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Eu desisti do futebol, mas ele não desistiu de mim

Laura Andrade

Eu sempre gostei de jogar futebol. Não sei se pela influência dos meus pais, mas desde que me entendo por gente me vejo querendo muito participar desse jogo, dessa reunião. No entanto, o espaço nem sempre faz possível à prática de futebol por meninas então eu tive que jogar com os meninos. Tudo o que fiz de significativo na infância foi isso. Da escola não lembro nada que eu tenha feito que não tenha uma relação direta ou indireta com isso. Se eu estava em uma aula de ciências, eu logo pensava que possivelmente aquilo se aplicaria no futebol. Em uma aula de português eu procurava aprender a escrever as coisas que eu gostava: gol, goleiro, bola, chutar… Eu passava boa parte do tempo esperando pelo tempo que eu iria jogar, correr, rir. Lembro-me de não entender muito bem porque as outras meninas não viam aquilo também, mas é que a gente vai crescendo e vendo que todo mundo é diferente na sua essência e que isso apesar de bom te faz sentir meio sozinho. Eu era a única menina correndo atrás da bola no recreio, brigando com o menino maior porque ele tirou a quadra no dia que era da minha turma. Eu era a única menina desgrenhada nos períodos finais da aula e principalmente a única a não ligar para isso.

Porém eu me sentia sozinha. Eu queria alguém como eu para dividir a alegria de fazer o gol, para passar a tarde conversando sobre aquele lance que inacreditavelmente saiu em gol ou até mesmo para chorar quando aquele menino mal intencionado chutava a bola muito forte. Mas agora, pensando em retrospecto, o que eu queria mesmo era alguém que entendesse o que era ser uma menina e, principalmente, o que era ser uma menina que joga futebol.

Eu morava em uma cidade pequena. As escolinhas de futsal que existiam aceitavam meninas por conta e risco dos pais e os meus, por sorte, queriam correr o risco. Na cidade o preconceito era mascarado de limites que impunham medo. “Tu vai te machucar!”, “Quem sabe tu espera crescer um pouquinho, né?”, “Os meninos são muito passadinhos!” e “Tu é muito bonita para levar bolada!”. Coisa que eu não entendia muito bem porque eu era tão feliz e que mal há em ser tão feliz? Vendo que eu não ia desistir tão fácil, permitiram que eu jogasse as competições do município – com os meninos.

Foram jogos inesquecíveis de derrotas e vitórias. Fui campeã municipal levantando a taça como capitã da equipe e ali não só o sentimento de vitória emergiu, mas o sentimento de pertencimento. Eu fazia aquilo. Eu pertencia aquilo. Ali eu não precisava buscar significado, ali eu não precisava esperar pelo momento de fazer o que eu gostava, eu já estava fazendo. Eu não precisava provar alguma coisa. Nem pra mim. Eu era única? Era e tudo bem.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JUNE 5: General view of the Sony Dream Goal 2014 event at Museu da Republica on June 5, in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Francisco de Souza/Getty Images)

Meninas e meninos jogam futebol juntos. Foto: Francisco de Souza / Getty Images.

Eu tinha 12 anos e já sabia o que eu queria para os próximos 50. Sem titubear. Só que nessa idade, o preconceito vira só preconceito mesmo. “Futebol não é coisa de menina!”, “Menina que joga futebol é sapatão!”, “Tu é uma menina ou menino? Não sabia que menina jogava futebol…” e mesmo quando falava a verdade, era ofensivo: “Futebol não serve para menina. Tu vai passar fome”. E nesse momento, eu entendi muito bem. Muito por estar sozinha no meio dos meninos, eu de fato me senti sozinha e me dei por vencida. Troquei de esporte. Foram quatro anos jogando voleibol sob olhares constantes de aprovação. Sob pronta aceitação e incentivo. Agora eu não era a única menina e nem eu sabia o quanto aquilo faria diferença. Eu me apaixonei pelo vôlei e como toda nova paixão, esta fez questão de esmaecer o gosto da outra. Parei de jogar futebol com 13 anos.

A escola tornou-se mais presente na medida em que o futuro se mostrava cada vez mais exigente. A velha pergunta do que seremos quando crescermos batia na porta e eu tinha que abrir. Conciliando estudos e esporte, viajei por este estado e por outros jogando vôlei. Vivi momentos de muita alegria dentro de quadra, ganhando jogos impossíveis, embora perdendo noites e domingos com a família. Viagens de fim de semana onde a vida toda resumia-se em jogar. Lembro de chegar em casa e pensar que tinha valido a pena desistir do futebol só para viver aquilo.

Com 16 anos prestei e passei no vestibular de Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fato que implicaria em uma mudança: sair de casa. E eu saí. Devo dar esse mérito ao esporte porque ele, e nesse ponto não faz diferença a modalidade, exige de ti coragem quando na verdade tu só sente medo, exige confiança quando não há garantias(e não é essa por si mesma a vida?).

Já devidamente instalada na nova moradia, lembro-me de sentar na cama e querer desesperadamente voltar para casa e assim como quando eu era a única menina que jogava futebol, eu me senti sozinha. Seis meses depois, sabendo de um campeonato interno que aconteceria na faculdade, e mais por não ter nada para fazer, fui jogar futebol. Meu primeiro jogo em três anos. Eu nem lembrava direito como era a sistemática e por vezes me pegava esperando a rede ser montada. Era tudo novo de novo pra mim. Só que agora eu não era a única, havia mais outras trinta meninas jogando.

Descobri nesse dia também que existia uma equipe universitária de futebol feminino que se reunia para treinar e jogar campeonatos. Convidada para fazer parte dela, eu voltei a jogar e descobri: “Futebol é para menina sim.” “Jogar futebol não quer dizer nada mais que isso”. Ano passado, na semifinal dos jogos universitários gaúchos, disputamos nos pênaltis a vaga para a final. Estávamos abraçadas umas nas outras no meio da quadra e quando o último pênalti foi convertido garantindo a nossa vitória, corremos e pulamos de alegria. Ali eu senti que nunca foi só o gosto pelo esporte, era todo um significado de existência.

Vejo que, ao contrário do que eu escolhi há seis anos, eu jogo futebol – e não deixei de jogar vôlei – com outras meninas que passaram por todas as coisas que eu passei. Que como eu, sentiram na pele o preconceito e por conta dele a falta de incentivo. E com isso, pergunto-me, portanto, por que continuamos a jogar. Por que, apesar de toda a maré contrária, continuamos com isso. Hoje, posso dizer que não jogamos pelo simples motivo de gostar ou de vencer campeonatos. Jogamos porque, com o perdão da redundância, juntas não estamos sozinhas.