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“Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz!”

Marcos Marques dos Santos Júnior

Quando se atinge o ponto que o Flamengo chegou esse ano seria importante para o crescimento geral do futebol brasileiro perguntar a quem jogou contra o rubro-negro carioca incluindo jogadores, treinadores e torcedores de outros times o que eles sentiram e o que acharam da experiência de ser oponente desse Flamengo.

Jorge Jesus pelo pouco que sabemos além de ser autodidata é admirador de Johan Curyff por isso percebemos a boniteza coletiva quando vemos esse Flamengo mas o que mais chama atenção é a facilidade com que venceu alguns times paulistas nesse Brasileirão. Johan Cruyff foi treinado por Rinus Michels na Copa de 74 quando os Países Baixos (Holanda) demonstrou a força do seu futebol total derrotando o Brasil na época atual tricampeão do mundo. Podemos ver espalhado pelo mundo o sistema do futebol total nos times do Barcelona, Manchester City, Flamengo com Jorge Jesus, Corinthians da era Tite, no Santos Futebol Clube de Jorge Sampaoli e nos times que Fernando Diniz dirigiu como o Audax vice-campeão paulista de 2016 e o Fluminense desde o final de 2018. Ainda não vi o São Paulo jogar ao comando de Diniz.

Perguntar aos oponentes o que acharam de ter jogado contra esse Flamengo de 2019 pode nos ajudar ainda mais no entendimento, no crescimento e na recuperação do pós-crise do 7 a 1 de 2014. Mas será que os oponentes do Flamengo este ano têm a maturidade de falar sobre isso? Lembro que Mano Menezes já declarou que esse Flamengo elevou o patamar do futebol brasileiro. Atualmente pode ser difícil falar sobre quem vence principalmente quando se joga contra o vencedor, mas é necessário e importante que desenvolvamos juntos essa cultura. É momento de autocrítica geral, tanto no futebol quanto na política. Autocrítica da esquerda e da direita como também da extrema-direita que atualmente tem o poder no Brasil.

Jorge Jesus e Rafinha concedem entrevista coletiva antes da estreia do Flamengo no Mundial de Clubes da FIFA. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

O futebol europeu e a UEFA reúne seus principais treinadores para reuniões visando a melhoria coletiva do futebol do continente aliás será que o futebol brasileiro já entendeu aquele 7 a 1 sofrido contra a Alemanha em casa? Será que quer sentar e falar sobre isso? Será que um treinador brasileiro daria esse nível de competitividade a esse plantel brilhante do Flamengo assim como Jorge Jesus deu sabendo já da fama que alguns atletas brasileiros têm de não correr para o time?

Vendo algumas entrevistas percebemos que Jorge Jesus pensa que se o atleta tem excelentes salários, descanso adequado, alimentação de ponta e tudo o mais, por que não correr? Pelo que vimos parece que alguns jogadores brasileiros ainda não entenderam muito bem isso, isso de correr, doar-se ao coletivo e ao clube que veste a camisa. Voltando ao assunto, será que Vanderlei Luxemburgo foi devidamente abordado e perguntado pela estratégia que fez no 4 a 4 contra o Flamengo? Será que o próprio Vanderlei estaria disponível? Só tiraríamos essa dúvida se a abordagem tivesse acontecido. E se as séries filmadas das campanhas vitoriosas do Flamengo tanto as gratuitas quanto as que serão disponibilizadas por “streaming” focassem não somente no vencedor mas também nos oponentes que sentiram a sua força?

A mídia esportiva deveria ter papel importante no crescimento do futebol brasileiro fazendo perguntas relevantes, racionais e contextualizadas aos atletas, aos treinadores e aos dirigentes sobre o entendimento do jogo. Mas como atingir esse nível se percebemos considerável desconforto em relação ao sucesso de Jorge Jesus vindo de treinadores, dirigentes e até da própria mídia esportiva que deveria não somente mostrar mas praticar a isenção nos comentários futebolísticos

No início da Libertadores Renata Fan, por exemplo, foi assertiva durante o seu programa (Jogo Aberto) dando o seu palpite citando Flamengo e River Plate como possíveis finalistas da Copa e quando questionada enfatizou que quando fala de futebol e tem que palpitar pensa com a razão e não com o coração. Já me peguei também diversas vezes vendo as ótimas análises do jornalista Mauro Cezar Pereira, que é flamenguista, criticando duramente o seu time de coração. Recentemente percebi que o jornalista apresenta também entre os seus comentários alguns números e estatísticas sobre o desempenho de alguns times ou de jogadores visando aumentar a qualidade no debate tentando fugir do senso comum. Não que a opinião da maioria das pessoas não seja válida pra falar de futebol mas opiniões embasadas cientificamente ajudam a clarear o debate quando esse tem uma nuvem carregada e cinzenta de senso comum.

