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Fair Play, malandragem e o gol de Luíz Adriano

Tiago Rosa Machado

O Fair Play virou um signo absoluto do que a pasmaceira social considera por bom-mocismo. Com um amplo e disforme conceito de “jogo limpo”, “respeito às regras, aos árbitros, adversários e torcedores”, e outros atributos de bom comportamento, desde a década de 90 o fair play vem sendo insistentemente estimado no futebol (em 1987 a FIFA inventou o prêmio Fair Play, que já foi entregue inclusive ao jogador Di Canio, famoso por comemorar gols com a saudação fascista) e seus valores extrapolaram os limites do esporte, ganhando emprego até mesmo nas relações pessoais e de trabalho. Dentro do campo de jogo, desrespeitar os princípios do fair play ganhou sentido nefasto e uma condenação quase inquestionável paira sobre aqueles que não seguem seus princípios.

Esse assunto é trazido ao debate após o gol marcado pelo brasileiro Luíz Adriano, que atua pela equipe ucraniana Shakhtar Donetsk, pela 5ª rodada da Liga dos Campeões da UEFA de 2012 (Nordsjaelland 2 x 5 ShakhtarDonetsk). Em síntese, o brasileiro teria “levado vantagem” em um lance no qual, por fair play, a bola estava sendo devolvida por um jogador do Shakhtar aos adversários do Nordsjaelland, da Dinamarca, uma vez que o jogo foi interrompido quando a bola estava em posse do time dinamarquês para que fosse providenciado atendimento médico a um jogador do próprio Nordsjaelland.

Fair Play – Foto: Julio Martinez – Flickr

Como pode ser notado pelo vídeo (ver ao final do texto), com o jogador nº 11 do Nordsjaelland (time de vermelho) caído próximo ao círculo central, é o próprio árbitro quem toma a ação de parar o jogo (mesmo com a bola estando em poder do time da Dinamarca, do que se deduz que os companheiros de clube poderiam, por iniciativa própria, jogar a bola pela linha lateral para que o atendimento ao jogador fosse realizado, mas não o fizeram) e depois o reinicia com um “bola ao chão”, procedimento que recoloca a bola em jogo para ser disputada por um jogador de cada time. Nesse ponto, qualquer jogador do Nordsjaelland abre mão de participar dessa disputa, crentes que os representantes ucranianos, por fair play, devolveriam a bola ao seu clube. Quando a bola é despretensiosamente chutada pra frente por um jogador do Shakhtar (time de branco) o beque e depois o goleiro do Nordsjaelland fazem menção de que participarão do lance, mas vendo que não terão como parar o rápido avante brasileiro, vão diminuindo seus impulsos e veem Luíz Adriano fazer o gol.

Agora, o interessante disso tudo é atentar para o tempo dos 27 segundos do vídeo. Pouco antes, o jogador do Nordsjaelland parecia ter sofrido uma lesão seríssima no rosto, virtualmente fruto de uma agressão do mesmo Luíz Adriano (poderia gerar uma expulsão?). Mas, vendo o lance com mais atenção, fica evidente que se tratou de uma simulação após um esbarrãozinho; àquela altura o Nordsjaelland vencia o jogo por 1×0 e alimentava alguma esperança de classificação para as oitavas da Liga ou ao menos para a Copa UEFA.

O magrelo Luíz Adriano, brasileiro, negro, foi malhado pela crítica internacional após fazer o gol e será até mesmo julgado pela UEFA com risco de receber sabe-se lá qual pena arbitrária. E o que ocorrerá com o alvo camisa 11 do Nordsjaelland? Em outras ocasiões, outros brasileiros já foram perseguidos por condutas semelhantes. Não se quer aqui vitimizar os jogadores brasileiros e tachá-los como perseguidos, mas é notável que nessa balança da justiça desportiva [internacional] os pesos e medidas são diferentes conforme a ocasião e os atores envolvidos.

Além disso, como estamos em tempos de colocar em xeque a afamada malandragem brasileira (principalmente dos jogadores que simulam faltas e pênaltis), vale a reflexão em relação ao sentido histórico dessas pequenas burlas às regras sociais. Francamente, estamos falando de algumas estratégias de sobrevivência que são frutos das imensas hostilidades criadas pelas próprias instituições que deveriam ordenar justa e socialmente os homens, mas que historicamente cumpriram e cumprem, sobretudo, um papel perverso de garantir a manutenção de determinados privilégios (geralmente econômicos). Evidentemente que no futebol a malandragem ganhou seus contornos próprios, mas, tal qual fora do mundo da bola, condená-la sem um olhar mais ampliado e atento a outros fatores sórdidos envolvidos parece incorrer num grande risco.

Fair Play Please! – Foto: Mayu – Flickr

Querer, como mais recentemente se tem feito, moralizar o futebol – esse fruto do massacrante processo civilizador moderno – seja por leis, regras ou pelos princípios do fair play, voltando-se para alguns jogadores, torcedores, agremiações e deixando de lado o verdadeiro mar de lama no qual nadam as Federações, Confederações, patrocinadores, cartolas, lobistas, árbitros, et-caterva, só pode ser o sonho dourado de quem simpatiza com a perpetuação das desigualdades e crê na ilusão da existência de um futebol pasteurizado, sem catimba, sem malandragem, sem pressão dos torcedores, talvez à moda dos antigos bem nascidos sportsmen, para que o futebol nunca deixaria de ser uma prazerosa atividade destinadas aos amadores do vigor atlético.

P.S.: Vale lembrar Rivaldo, que na final da Copa de 1998 tomou um esporro de Edmundo por jogar a bola pra lateral para que um jogador francês fosse atendido numa suposta contusão, enquanto o Brasil perdia por 2×0. Quatro anos depois, o mesmo Rivaldo cavou uma expulsão do jogador turco na duríssima partida de estreia, vencida pelo Brasil por 2×1, no início da campanha pelo Penta.