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A ex-namorada vestida de amarelo

Leandro Marçal

Já faz um bom tempo que não identifico na seleção brasileira o mesmo time pelo qual nutria paixão em minhas primeiras Copas do Mundo. É como se a teoria da morte do Paul McCartney substituído por um dublê também se aplicasse à camisa mais pesada do futebol mundial.

São jogos em estádios cada vez mais distantes, ingressos caríssimos e um clima de frieza. Os espectadores de suas partidas simulam apresentações infantis nas escolinhas, onde pais mimados ficam bravos se seus rebentos não ganham protagonismo quando interpretam uma árvore no palco.

Em outros casos, não passa de uma ex-namorada. Dessas cujo relacionamento já foi a antessala do paraíso, mas com o passar do tempo uma indiferença torna o afastamento inevitável. Sequer houve um desentendimento forte para o rompimento total. Depois de um tempo, em uma festa, acenamos à distância, pois sabemos que um contato ou muita conversa pode abrir feridas ainda não cicatrizadas.

Nem é que eu torça contra. Só sinto uma indiferença cada vez maior. Passa um amistoso na TV e meu desinteresse é o mesmo que nutro pelos reality shows. Sinto a seleção cada vez menos brasileira, como os realities são cada vez menos reality.

Torcedores fazem a festa antes do jogo do Brasil contra a Colombia pelas quartas de final pela copa do mundo, 04 de Julho 2014. Bruno Domingos / Mowa Press

Torcedora e a camisa da seleção brasileira. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

A vontade de pintar a rua, reunir a família e ver rivais gritando gol juntos sumiu. Talvez o fato de uma instituição tomar para si o que deveria representar um povo, novos ricos entrando em campos cada vez mais longe desse mesmo povo e a perda de relevância das seleções nacionais devem ter sua participação nesse desinteresse crescente.

Daqui a alguns meses, vai ter gente dizendo que não sofrer pelo selecionado de Tite é não ser patriota. Talvez por falta de conhecimento histórico, não devem saber que o patriotismo tem um quê de retrógrado e o lado mercadológico do futebol superou o amor pelos países de quem veste suas camisas já há algumas décadas. Prefiro não discutir e seguir aproveitando a festa.

Confesso que as tentativas de reconciliações foram sinceras. Depois do aceno à distância, vou pegar uma bebida e esbarro nos ombros da ex. Civilizados, nos perguntamos como anda a vida, de um jeito protocolar. As recordações do passado feliz percorrem a mente, mas os papos são de elevador. Uma piada interna remete a velhos tempos e cada um se pergunta como seriam as coisas se os caminhos fossem diferentes. E mesmo que a gente saia de lá para a mesma casa, não vai ser a mesma coisa. Sem mágoas, os valores já não são os mesmos e o prazer é momentâneo.

Como os das folgas no trabalho conforme o avanço da seleção brasileira na Copa do mundo. Sigo ciente do passado memorável, guardado com carinho. Mas, cada um foi para o seu lado, sem ressentimentos.