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Eu vi o Rivellino jogar!

Plínio Labriola Negreiros

Em um domingo, 1º de novembro de 1970, meu pai levou seus filhos caçulas, eu e meu irmão, ao estádio do Pacaembu, para uma partida entre o Corinthians e o Santos. Ele, desde cedo, gostava de ver o futebol nos estádios. Sempre revelava a sua predileção pelo Pacaembu, porque era central e permitia ver bem a partida, ver mais de perto. Era um final de tarde; o jogo começou às 18h. Lembro do elogio paterno por esse horário e não apenas nessa partida. Como ele trabalhava todos os sábados até o fim da manhã e considerava sagrado o almoço em família aos domingos, partidas começando às 15 ou 16h não eram recomendáveis. Esse Corinthians e Santos ocorreria em um dia interessante, vésperas do feriado de Finados.

Camisas históricas várias vezes em campo: Pelé, com a do Santos, e Rivellino, com a do Corinthians. Foto: Reprodução/Editora Contexto.

Essa não foi a primeira vez que via um jogo de futebol no estádio. Tenho lembrança de um outro em 1967, outro em 1969, além do que ficou perdido na memória. Mas essa partida de 1970 guarda uma especificidade fundamental: existia uma condição inédita, porque eu tinha alguma consciência dos jogadores de cada uma das equipes, já sabia da presença dos técnicos e mais clareza dos torcedores.

Vale destacar o contexto excepcional de 1970. O futebol brasileiro era reconhecido como o melhor do mundo. A conquista do tricampeonato no México, e a decorrente posse definitiva da taça Jules Rimet. A minha paixão por tudo que se relacionava ao futebol e, principalmente, ao Corinthians, apenas aumentava. Tenho a impressão que eu já lia o futebol a partir do Corinthians. Ao acompanhar atentamente cada partida da Copa do México, detinha um cuidado especial com os atletas que pertenciam ao meu clube do coração. Aos 8 anos, sabia que Roberto Rivellino era titular, um ponta esquerda falso, e que iria jogar com a camisa 11 porque a camisa 10 era do melhor jogador do mundo, Pelé. Outro convocado corinthiano era o jovem goleiro Ado, que chegara ao clube em 1969. Era o reserva do experiente Félix, do Fluminense. Reserva, sim, mas o primeiro reserva. Leão, também jovem e jogador do Palmeiras, era o segundo reserva. Ou seja, desde criança, sabia que a rivalidade não podia ser amainada nem em Copa do Mundo.

Com a referência corinthiana, fiquei muito orgulhoso com o primeiro gol brasileiro na Copa de 70, o de empate na primeira partida contra a Tchecoslováquia, anotado por Roberto Rivellino, em cobrança de falta, na meia lua, depois de uma infração sofrida por Pelé. Em outra partida, contra o Uruguai, duas novas emoções, outro gol do Rivellino e, na comemoração, Ado, vestindo a camisa 12, invade o campo e participa da comemoração dos atletas do selecionado nacional. Era o terceiro gol, o que selava a vitória brasileira e afastava o fantasma da derrota de 20 anos antes contra o mesmo Uruguai. Apenas mais tarde descobri como a semifinal da Copa de 70 estava cercada pelas incertezas produzidas pelo Maracanazzo. Mal sabia do maior trauma do futebol nacional. Na final, contra o selecionado italiano, outra invasão do goleiro Ado, desta vez para comemorar o gol de desempate marcado pelo Gerson. Um título com boa participação corinthiana.

Terminada a Copa, não faltaram comemorações, que se estenderam por muito tempo. A Rede Tupi de Televisão, por exemplo, nas suas transmissões esportivas, adotou um formato de provocar a lembrança da conquista do futebol nacional. Nas transmissões de futebol, em geral, nas reprises – os jogos ao vivo eram raros –, no momento de algum gol, a imagem dos jogadores comemorando o gol era destacada em um círculo e o resto da tela era tomado pela comemoração da torcida, com as bandeiras sendo agitadas. Ou seria o contrário? Ao fundo, o som de uma canção, ufanista, Sou tricampeão, lançada pouco depois da Copa. Obra de Marcos e Paulo Sergio Valle, em gravação dos Golden Boys:

Eu hoje, igual a todo brasileiro

Vou passar o dia inteiro

Entre faixas e bandeiras coloridas

 

Parece, até que eu estava em campo

Buscando a paz nos quatro cantos

Aquele gesto de erguer a taça ao povo

 

Companheiros

Vamos todos cantar a vitória

Pela raça ficamos com a taça

De melhor, entre os mais

 

Minha gente

A distância não tem mais sentido

Nosso grito de gol é ouvido

Pelo chão, pelo ar

 

Agora, só tenho a Copa em minha mente

Só vejo escrete em minha frente

Torci, sofri, mas afinal ganhei do mundo

 

Sou Tricampeão do Mundo

Sou Tricampeão do Mundo

Sou Tricampeão do Mundo

 

Eu sou

Eu sou

Eu sou……

(https://www.letras.mus.br/golden-boys/1276162/)

Na época do lançamento da canção, não tinha qualquer preocupação com a letra, mas, hoje, penso, o que os seus autores desejavam expressar com “minha gente/a distância não tem mais sentido”?

