31.4

Eu joguei com Sócrates

Sérgio Settani Giglio

Há um mês o futebol perdeu um de seus personagens mais ilustres: faleceu o doutor Sócrates aos 57 anos. Resolvi escrever esse texto, um mês depois de sua morte por dois motivos: o primeiro foi pelo fato de termos sido bombardeados com inúmeras publicações a seu respeito (nada mais justo, afinal, foi um grande jogador brasileiro) e, em segundo lugar, ter um tempo para conseguir recuperar em minha memória fatos relativos ao Sócrates.

Nesse esforço de ir ao encontro de minhas memórias logo me dei conta que seria uma tarefa difícil, afinal, Sócrates não jogou pelo clube que torço. Essa relação é fundamental, sob o ponto de vista futebolístico para criar vínculos do torcedor com o jogador. Se não consegui lembrá-lo por essa perspectiva resolvi seguir outros caminhos e cheguei na seleção de 86. Sim, é a de 86 e não a de 82 que me lembro.

Caricatura de Sócrates que era publicada na Revista Carta Capital. Caricatura: Baptistão Caricaturas.

Ao lembrar da seleção brasileira que disputou a Copa de 86 tive como recuperar em detalhes daquelas tardes de junho em que estive com o doutor Sócrates. Eu joguei com o Sócrates na Copa do Mundo de 86. Como assim? Embora na ocasião do Mundial eu estivesse com sete anos, lembro-me como se fosse hoje dos campeonatos de botão que eu fazia, sozinho, no chão da sala da minha casa. Lá eu era o jogador, o técnico e o narrador. O fascinante era exercer essas três funções ao mesmo tempo sob o olhar de meu avô que ficava lendo o seu jornal na sala.

Foi em 86 que a prática do futebol de botão ganhou espaço entre as minhas brincadeiras preferidas. Ganhei várias seleções que disputaram aquele mundial, tal como a França (não gosto de lembrar, afinal, o Brasil foi desclassificado nos pênaltis), a Argélia, União Soviética, Argentina e Uruguai. Dessa forma o Brasil entrou em campo várias vezes no mesmo dia. Todas as partidas de botão aconteciam entre um jogo e outro que passava na televisão.

Não me lembro muito dos jogos que assisti pela televisão, apenas sei que assisti vários. As partidas da seleção brasileira assisti todas. Me lembro do 1 x 0 contra a Espanha e de um gol feito pelos espanhóis em que a bola bateu no travessão e tocou dentro do gol de Carlos, mas que não foi validado pelo árbitro. Outro jogo que ficou na minha memória foi contra a Irlanda do Norte em que o Josimar fez um lindo gol de fora da área. Contra a Argélia (1ª fase) e Polônia (oitavas) as minhas lembranças se perderam no tempo.

Gesto repetido por Sócrates a cada gol. Caricatura: Gilmar Fraga.

Porém, houve uma partida em minha infância que foi difícil de se assimilar. Foi o jogo contra a França nessa Copa do Mundo. Claro que de 86 para cá eu assisti vídeos sobre as Copas e, em especial, os gols das partidas de 86. Tudo isso foi agregado a minha memória, numa condição posterior, mas que não consigo separar do vivido no momento do jogo com o que foi agregado posteriormente. O fato é que o gol do Careca e o modo como o Brasil vinha jogando era suficiente para ganhar da França várias vezes. O empate francês deixou a sala de casa em silêncio. O pênalti perdido por Zico fez com que o grito tão esperado de gol não saísse da garganta.

O empate em 1 x 1 levou o jogo para a prorrogação e depois para os pênaltis. O Brasil inicia as cobranças com nada menos que o doutor Sócrates. Ele tomou pouca distância, deu uma paradinha e o goleiro Bats da França defendeu. Me perguntava como Sócrates poderia ter pedido aquele pênalti?

Na sequência gols para ambos. Zico cobrou o terceiro pênalti e novamente fiquei apreensivo, pois já tinha perdido um durante o jogo. Ele fez e o Brasil empatou a série tendo um pênalti a mais. O que me perguntava era o motivo pelo qual ele tinha errado durante o jogo normal, afinal, se ele tivesse marcado não teríamos que passar por aquele nervoso todo. Logo depois do Zico, o jogador francês que fez a cobrança foi o Bellone que chutou no canto esquerdo de Carlos e a bola tocou na trave, nas costas do Carlos e entrou. Gol da França. Certamente disse algo nesse sentido: “Injusto, só pode ser azar, quando os franceses erram eles conseguem marcar o gol!”. A ducha de água fria e a vontade de não jogar botão com a seleção brasileira veio quando o zagueiro Julio César chutou forte, mas a bola pegou na trave e o Brasil estava desclassificado.

Sócrates. Caricatura: Toni D’Agostinho.

Comecei a entender ali que não podemos vencer sempre. Que perdas acontecerão para que a gente possa seguir adiante. E foi assim que senti a perda de Sócrates em dezembro de 2011. Não o conhecia pessoalmente, não me lembro de vê-lo jogar pelos clubes brasileiros (embora acompanhasse o futebol) sendo essa dificuldade estabelecida pelo fato dele ser dos clubes rivais ao meu e ouvi muito sobre uma tal de Democracia Corintiana1 da qual ele era um dos mentores, aquela estrutura que colocou o futebol brasileiro em uma nova perspectiva, mesmo sendo algo que aconteceu dentro de um clube, o Corinthians. Mas foi alguém que esteve nos meus campeonatos de botão e que me fez entender que perder faz parte do jogo.

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[1] Para saber um pouco mais sobre a Democracia Corintiana vale a pena ler o livro de José Paulo Florenzano: A democracia corinthiana: práticas de liberdade no futebol brasileiro publicado em 2009 pela EDUC/FAPESP.