128 mil no campo, coincidindo com a expansão industrial sueca. Em 1910, a população total da capital era de 571.504 habitantes, sendo que mais de dois terços viviam na área urbana de Estocolmo, que possuía, desde 1895, sistema de transporte público por bondes elétricos, vias de tráfego largas, um dos mais movimentados portos da Europa e uma boa estrutura habitacional, com excelente saneamento básico.

Além da boa infraestrutura urbana, Estocolmo tinha experiência, desde 1901, na organização dos Jogos Nórdicos, restritos aos países da região e focados em esportes de inverno, que acabariam sendo precursores dos futuros Jogos Olímpicos de Inverno (cuja primeira edição ocorreria em Chamonix, França, em 1924). O principal defensor da candidatura de Estocolmo 1912 era o oficial do exército sueco Viktor Balck, membro fundador do COI e principal idealizador dos Jogos Nórdicos. Já no primeiro encontro do COI, em 1894, Balck propusera que a capital sueca fosse sede de uma edição de Jogos Olímpicos, e sua ação como um dos máximos dirigentes do Movimento Olímpico foi determinante para que Estocolmo fosse escolhida como anfitriã de 1912.

Pela primeira vez desde Atenas 1896, uma edição de Jogos Olímpicos não foi programada para ocorrer como evento secundário a uma exposição internacional (como se sucedera em Paris 1900, Saint Louis 1904 e Londres 1908). Com as atenções da Suécia voltadas unicamente para as competições esportivas, Estocolmo 1912 representou o resgate definitivo do prestígio do Movimento Olímpico perseguido pelo presidente do COI, o Barão de Coubertin, que já se lisonjeara com a organização considerada satisfatória de Londres 1908. À frente dos trabalhos preparatórios de Estocolmo 1912 estavam Viktor Balck (presidente do Comitê Organizador dos Jogos), e Clarence von Rosen (secretário-geral de Estocolmo 1912), seu colega de farda e de COI e primeiro treinador da história da seleção sueca de futebol.

As disputas de Estocolmo 1912 se deram na capital sueca e seus arredores, de modo que foram dispensadas maiores distâncias para que os 2.406 atletas de 28 países participassem dos Jogos, que apresentaram inúmeras inovações. Pela primeira vez, os esportes aquáticos (natação, saltos ornamentais e polo aquático) ganharam um palco próprio, com uma piscina construída na baía de Djurgården apropriada para a prática das modalidades (mas ainda sem o padrão de 50 metros, que seria adotado posteriormente). Foi a primeira vez em que mulheres competiram nas piscinas (na natação e nos saltos ornamentais). O pentatlo moderno, esporte de origem militar, também entrou no programa olímpico (talvez por influência de Balck e von Rosen, vindos da caserna), assim como a luta greco-romana (em lugar do boxe, esporte proibido por lei na Suécia). Outra novidade foi a introdução de arquibancadas removíveis de madeira, a serem desmontadas tão logo terminassem os Jogos – a única instalação permanente erguida foi o Estádio Olímpico. A maior inovação, porém, veio nas provas de atletismo, com o advento da cronometragem semielétrica e do photo-finish, recurso que permitia a averiguação do vencedor de uma prova extremamente disputada, na qual dois competidores chegassem, em tese, ao mesmo tempo na linha de chegada.

Estádio Olímpico de Estocolmo

O Estádio Olímpico de Estocolmo, construído a preço de custo para os Jogos de 1912.

Dentre as instalações esportivas dos Jogos de Estocolmo 1912, a que chamava maior atenção era, sem dúvida, o Estádio Olímpico. Com capacidade para 33 mil espectadores e a um custo de 235 mil coroas suecas, o estádio apresentava uma fachada estilizada, a lembrar um castelo medieval, e foi o palco da maior parte das disputas esportivas de Estocolmo 1912. Segundo o projeto original do arquiteto Torben Grut, o Estádio Olímpico deveria ser completamente de pedra, mas sua construção custaria aos cofres suecos 400 mil coroas, e o arrecadado com a loteria nacional não seria suficiente para cobrir o gasto, daí porque optou-se por um estádio de concreto, a um custo menor. As obras começaram em 2 de novembro de 1910 e terminaram em 25 de maio de 1912, vinte dias depois que as primeiras disputas de tênis indoor haviam começado no Östermalm Athletic Grounds, mas a tempo da cerimônia oficial de abertura, que aconteceu no dia 6 de julho.

A Suécia e os países participantes de Estocolmo 1912

Os Jogos de Estocolmo 1912 bateram o recorde de países participantes: 28 no total. Destes, 21 eram da Europa, o que refletia, no esporte, a continuidade do domínio da influência do Velho Continente em um mundo à beira de uma conflagração armada. Da América, vieram três delegações (Canadá, Chile e Estados Unidos); do continente africano, a África do Sul (à época, ainda colônia britânica) e o Egito (califado vinculado ao Império Otomano, ocupado pela Grã-Bretanha desde 1882); da Ásia, o Japão; e da Oceania, a Australásia (delegação conjunta de australianos e neozelandeses). Áustria e Hungria, integrantes de uma mesma nação (Império Austro-Húngaro), permaneciam competindo em delegações separadas. A Suécia era, em 1912, uma nação cuja maioria dos habitantes eram mulheres, mas isso não se refletiu na sua representação olímpica em Estocolmo. Dos 444 atletas que representaram o país anfitrião, apenas 23 (5,18%) eram do sexo feminino. A desigualdade de gênero se reproduziu no cômputo geral: dos 2.406 atletas, só 47 (1,95%) eram mulheres.

