109.1

Evento em Berlim discute contrastes entre futebol e sociedade latino-americana

Enio Moraes Júnior, Luciano Victor Barros Maluly

Futebol e Sociedade na América Latina foi o tema do Congresso da ADLAF (Associação Alemã de Pesquisa sobre a América Latina) sediado na Fundação Konrad-Adenauer, de 7 a 9 de junho de 2018, em Berlim, na Alemanha. Entre os diversos temas abordados, dois merecem destaque: as questões extracampo na América Latina e a participação brasileira neste cenário. Assim, o futebol tornou-se o eixo para discussões essenciais ao cotidiano, como a violência e as questões de gênero.

A política foi citada como um componente integrado ao esporte, da mesma forma que a mercantilização, o preconceito, a corrupção e a rivalidade, entre outros pontos. Neste contexto, foi discutida “a defesa da democracia como uma missão também do esporte”, resumindo algumas palavras do presidente da ADLAF, Thomas Fischer, durante a abertura do evento.

Contrastes da América Latina
A admiração que o futebol latino, especialmente o sul-americano, desperta na maioria dos povos chama a atenção dos europeus, que, assim, procuram “entender” os problemas aquém e além-mar. Distribuição de renda, monopólio dos meios de comunicação, instabilidade política e econômica, desapego à educação e epidemias são alguns temas recorrentes do lado de cá que, diretamente, interferem na “tranquila vida europeia”. Afinal, o Velho Continente se depara, novamente, com questões étnico-raciais, como a imigração e a inclusão.

Enquanto ouviam os relatos da admiração dos europeus pelo futebol-arte, os pesquisadores latino-americanos apresentavam as injustiças e, ao mesmo tempo, as alternativas. Com isso, buscavam apoio para a renovação do modo de pensar a América Latina, ou seja, transformar a realidade das pessoas que aqui sofrem nas mãos de governos corruptos e outros exploradores.

Karen

Profa. Dra. Karen Macknow Lisboa (USP) durante o evento na Fundação Konrad-Adenauer. Foto: Enio Moraes Jr.

Para compreender o Brasil
Não é de hoje que a Europa está querendo discutir e compreender o Brasil. Questões em torno da constante instabilidade política e econômica continuam a ser tema quando se fala do país do futebol, das belezas naturais, da comida boa, entre outros fatores que encantam os estrangeiros.

A ex-capitã da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, Aline Pellegrino, foi uma das convidadas do evento de abertura. Trouxe como exemplo a proposta do Guerreiras Project, que utiliza o futebol como ferramenta para revelar, analisar e combater preconceitos de gênero. A atleta mostrou um país marcado pelas desigualdades, mas que está lutando para mudar este panorama.

O outro convidado foi Antonio Leal, diretor e idealizador do CINEfoot, considerado o mais importante festival cinematográfico brasileiro sobre futebol. O cenário trazido por Leal foi desolador, ou seja, de um país em crise de identidade. Neste caso, a quebra da governabilidade é a causa do caos atual, exemplificado pela prisão e assassinatos (como de Marielle Franco) de políticos, sem falar na violência urbana e nas altas taxas de desemprego.

Porém, o futebol-arte ainda chama atenção dos europeus. Como um dos um dos símbolos de identidade nacional, este estilo de jogo caracteriza o povo brasileiro como criativo e lutador, lembrado pelo “jeitinho”, parafraseando Roberto DaMatta, antropólogo brasileiro sempre citado nesse congresso. A admiração ficou evidente quando começaram as apresentações dos pesquisadores ou mesmo de alguns curtas-metragens que foram exibidos no CINEfoot ou no festival alemão 11 mm, o principal sobre o tema no mundo.

A USP no congresso
A Universidade de São Paulo esteve presente na organização do evento por meio da professora e pesquisadora do curso de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Karen Macknow Lisboa. Além dela, a USP foi representada pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Popular e Alternativo (ALTERJOR) da Escola de Comunicações e Artes, que apresentou os resultados da primeira parte da pesquisa Brasil, Alemanha e Futebol: confrontos, mediações e multiculturalismo no jornalismo internacional.

Os pesquisadores entrevistaram jornalistas brasileiros sobre as relações multiculturais entre Brasil e Alemanha, tendo como base os dois confrontos em Copas do Mundo: a final de 2002, com vitória brasileira de 2 a 0, e a derrota de 7 a 1, na semifinal da Copa de 2014. A segunda fase da pesquisa entrevistará jornalistas alemães e a terceira confrontará as opiniões dos lados.

As conclusões da pesquisa do ALTERJOR resumem, em três frentes, o que foi o Congresso da ADLAF, principalmente no que diz respeito aos brasileiros e alemães. O primeiro ponto é que, apesar dos problemas, há uma admiração mútua, representadas pela organização alemã e pela alegria brasileira, com referência às respectivas seleções. O segundo observa que ainda há esperança de apresentar notícias que relatem a realidade brasileira, sem o uso de estereótipos e clichês. Por fim, os jornalistas, principalmente os especializados em esportes, estão em busca de uma narrativa que amplie as discussões para além das quatro linhas e revele as contradições da América Latina.