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“Eu só queria jogar futebol”

Wagner Xavier de Camargo

Sempre sonhei em ser jogador de futebol. No campinho de várzea, onde brincávamos depois da escola, driblava, chutava, comemorava gols como um jogador real, daqueles que admirava na TV. Queria ser Sócrates, Zico ou Pelé, ser adorado pela torcida, chamado para dar autógrafos, tirar fotos e ganhar presentes. O campinho nada tinha de diferente, mas era nosso gramado oficial. Debaixo de chuva ou de sol, nem nos importávamos com lama ou mosquitos. O negócio era botar a bola para rolar.

O quitandeiro da esquina, Seu Dito, vez ou outra era nosso técnico. João sempre ia para o gol. Carlos, o mais alto do grupo, era o zagueiro. Havia briga por essa posição. Eu era o líbero e, em geral jogava atrás do Carlos. Quando nosso time estava sem bola, defendia o que podia. Ao recuperar a posse, corria e armava jogadas. Como nas palavras do quitandeiro, “esperto esse menino”. Mario, Antenor, Norberto e outros eram sempre escalados para as laterais, pois eram rápidos como curiós. Nem no dia do falecimento de meu pai deixei meus amigos e o campinho. Afinal, a vida seguia e eu só queria jogar futebol!

E naqueles tempos se aprendia futebol na rua, jogando. Sem peneira ou selecionado de qualquer tipo, mostrávamos o que jogávamos para os outros. Os olheiros sim, sempre existiram – independente se amadores ou profissionais contratados. Certa vez, fui jogar num clube da cidade. Não era propriamente uma pelada, mas um mata-mata em que muitos garotos, como eu, nos revezávamos no gramado. Não tinha caneleira, proteção ou qualquer outro aparato. Éramos eu, meu conga preto, minha meia branca grossa, um shorts surrado azul e uma camiseta qualquer. O clube era o vermelho e verde da cidade; tradicional no cenário do interior, quase centenário.

Foi um domingo e tanto. Tinha muita gente lá. Não sabia muito de estrutura, mas aquele gramado era melhor que nosso campinho. Pelo menos a grama estava aparada e não havia buracos. Naquela idade, com os hormônios começando a borbulhar no corpo, a gente só quer jogar e ficar entre os colegas. E, mais do que tudo, eu só queria jogar futebol!

Eu e mais alguns fomos escolhidos. Um homem apareceu um dia em casa e conversou com a viúva minha mãe. “Menino tem futuro e vai comigo”, disse ele. Deu três dias para arrumar minhas coisas. Fui levado de casa com ainda com 13 anos. Minhas pernas mal sustentavam meu corpo em desenvolvimento e nem pelos tinha. Na verdade, começaram a nascer as primeiras “penugens” (segundo minha tia Eustáquia), nesse período em que fui morar fora da casa de minha mãe.

Os primeiro dias no alojamento foram legais. Tudo diferente, banheiros grandes, duchas fortes, muitos garotos com quem brincar. Ops, fui corrigido várias vezes sobre isso: não era “brincar”, pois não estávamos lá para isso. Era treinar. Conheci vários e diferentes homens que tomavam conta da gente. Vinha um, dava umas ordens. Vinha outro. O do bigode era engraçado. Não posso dizer o mesmo do Peninha, um cara magricela, com óculos “fundo de garrafa”, como o chamávamos, pois ele, sim, era chato. Gritava, não sorria e não fazia amigos entre nós. Já o técnico principal, o Florian, com sua barba preta cerrada, seus olhos verdes e seu porte ostentoso nos passava muita confiança. Independente da rotina ou dos dias cheios de treino, eu não pensava em nada e só queria jogar futebol!

Meu corpo se desenvolvia, minhas coxas engrossavam e pelos começaram a cobrir minhas pernas. Uau: o treino e a comida me faziam engordar em músculos. Estava prestes a fazer 15 anos e tinha um quase corpo de homem. Foi então que, numa sexta-feira fim de tarde, quando eu fiquei no alojamento e todos os demais garotos viajaram para suas casas, que Florian me ensinou algo mais. Bebemos um líquido amarelo amargo estranho, falamos de coisas da vida, vimos fotos antigas de outros garotos, que já nem estavam mais por ali.

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“Eu só queria jogar futebol”. Foto: Gadini (CC0 Creative Commons).

Florian sempre foi muito simpático e dizia que eu era o seu jogador preferido. Dizia também que acreditava em mim e que meu pai teria orgulho se tivesse me visto jogar. Eu pensava que era bom ouvir aquilo. Naquela sexta, em especial, aprendi mais sobre futebol do que o esporte podia me ensinar. A bebida nos jogou numa conversa mais longa e ríamos de tudo aquilo. Florian disse, de repente, que sempre me observava, que via o desenvolvimento de meu futebol e de meu corpo, que estava feliz em me ter no grupo. Eu ria muito, já meio bêbado e pensava que só queria jogar futebol!

A conversa cessou quando sua mão tocou minha virilha. Fiquei nervoso, mas imobilizado. Ouvi um silêncio que não ouvira nem no dia do sepultamento de meu pai, no Cemitério da Saudade. Meu coração palpitou forte, quis pular para fora da boca. Suava muito, minhas pernas enfraqueceram, meu corpo parou. Num instante, virei um boneco daqueles de circo, tipo marionete. Florian manipulava minhas mãos, minha boca, meu pênis. De repente, percebi que eu não estava mais ali.

O cair da tarde daquele fim de dia estava especialmente bonito. Minha mãe gostava do pôr do sol quando seus raios entrecortavam nuvens inertes, deixando o céu lilás. Naqueles minutos ali em que o dia não terminava, eu só pensava nela. Os últimos raios de sol entravam pela janela e o vento soprava mais forte, querendo talvez limpar algo em mim, no meu corpo. Nenhum outro professor estava por perto; nenhum colega do time tinha escolhido permanecer o final de semana no alojamento, apenas eu. Com o tempo parado, ali não pensava em mais nada…  Afinal, eu só queria jogar futebol!

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Neste texto eu ficcionalizei a realidade, narrada a mim em forma de confissão nos idos de 1989, quando ainda não se falava em abusos sexuais no esporte, mas eles já existiam. Quem me contou já não mais habita o mundo dos vivos. Num momento em que emergem os (não) tão secretos abusos sexuais de jovens e adolescentes no futebol, nada mais apropriado que tirá-la da gaveta e contá-la para o mundo!