140.17

Eu sou da América do Sul: A Copa Libertadores da América sob o sol e a sombra

Thiago Carlos Costa

Acima do futebol está a lenda.

Eduardo Galeano

A Copa Libertadores da América é atualmente a principal competição interclubes na América do Sul, um objeto de desejo de torcedores, clubes e jogadores sul-americanos. Mas qual é a mística que perpassa a identidade deste torneio de futebol que transcende sua função esportiva e a coloca em alguns momentos como uma peça teatral? O que seria este “espírito de Libertadores”, tão referenciado pela imprensa e torcedores para tratar de “La Copa”?

O objetivo deste texto é apresentar uma breve perspectiva histórica da Copa Libertadores da América, desde sua primeira edição em 1960 até a atualidade. Na primeira parte apresentaremos a construção da Libertadores  como uma competição nascida para rivalizar com a Copa dos Campeões Europeus e construir uma identidade clubística dos times sul-americanos. Na segunda parte, analisaremos como o discurso da metáfora bélica da competição com jogos disputados de modo acirrado dentro e fora do campo se tornaram “commoditie”, vendida pela mídia esportiva como o símbolo da competição.

As fontes de pesquisa são desta comunicação são; o livro, “Libertadores: paixão que nos une”, do jornalista Nicholas Vital, os artigos do “Blog da Meia Encarnada”, e as chamadas do canal Fox Sports, de 2011 até os dias atuais. Assim, pensaremos como a prática discursiva ajuda a “vender”, a globalizada Copa Libertadores, nesse contexto de identidade cultural e esportiva como um “produto” rentável para patrocinadores e torcedores/consumidores, em tempos de crises e transformações em torno desta competição.

A cobiçada Taça da Libertadores da América. Foto: CONMEBOL/Divulgação.

Parte 1 – As origens de La Copa

Desde o início do século XX dirigentes sul-americanos buscaram organizar uma competição que integra-se os principais clubes do continente. Com o sucesso do torneio Sul-americano (atual Copa América) de seleções que desde 1916 agregou forte participação dos países, público e imprensa, estimulava os dirigentes nesta busca. Observam-se registros de torneios internacionais de clubes disputados na América do Sul nas décadas de 1910 e 20 as Copa Competencia e Copa Rio da Prata, disputadas entre clubes argentinos e uruguaios.

Anos mais tarde em 1948 foi disputado no Chile, a famosa Taça América Del Sur, que contou com a participação de sete clubes de seis países, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador e Uruguai. O vencedor foi o Vasco da Gama, de Barbosa, Augusto, Ademir Menezes e Flávio Costa, conhecido como o “expresso da vitória”. A competição ainda contou com times como históricos como o River Plate comandado por Alfredo Di Stéfano e Labruña, e o time do Nacional base da seleção uruguaia na década de 1940. O efeito desta competição é interessante, pois a Conmebol considera o Vasco o primeiro campeão sul-americano.

Na década de 1950, a Conmebol estimulada pelo êxito esportivo e econômico da Copa dos Campeões da Europa, que existia desde 1955. Entre os anos de 1958 e 1959, os debates concretizaram no surgimento da Copa dos Campeões da América, torneio continental disputada pelos campeões nacionais dos países sul-americanos. O objetivo da Conmebol ao final das disputas continentais, as federações da Europa e América do Sul indicariam seus campeões para disputa do Torneio Intercontinental, para rivalizar pela hegemonia do futebol mundial entre times sul-americanos e europeus. Vale ressaltar que um dos grandes articuladores deste processo, foi o então, jovem dirigente brasileiro, João Havelange.

Ainda em 1959, a competição sul-americana ganhou o nome Copa Libertadores da América, nome escolhido pelos dirigentes da Confederação Sul Americana de Futebol como uma homenagem aos líderes dos movimentos de independência das nações sul-americanas no século XIX. Nomes como de Simón Bolívar, José de San Martín, D. Pedro I, Bernardo O’Higgins, Antonio José de Sucre e José Artigas, dentre outros libertadores da América, como alguns dos homenageados.

Um dos símbolos mais marcantes da Copa Libertadores reside em seu troféu. Idealizado pelo italiano Alberto de Gasperi, da joalheria Camusso, ela consegue sintetizar a imagem do torneio sul-americano. Seu boneco chutando a bola no todo, seu corpo composto em prata e sua base em madeira com as placas dos campeões de cada edição.

