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Cronologia das torcidas organizadas (IV): Estopim da Fiel – torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

* Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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Estopim da Fiel.

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A torcida Estopim da Fiel foi fundada no município de Diadema, em São Paulo, no ano de 1979, mais precisamente no dia 5 de janeiro, data oficial de sua fundação. A reunião de origem ocorreu na Avenida Santa Maria, número 40, e contou com a presença de Romualdo Francisco dos Santos, Moacyr Gomes, Suely Nunes dos Santos, David F. Sant’ana Filho, PM José de França, José Carlos Urbano, Rosalvo Gomes de Ramos, Vanderlei Caetano e Dr. Severino A. de Oliveira. Os dez fundadores escolheram por unanimidade o nome Estopim da Fiel, após a sugestão proposta por PM José da França.

Seus primórdios, no entanto, remontam ao ano de 1976, quando ocorreu a mítica “invasão corintiana” ao Maracanã, nas semifinais do Campeonato Brasileiro. Naquela oportunidade, Romualdo Francisco dos Santos, corintiano daquele município paulista, foi ao Rio de Janeiro para apoiar o clube contra o Fluminense e retornou com a ideia de que “ deveria formar uma torcida organizada em Diadema”.

No dia 18 de março do ano seguinte, 1977, a torcida fez sua estreia oficial nos estádios. O jogo era entre Corinthians e Portuguesa, no Morumbi, era válido pelo Campeonato Paulista e foi vencido pela equipe corinthiana com dois gols de Sócrates.

A torcida fixou-se nas arquibancadas ao longo dos anos 1980 e, no final daquele decênio, a fim de se estabelecer também como grêmio recreativo, a Estopim da Fiel tornou-se também um bloco carnavalesco, desfilando nas ruas de Diadema.

Em 1993, abalados pela morte de seu principal fundador, Romualdo Francisco dos Santos, os integrantes do agrupamento deixaram de levar suas faixas para os jogos, concentrando-se apenas no carnaval da cidade. A partida válida pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, entre Corinthians e Vitória-BA, disputada em 5 de dezembro no Morumbi, foi a última ocasião em que a torcida Estopim da Fiel marcou sua presença nos estádios, em sua primeira fase de existência.

Graças ao investimento no carnaval local, em 1995 o Bloco Carnavalesco Estopim da Fiel passa a outro patamar organizativo, constituindo-se como Escola de Samba. Em 2000, 20 mil torcedores se juntaram nas arquibancadas do Maracanã para apoiar o Corinthians na final do Mundial de Clubes da Fifa, disputada em 14 de janeiro contra o Vasco da Gama. Naquela ocasião, divisou-se uma bandeira, a tremular com os dizeres “Corintianos de Diadema”.

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Rogério Maldonado, o Bambu, é o presidente da torcida Estopim da Fiel. Foto: Acervo Museu do Futebol.

Mobilizados pela conquista do título, Rogério “Bambú” e Fábio “Coxa” decidiram lutar para reorganizar os torcedores da cidade e nuclear uma nova representação sob a forma de torcida organizada. Duas semanas depois, reuniram-se com Marco Antônio Ciriano, presidente do Grêmio Escola de Samba Estopim da Fiel, além de outros torcedores corintianos da região, e decidiram reativar a antiga agremiação torcedora.

O jogo que marcou a reestreia da torcida foi entre Corinthians e Inter de Limeira, no dia 8 de março, no estádio do Canindé. O alvinegro do Bom Retiro bateu a equipe interiorana com gols de Ricardinho e Edilson. Dois meses depois, no dia 6 de maio, a sede oficial da torcida, situada à rua São Jorge, número 154, no centro de Diadema, foi reinaugurada. Um grande coquetel contou com a presença de autoridades da cidade, além das torcidas Fiel Macabra, Gaviões da Fiel e Pavilhão 9.