Infelizmente, mesmo vasculhando, de forma amadora, arquivos de imagens, não consegui rever essa referência da TV Tupi. A falência da emissora, em 1980, foi antecedida de uma séria crise econômico-financeira desde 1968. Grande parte do seu acervo se perdeu. Também não encontrei qualquer exemplar de um programa de domingo, apresentado por Gerdy Gomes, chamado Comendo a Bola, que reprisava gols de outras épocas. Olhei, com certa atenção, o material disponível na Cinemateca Brasileira e nada…

Enfim, em meio a esse caldo futebolístico no qual eu estava inserido, veio a partida contra o Santos, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A expectativa era grande. Pensei e falei da partida a semana toda. Iria ver, ao vivo, o Corinthians e a sua torcida, assim como parte considerável dos jogadores que, pouco meses antes, no México, haviam realizado a maior conquista de uma seleção de futebol até então: o tricampeonato mundial. Pelo Santos, Carlos Alberto, Clodoaldo e Pelé. Como Rivellino não jogou, foi importante ver o goleiro corinthiano, o mesmo das invasões de campo nas comemorações, o primeiro reserva na Copa. Além disso, eu veria os jogadores corinthianos, sendo que boa parcela deles já integravam os times, sempre do Corinthians, de futebol de botão. Nele, Paulo Borges, Ditão e Luís Carlos, entre outros. Ainda que a minha primeira lembrança fosse do goleiro Diogo.

Foi um jogo sem gols até os 30 minutos do segundo tempo. Diante disso, me lembro de sentir uma profunda tristeza. Será que o Corinthians não vencerá a partida? Não verei um gol corinthiano? Pode um jogo terminar sem gols, sem vencedor? Em meio a essas questões e à tristeza, uma dúvida: peço a Deus pela vitória corinthiana? Recordei uma orientação materna: Deus não podia ser acionado para as coisas do futebol; apenas para problemas sérios. Sem desrespeitar a minha mãe, fiz uma promessa pela vitória do meu time. Qual? Não lembro.

Aos 30 minutos do segundo tempo, momento no qual os portões do Pacaembu já estavam abertos para uma pequena multidão que não podia comprar o ingresso, também momento que alguns torcedores já começavam a ensaiar a saída daquele templo do futebol, veio o gol do Corinthians. Na minha memória, o goleiro santista Cejas estava fora do gol e o ponta esquerda adversário, Aladim, tocou de perna esquerda, para o gol vazio. Foi mais ou menos assim. Felizmente, há imagens:

Não me lembro de ter visto o segundo gol, de Paulo Borges, aos 45 minutos. Será que meu pai gostava de sair antes do jogo acabar? Eu, desde então, nunca fiz isso. Via e vejo as partidas do Corinthians até o final, sem me importar com as circunstâncias.

Essa partida inaugurou um olhar sobre os jogadores de futebol que via atuar, em grande parte, presencialmente. Ganhei gosto por ver alguns deles em campo. E sempre com a certeza de que os jogadores corinthianos eram os melhores em suas posições; ou seja, todos deveriam estar na seleção nacional. Guardava uma certa dúvida em relação ao Pelé. Mas como ele se despediu da seleção em 1971, e do Santos, em 1974, não restava dúvida: Rivellino era o maior jogador do Corinthians e do futebol brasileiro. A camisa 10 da seleção seria dele. Gostava muito de vê-lo atuar pelo time que o revelou.

Rivellino, vestindo a camisa 10 da seleção brasileira, em Brasil 2 x 1 Itália, Copa do Mundo de 1978. Foto: Acervo CBF.

Em março de 1973, em um sábado de Carnaval, jogo contra o rival Palmeiras, no estádio do Morumbi, que meu pai não gostava de ir e de ver a disputa da arquibancada. Era a final da Taça Laudo Natel. Tomamos um gol no início da partida e quase ao final do primeiro tempo, gol de falta do Rivellino. Foi bem à minha frente. Eu vi a bola sendo chutada com o pé esquerdo, passando pelo lado esquerdo da barreira e entrando do lado esquerdo do goleiro Leão, o segundo reserva da Copa de 70. Eu tive a impressão que a bola havia entrado lentamente no gol, mas logo fui corrigido pelo meu pai. Ele ressaltou a força do chute. Não há imagens desse gol e dessa partida.