Na sua primeira edição em 1960, com a entrada de apenas os campeões nacionais, a Copa Libertadores contou com participação sete clubes: Bahia do Brasil, Jorge Wilstermann da Bolívia, Millonarios da Colômbia, Olimpia do Paraguai, Peñarol do Uruguai, San Lorenzo da Argentina e Universidad do Chile. No ano de 1965 a Libertadores passou permitir o acesso dos vice-campeões nacionais com 16 clubes.

Em meados dos anos 1990, houve uma sequência de aumento no número de clubes participantes, com a inclusão de 32 clubes em 1998, e na sequência  36 e 38 em meados dos ano 2000 e 2010. Atualmente, a Copa Libertadores conta com 47 participantes que integram o torneio de fases “pré-libertadores”, com três fases de “mata-mata”, até a fase de grupos que contam com quatro times que credenciam dois de cada para as fases eliminatórias, oitavas, quartas, semifinais e a grande final. Entre os anos de 1998 até 2016, clubes mexicanos participaram da Copa Libertadores quando em 1998 o grupo de comunicação norte-americano Fox Sports comprou os direitos de transmissão do torneio. Existe um projeto para 2020 a vontade da Conmebol de incluir times mexicanos e norte-americanos em La Copa.

Parte 2 – La Copa reinventada: a tradição em perigo?

Observados sessenta edições da Copa Libertadores e com toda as estatísticas construídas no torneio e todas a místicas memorizadas em torno da competição, podemos entender então, tradições em torno de La Copa!? Assim, parto da construção do conceito de tradições pelo historiador britânico Eric Hobsbawm:

“Muitas vezes, “tradições” que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas. […] Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado.” (HOBSBAWM; RANGER: 1984: p. 9-10)[1]

No capítulo 3 do livro de Nicholas Vital, intitulado: “na raça, na força e na coragem”, o autor remete a construção do simbolismo bélico em torno da Copa. Esta imagem ganhou muita força entre os anos de 1960 a 1980, quando nesta época, premiações financeiras pouco atrativas, baixa visibilidade de mídia e muita violência dentro de campo e nos estádios e entornos, quando clubes brasileiros preferiam participar de campeonatos regionais e nacionais e até excursões pelo exterior.  

“A Libertadores é, antes de tudo, um torneio democrático, em que, mais do que dinheiro, vale a garra, o conjunto, os fatores climáticos, a pressão da torcida, entre outros fatores característicos desta competição.” (VITAL; p.18)[2]

Esta tradição da Copa Libertadores da América também se constrói em uma cultura de arquibancadas efervescentes com sinalizadores, bumbos, bandeirões e torcedores empuleirados em almabrados. Esse imaginário se construiu nos primeiros anos da competição e virou uma marca do torneio, mesmo que em ações recentes a Conmebol tente tirar um pouco desse clima de guerra que foi construído em torno da Copa Libertadores. Portanto, quando se fala em Libertadores, a metáfora bélica geralmente vem à tona com muita presença na mídia, falas de torcedores e jogadores como essa do atacante do Santos, Pepe, bicampeão da competição, que já na década de 1960 relatava o clima nos estádios durante La Copa:

“La Bombonera estava lotada. Atrás do gol tem um tobogã, que as vezes vem abaixo, os caras sobem no alambrado, xingam pra burro. Nós nunca tínhamos visto um quadro dantesco como aquele. Precisa ser macho para jogar e ganhar do Boca Juniors lá dentro, tanto que pouca gente consegue. O Santos era, definitivamente, um time valente. “ (VITAL, p.63)

Caminhando nesta linha da metáfora bélica, é interessante pensar como esse aspecto se tornou uma das marcas do torneio, explorado pela mídia, e como reforça para torcedores e jogadores a importância de sua conquista.

“Futebol é guerra simbólica. Seu caráter guerreiro transparece em diversos indícios. A linguagem usada nele tem expressões significativas como “matar a bola”, “matar a jogada” ou “matar o jogo”. O jogador encarregado de fazer os gols da equipe é o “artilheiro”, o “matador”, o carrasco dos adversários . […] Seja na sua face cotidiana clânica, seja na sua expressão nacional de tempos em tempos, o jogo apresenta ambientações de claro sentido militar. A arena onde se desenrola é cercada por escudos, bandeiras, hinos e “gritos de guerra” das torcidas. (FRANCO JÚNIOR, 2007: 236-237)[3] 