No ano seguinte, em 2001, a Estopim da Fiel arrebata a segunda divisão do Carnaval de Diadema, com o enredo “Nas folias do Norte e Nordeste, o Brasil se diverte”. Na sequência, em 2002, a Estopim da Fiel conquista a primeira divisão do carnaval da cidade, desta feita com o samba-enredo “Oju Orum Princesa Bantu da Angola – Escrava Anastácia”. Em seguida, em 2003, a torcida obtém o vice-campeonato da primeira divisão do carnaval de Diadema com o enredo “Brahma, Vishnu e Shiva. Índia, berço de uma cultura e religiosidade milenar”.

Três anos mais tarde, em 2006, a Estopim volta a conquistar o título de campeão da primeira divisão do Carnaval de Diadema. O enredo vitorioso intitula-se “O canto das raças”. Depois de tropeços, crises e rebaixamento, em 2011, a torcida-escola dá a volta por cima e sagra-se vencedora da segunda divisão do carnaval de Diadema. O enredo, legitimamente corintiano, homenageia o ex-presidente do clube: “Vicente Matheus – uma história escrita em preto e branco”. Um ano depois, em 2012, a Estopim da Fiel volta a vencer a primeira divisão do carnaval, ao desfilar com o enredo alvinegro de homenagem ao ídolo do time: “O grande artista – Ronaldo Fenômeno, artista da bola”.

Em 12 de agosto de 2011, a torcida recebeu a visita da equipe de pesquisadores do Centro de Referência do Futebol Brasileiro. No relato de campo produzido pela equipe, destacam-se as seguintes observações:

“A sede leva o nome do idealizador e primeiro sócio, Romualdo Francisco Alves. Quando a visita do CRFB foi realizada, o quadro de associados era composto por sete mil torcedores e o preço da taxa de matrícula era de R$ 10,00, mesmo custo da mensalidade. Tais valores, somados às vendas da loja, do bar e ao que é arrecadado com eventos, tais como feijoadas e festas, garantem a manutenção da torcida e permitem entender a razão de sua sede ser tão impecável no que diz respeito à estrutura e manutenção. A sede é palco de diversas ações e atividades sociais, entre campanhas de arrecadação de agasalhos, alimentos, festas, aulas de artes marciais, etc”.

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“A Estopim da Fiel possui um conselho formado por cerca de 22 pessoas, que se dividem entre os cargos de presidente e vice, 1º e 2º secretário, 1º e 2º tesoureiro, relações públicas, diretor Social, diretor cultural, diretor de patrimônio, diretor de caravana e diretor de torcida, departamento de bandeiras, entre outros. O mandato do presidente tem duração de quatro anos, com direito a uma reeleição. Atualmente, como já citado, o cargo é ocupado por Rogério Maldonado, mais conhecido por Bambu, que está em seu segundo mandato”.

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“Embora a Estopim da Fiel tenha sido campeã do carnaval de Diadema em 2011, o investimento maciço na festa foi motivo de desavença entre associados. Com isso, o orçamento destinado às duas atividades e o retorno financeiro gerado com ambas foi separado: a arrecadação proveniente do carnaval é revertida para as atividades a ele relacionadas e o dinheiro arrecadado através das mensalidades cobradas dos torcedores é investido na torcida e na infraestrutura de sua sede. Tal medida, aparentemente, solucionou o impasse”.

No final dos anos 2000, a Estopim da Fiel fez parte da CONATORG – o Conselho Nacional de Torcidas Organizadas. Em 2014, quando da criação da ANATORG, a Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil, a Estopim também se fez presente, ocupando cargos na diretoria da entidade. Ainda em 2014, no dia 17 de dezembro, o presidente da torcida, Bambu, concede depoimento, na sede da agremiação, aos pesquisadores do projeto Territórios do Torcer.

Embora oficialmente a torcida declare que não possui nenhum tipo de aliança com outras associações torcedoras, o relato de campo do CRFB observou uma relação de amizade da Estopim com a Torcida Jovem do Santos. Todos os finais de ano há um churrasco e uma partida de futebol entre as duas agremiações.