Prêmio Brasileirão 2019 – Zagallo entrega o prêmio de melhor treinador a Jorge Jesus. Foto: Alexandre Loureiro.

E por falar em senso comum políticos brasileiros também se apropriaram disso pois as eleições de 2018 ficaram manchadas pelas “fakenews” que são popularmente conhecidas como mentiras. Com o uso massificado das redes sociais o neofascismo conseguiu acesso ao povo e angariou votos através da disparada de mensagens com notícias falsas, mas após alguns meses de governos incompetentes a abordagem atual de alguns políticos populistas com o povo tem ocorrido de maneira indireta com o uso do futebol como ferramenta porque o neofascismo quer se infiltrar na cultura popular e namora com o futebol brasileiro sabendo que o futebol é a língua e um dos acessos culturais mais fáceis para se chegar no povo brasileiro.

O neofascismo à brasileira só não entra nas Escolas de Samba e nosso Rap Nacional porque se lá for bater à porta será no mínimo mal recebido. Tomara que o carnaval 2020 seja tão potente e crítico quanto o desse ano e que venha antirracista sambando na cara do racismo e que o Rap Nacional continue sendo a morada dos excluídos da sociedade brasileira.

Abordar pessoas ou alguém, sentar e ter uma conversa madura é cada vez mais difícil numa sociedade que cada vez mais se quer vencer, vencer e vencer e que se por acaso algum revés acontece não sabemos lidar com a situação. Deve ser por isso que intelectuais discutem atualmente que a resiliência deve ser ensinada às crianças da nova geração. No mundo da competição há extremo desconforto nas derrotas e pouca humildade para se perguntar por que o outro ganhou, abordar o vencedor e parabenizá-lo então, nem se fala!

Abordar e fazer perguntas requer coragem e humildade mas não era justamente o povo brasileiro que era conhecido pela sua humildade e pela falta de cerimônia na abordagem das pessoas? Será que em um ambiente competitivo, individualista, ambicioso, corrupto e machista como é o futebol profissional brasileiro masculino há espaço para debates realmente maduros quando se está por cima no momento são dois treinadores estrangeiros ainda mais com um deles (Jorge Sampaoli) fazendo muito com o time que tem em mãos? Muitos acreditam que o Brasil ainda revela em quantidade e qualidade os melhores jogadores do futebol mundial mas fica cada vez mais evidente a nossa crise de identidade coletiva tanto no futebol quanto como sociedade em geral.

Sampaoli chegou ao Santos sob muita expectativa e fez um belo trabalho no clube. Foto: Rodrigo Coca/Santos FC.

No futebol e na sociedade o Brasil parece estar emperrado coletivamente. Ainda somos muito individualistas e o país de maneira geral sente na própria pele uma polarização grave no ambiente político, não se tem quase o meio termo mas sim polos quantitativamente ocupados, a qualidade é rara em nosso atual debate político. Andamos muito xucros uns com os outros quando falamos de política e alguns técnicos quando são perguntados sobre Jorge Jesus também se mostram xucros com ciúmes parecendo até crianças emburradas e mimadas. Nosso estilo de jogo carece de estratégias coletivas assim como a nossa política.

O próprio Jorge Jesus já chegou a comentar que os treinadores brasileiros estão ultrapassados porque os jogadores brasileiros sempre resolviam os problemas táticos na individualidade e com isso os treinadores tinham menos necessidade de criar ideias coletivas. Será que temos a maturidade e a humildade de abordá-los sem cerimônia e perguntar o que eles fizeram de bom e que podem compartilhar conosco? Será que já chegamos nesse nível? Precisamos muito resolver as nossas charadas internas como, por exemplo, responder a saída repentina do Cruzeiro de um técnico talentoso como Rogério Ceni que demonstrou o seu valor rodadas depois com o Fortaleza levando a equipe nordestina a vencer o Santos pela primeira vez na história e levando ainda o clube também pela primeira vez na história a uma competição internacional.

Aonde está a alegria do atual futebol brasileiro se não nesse Flamengo de Jorge Jesus, no Santos de Sampaoli ou no arretado nordestino Fortaleza de Rogério Ceni? E pra encerrar te pergunto aonde está a alegria na nossa política atual se não em alguns casos raros e pontuais espalhados em pontos escassos do território brasileiro? Quem tem a razão no futebol e na política brasileira em meio a tanto ódio e falta de qualidade nos debates? Talvez a razão esteja aonde a felicidade e a qualidade apareçam porque tanto no futebol quanto em nossa sociedade precisamos urgentemente de alegria e uma frase do ditado popular brasileiro ou até universal pode ajudar a deixar o clima mais leve: “Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz!”

Como citar

SANTOS JúNIOR, Marcos Marques dos. “Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz!”. Ludopédio, São Paulo, v. 126, n. 21, 2019.