Observando a construção simbólica e linguística em torno da metáfora bélica no futebol e como ela é explorada ao limite historicamente na Copa Libertadores, alimentando uma espécie de cultura sul-americana de futebol. E este imaginário bélico tem na mídia um aliado de peso, prova disso são as chamadas de canais que transmitem o torneio e também os portais e blogs que cobrem a competição. O chamado “espírito de libertadores”, parece incorporar o mais tranquilo dos torcedores como o mais feroz dos jogadores, o clima de um estádio em dia de jogo decisivo parece transcender do campo de jogo para arquibancadas e telespectadores. Uma fonte que pode ajudar nesta análise é o chamado texto manifesto da Copa Libertadores lançado em 2019. Observe o texto:

Texto Manifesto[4]

Libertadores não é um campeonato.
Libertadores é um estado de espírito.
Quem conhece o Espírito de Libertadores, sabe.
Quando ele tá em campo, o futebol é um outro jogo.
Não existe bola perdida, nem torcida calada.
Camisa pesa, mas talento e garra tem peso dois.
Todo lance é um lance decisivo. Todo grupo é o grupo da morte.
O improvável é provável. O impossível é possível. O inesperado, rotina.
Por isso que existe o futebol e existe o futebol de Libertadores.
Onde uma vitória nunca é só uma vitória.
E a derrota nunca foi, nem nunca será, uma opção.

Partimos do pensamento de Barthes, que desenvolveu sua análise identificando três tipos de mensagem: a mensagem linguística (verbal), a mensagem conotada (simbólica) e a mensagem denotada (icônica). Segundo o modelo de Barthes, parte-se para a análise da imagem, que apresenta dois tipos de mensagens: a mensagem conotada e a denotada. Na mensagem conotada encontramos os aspectos simbólicos do anúncio, no caso a identidade do “espírito de Libertadores” do jogo sul-americano. Já na mensagem denotada é a representação pura das imagens apresentando os objetos reais da cena trazendo o espectador para dentro da experiência do jogo:

“(…) em publicidade, a significação da imagem é, certamente, intencional: são certos atributos do produto que formam a priori os significados da mensagem publicitária, e estes significados devem ser transmitidos tão claramente quanto possível; se a imagem contém signos, teremos certeza que, em publicidade, esses signos são plenos, formados com vistas a uma melhor leitura: a mensagem publicitária é franca, ou pelo menos enfática.” [5]

Esta experiência do jogo entra em outro aspecto da Copa Libertador a sua questão sobrenatural, onde coisas espetaculares e inexplicáveis acontecem. A mística construída como este “espírito de Libertadores”, exige dos jogadores algo para além das táticas, técnicas e valores financeiros. Como bem retratam as chamadas para os artigos do Blog da Meia Encarnada do Portal Globo Esporte sobre as semifinais da Copa Libertadores de 2019. O delírio e a catarse entram como elemento lúdico que o futebol carrega em sua gênese, mas que a mídia ajuda a construir no imaginário coletivo dos torcedores e jogadores.

Conquistar a La Copa, passa a ser algo que vai colocar estes times vencedores na história de forma épica, colocando-os em um panteão no clube vencedor. O texto hiperbólico ajuda a consolidar esta memória coletiva e ao mesmo tempo dar um valor de mercado para algo imaterial e simbólico, não apenas vencer, mas vencer com contornos épicos. Observe a chamada do blog na imagem abaixo:

Print do Blog da Meia encarnada

Considerações finais

Após esta breve análise de alguns elementos históricos, simbólicos, publicitários e esportivos da Copa Libertadores, podemos analisar como um torneio criado em 1960, com objetivo de eleger clubes sul-americanos que rivalizariam com os clubes europeus, se consolidou como um forte elemento de identidade para clubes, jogadores, jornalistas e torcedores na América do Sul. Pensando como este torneio atravessou o século XX e chegou no século XXI envolto em transformações de ordem econômica e esportiva que trazem para o embate a dimensão simbólica do torneio em confronto com a dimensão comercial do torneio. Este embate pode ser objeto de reflexões próximas análises.


[1] HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terece. A invenção das tradições. São Paulo: Editora Paz & Terra, 1997.

[2] VITAL, Nicholas. Libertadores: Paixão Que nos Une. São Paulo: Editora Cultura Sustentável, 2014.

[3] FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[4] Fullpack cria conceito para a cobertura da Libertadores na Fox

[5] BARTHES, R. “A retórica da imagem”, In: O óbvio e o obtuso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 28.


Como citar

COSTA, Thiago Carlos. Eu sou da América do Sul: A Copa Libertadores da América sob o sol e a sombra. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 17, 2021.