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Estranhos, estrangeiros – treinadores de futebol em circulação

Alexandre Fernandez Vaz

Diz uma lenda urbana que no Brasil os estrangeiros são sempre bem recebidos. Nação construída por colonizadores, ameríndios, africanos trazidos como escravos e imigrantes, o país e seus habitantes nem sempre são cordiais com os que vêm de além-fronteiras. Isso vale especialmente para vizinhos que tentam a sorte por aqui, bem como para homens, mulheres e crianças que, chegando da África, da Ásia ou do Oriente Médio, buscam lugar para trabalhar, viver e até mesmo reencontrar a cidadania perdida – ou mesmo uma que jamais tiveram.

Eventualmente hostis até mesmo com conterrâneos vindos de outras paragens, muitos brasileiros costumam, no entanto, receber estrangeiros de países ricos de forma mais amável, já que supomos sua superioridade intelectual e moral (e por isso merecem nosso respeito ou, mais que isso, submissão), ao contrário dos que aos quais creditamos inferioridade (o que justificaria nosso desprezo por eles), destinando-lhes racismo e xenofobia. Algo disso tudo aparece nas recentes contratações de treinadores de futebol estrangeiros, por parte de clubes brasileiros. Há, no entanto, pelo menos uma particularidade, a crença segundo a qual somos no futebol superiores, fantasia que se combina com a perene nostalgia de já não o sermos porque deixamos de lado nossa verdadeira essência etc.

Béla Guttmann, na época em que treinou o clube suíço Servette FC, em 1966-67. Foto: Wikipedia.

O fenômeno não é novo, tampouco recente. Há cinco anos traduzi com Daniel Martineschen o livro de Detlev Claussen Béla Guttmann: uma história mundial do futebol (Estação Liberdade, 2014), sobre o jogador e treinador húngaro que rodou por Europa, Estados Unidos e América do Sul, liderando o São Paulo Futebol Clube no título paulista de 1957. A vida daquele que ficou conhecido como o grande estrategista que teria consolidado o sistema WM no Brasil sintetiza, de certa forma, o processo de globalização no interior do qual o esporte e, em especial, o futebol, é exemplo privilegiado.

Diz-se que além do WM, Guttmann, cujo auxiliar era Vicente Feola, que viria a ser o selecionador do escrete brasileiro campeão na Suécia, em 1958, teria introduzido por aqui exercícios específicos para os goleiros. Respondia pela meta tricolor o argentino José Poy, que anos mais tarde, por diversas vezes, seria ele mesmo treinador do clube. Aliás, a primeira vez na vida em que vi uma delegação de futebol completa foi a do São Paulo, presente em Florianópolis em fins dos anos 1970 para um torneio amistoso contra os locais Avaí e Figueirense. O antigo arqueiro autografava as flâmulas, junto com os jogadores, que nos foram, a meu irmão e a mim, presenteadas. Pela noite, andava pelo hotel da concentração a averiguar se tudo estava em ordem e no lugar.

O mesmo Guttmann faria sucesso no Club Atlético Peñarol, contratado para tentar barrar o Santos, de Pelé, e vencer a Copa Libertadores, ele que, entre São Paulo e Montevidéu, teve tempo de ser bicampeão europeu pelo Benfica, e de, após desentender-se com os dirigentes lisboetas, jogar a praga de que o clube do Estádio da Luz não seria novamente vencedor de uma copa europeia nos 100 anos seguintes. Já se foram mais de cinquenta e até agora a maldição teve resultado.

Zezé Moreira, à esquerda, na época em que dirigiu a seleção brasileira, na primeira metade dos anos 1950. Foto: Reprodução.

Não venceu a competição sul-americana, apesar do bom desempenho, mas enfrentou, no derby uruguaio contra o Nacional, o treinador brasileiro Zezé Moreira (que dirigiu o selecionado nacional na Copa de 1954 e foi campeão da Libertadores pelo Cruzeiro em 1976), em 1963. Este foi apenas um dos treinadores brasileiros que se destacaram no exterior, a exemplo de Otto Glória, Didi, Paulo César Carpegiani e Luiz Felipe Scolari, respectivamente treinadores de Portugal, Peru, Paraguai e novamente Portugal em Copas do Mundo, sempre com respeitável desempenho. Afora o Oriente Médio, destino de muitos profissionais do País, desde pelo menos os anos 1970, com Mário Zagallo, Europa, Américas, Extremo Oriente e África têm sido destino.

Pois bem, há técnicos brasileiros circulando pelo mundo, em passado recente até mesmo nas ligas portuguesa, inglesa, espanhola e francesa. Em contrapartida, há profissionais estrangeiros atuando na Série A brasileira, inclusive Rafael Dudamel, no Galo Mineiro, ex-treinador da seleção da Venezuela, país sem grande tradição futebolística, e na B, já que no recém-rebaixado Avaí atua o português Augusto Inácio.

Rafael Dudamel foi recebido com festa pela torcida atleticana ao desembarcar em Belo Horizonte no dia 6 de janeiro de 2020. Foto: Atlético-MG/Divulgação.

É verdade que o Brasil teve grande destaque no futebol mundial, chegando a cinco títulos máximos com sua seleção, sempre com técnicos nacionais. Da mesma forma, Santos, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio, São Paulo, Vasco, Inter e Corinthians venceram o torneio intercontinental de clubes com brasileiros no comando. Mas, se o futebol é marca da modernidade que faz equivaler, talvez com correlato apenas na música popular, nações dominantes a países do Sul, é porque ele é global por natureza. Por isso sua história não se separa daquela dos movimentos migratórios do século passado, tampouco da atualidade deste que nos cabe viver.

Bem-vindos todos os estrangeiros e suas famílias, sempre, sejam grandes treinadores de futebol ou refugiados.

Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2020.