Greco-Roman wrestling match

Martin Klein (de branco), russo, luta contra Alfred Asikainen (de roupa escura), finlandês. Em incríveis 11 horas de combate, os dois reproduziram no palco olímpico a rivalidade política entre Rússia e Finlândia, esta ocupada por aquela à época. Foto: photographer of IOC.

Naqueles tempos bastante tormentosos, um dos barris de pólvora era a questão da Finlândia, que, desde 1809, era um grão-ducado vinculado à Rússia. Sendo assim, a delegação finlandesa em Estocolmo 1912 deveria adentrar no Estádio Olímpico, na cerimônia de abertura em 6 de julho, atrás da bandeira do Império Russo. Entretanto, os finlandeses se recusaram a cumprir tal formalidade e adotaram a bandeira da Comunidade Finlandesa de Falantes do Sueco. Apesar do protesto, atletas finlandeses que venciam suas provas eram obrigados a escutar o hino nacional russo e a verem içada a bandeira da Rússia – Hannes Kolehmainen, um dos maiores nomes individuais de Estocolmo 1912 (que ganhou três medalhas de ouro nos 5 mil e 10 mil metros e no cross-country, com um recorde olímpico e outro mundial), teria mencionado, na ocasião, que “preferiria não ter vencido”. Um confronto entre finlandeses e russos, porém, aconteceria no Estádio Olímpico, no dia 14 de julho. Na semifinal da categoria meio-pesado da luta greco-romana, enfrentaram-se o russo Martin Klein e o finlandês Alfred Asikainen. O combate durou 11 horas e 40 minutos e se tornou o mais longo de todos os tempos. Klein acabou vencendo a luta e se qualificando para enfrentar o sueco Claes Johansson na grande final, mas estava tão extenuado que não a disputou. Johansson ficou com o ouro, Klein, com a prata, e Asikainen, com o bronze.

O grande nome individual de Estocolmo 1912 foi o norte-americano Jim Thorpe, campeão do decatlo (reunião de dez provas diversas) e do pentatlo (modalidade com cinco provas diferentes). Sua vitória no decatlo e no pentatlo fez com que o rei Gustavo V, ao lhe entregar a premiação, dissesse que Thorpe era “o maior atleta do mundo”. O atletismo, no entanto, reservaria um drama em 14 de julho, quando aconteceu a prova da maratona de Estocolmo 1912. Sob forte calor, com temperatura de 32º C, 68 atletas de 19 países iniciaram, no Estádio Olímpico, um percurso de 40,2 quilômetros. O vencedor foi o sul-africano Ken McArthur, com o tempo de 2 horas, 36 minutos, 54 segundos e 8 centésimos, novo recorde olímpico. Outro sul-africano, Christian Gitsham, ficou com a prata, e o norte-americano Gaston Strobino completou o pódio. Todavia, o nome mais notório daquela prova acabou sendo o português Francisco Lázaro, que, no quilômetro 30, acompanhava de perto o pelotão da frente, quando sofreu os efeitos de uma severa desidratação, sendo socorrido e levado ao hospital, onde, na madrugada do dia seguinte, 15 de julho, não resistiu e faleceu, tornando-se o primeiro atleta olímpico a morrer durante as disputas. Em 20 de julho, no Estádio Olímpico lotado com 24 mil pessoas, foram prestadas as últimas homenagens a Lázaro.

No quadro final de medalhas dos mais organizados Jogos Olímpicos já realizados até então, oito nações europeias figuravam entre as dez primeiras colocadas. Apenas os Estados Unidos, líderes ao final com 25 medalhas de ouro e 63 no total, e o Canadá, 9º colocado ao lado da Hungria, foram as nações americanas intrusas no seleto clube europeu. Em número total de medalhas, a anfitriã Suécia foi o maior destaque. Na sua melhor participação olímpica, a delegação sueca terminou em 2º lugar com 65 medalhas, sendo 24 de ouro – uma a menos que os norte-americanos. Os Jogos de Estocolmo 1912, porém, seriam os últimos antes da eclosão da I Guerra Mundial a partir de 28 de julho de 1914. Pouco antes da cerimônia de abertura, a 14ª Sessão do COI, reunida em 27 de maio de 1912 na capital sueca, escolhera, por unanimidade, Berlim como sede dos Jogos de 1916, após Budapeste (Império Austro-Húngaro) retirar sua candidatura. Berlim 1916, entretanto, não chegaria a acontecer, pois a I Guerra Mundial mobilizaria todo o continente europeu no esforço bélico, o que, aliado à intensa devastação sofrida pelas principais cidades do continente – inclusive Berlim –, fez com que os Jogos Olímpicos na capital da Alemanha fossem cancelados pelo COI. O evento só voltaria a acontecer em 1920, em Antuérpia (Bélgica), nos primeiros Jogos do chamado Período Entreguerras. Durante a I Guerra Mundial, a Suécia se manteria oficialmente neutra – embora houvesse colaboração com o esforço de guerra da Alemanha, através da exportação de aço e ferro àquele país.

O texto é parte do Capítulo 4 de JOGOS POLÍTICOS DA ERA MODERNA, livro de Paulinho Oliveira.

 

Como citar

OLIVEIRA, Paulinho. Estocolmo 1912 – Os Jogos Olímpicos chegam à Escandinávia. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 8, 2021.