No segundo tempo, próximo ao final da partida, outro gol corinthiano. Lance, de cabeça. Gol de Ernesto Luís Lance! Era o gol do título. “Corinthians campeão!” foi o grito das arquibancadas. A torcida, para os padrões da época, foi pequena: 36 mil. Saí do estádio feliz porque o Corinthians ganhou um título e não estava mais na fila por conquistas. Não tardou e fui alertado pelos meus amigos e colegas: não era um título de verdade. Então, o que era um título de verdade? Ser campeão paulista. Interessante como pouco se falava das disputas nacionais.

Para mim, a grande questão era reconhecer a ligação dos jogadores com os clubes. Entendia que os jogadores do Corinthians eram corinthianos. O mesmo valia para os outros clubes. Ou seja, era como se todos atletas do Corinthians tivessem uma história como a do Rivellino, que começou na base do clube, ainda que, vez ou outra, fosse acusado de vir de uma família de palestrinos e de chegar ao Parque São Jorge apenas porque foi recusado na peneira do outro parque. Eu sabia que o Zé Maria tinha vindo da Portuguesa, mas mostrava-se nascido no Corinthians. O mesmo valia para o Vaguinho ou o Lance, e tantos outros que tinham a marca corinthiana, assim reconhecidos pelos torcedores.

Ado, goleiro do Corinthians e da seleção brasileira em 1970. Foto: Reprodução.

Mas como eu via os jogadores que não atuavam no meu time de coração? Achava-os bons, mas não com a mesma qualidade do que haviam escolhido o preto e o branco. Leão era um bom goleiro, mas o Ado muito melhor. Fazia essa comparação o tempo todo, assim como meus amigos, corinthianos ou não. Lembro de uma partida, em 1976, na qual o Corinthians, para a minha imensa tristeza, não contava mais com o Rivellino, contra o Palmeiras. Fui ao Morumbi com um amigo palmeirense. Não só sentamos um ao lado do outro nas arquibancadas, como cada um levou a sua bandeira. A minha, é claro, era preta e branca, com tecido comprado na Cinerama do Bom Retiro e manufaturada pela Cidinha, uma costureira que morava e trabalhava na rua onde nasci. No primeiro tempo, um gol do ponta-esquerda corinthiano Romeu, em mais um gol tomado pelo segundo reserva na Copa de 70. No segundo tempo, em uma falha do goleiro Sérgio, gol de Ademir da Guia. Durante toda a partida, ficamos comparando os jogadores. É interessante como, mesmo vendo qualidades nos atletas adversários, não queria nenhum deles jogando no Corinthians.

Na minha vida de frequentador de estádios nos anos 1970, tive alguns privilégios, como ir aos estádios do Pacaembu, do Parque São Jorge ou do Canindé, ver jogos que não envolviam o Corinthians. Em uma dessas partidas, não me lembro contra quem o Santos jogou. Tenho na memória o alerta do meu pai quando o Santos entrou em campo: “Aquele é o Pelé”. O atleta do Santos, depois da equipe saudar a torcida, foi cumprimentar cadeirantes que estavam à beira do gramado. Mas há outra lembrança tão forte: em um sábado vespertino, com meu pai e meu irmão, havíamos ido passear pela cidade; não me lembro onde fomos. Voltando para casa, passamos em frente ao Pacaembu e percebemos que havia um jogo acontecendo e, pelo horário, os portões já estavam abertos. Entramos em um Santos e Portuguesa a tempo de ver um gol antológico do Pelé: dentro da área, recebeu a bola de costas, matou no peito e de virada, com a perna esquerda e sem pulo, mandou a bola para o gol do adversário. Ou seja, eu vi um gol de Pelé!

Mas o Pelé era um caso muito particular. A minha atenção era reservada para os jogadores que entravam em campo com as camisa brancas, calções pretos e meias brancas. Com exceções, é evidente, todos aqueles que alguma vez vestiram o uniforme corinthiano mereciam da minha parte o maior respeito. Vale ressaltar que até a mudança da lei do passe, entre outros fatores, as transferências eram menos frequentes, produzindo relações mais duradouras entre jogador, clube e torcida.

Mas, voltando ao jogo contra o Santos, o que eu não soube na época foi que, ao final da partida, capangas ligados ao presidente do Corinthians espancaram integrantes da Gaviões da Fiel, na avenida Pacaembu. O país da vigência do AI-5 se entrelaçava com uma ordem autocrática no clube do Parque São Jorge. Se não era fácil a vida de quem resistia ao autoritarismo nascido com o golpe cívico-militar de 1964, o mesmo valia para quem resistia aos desmandos no Corinthians. Mas essa é outra história.