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“Fale sobre esporte”

Fernando Illanes

Sócrates (à direita) participando do movimento político Diretas Já em 1984, em São Paulo – SP. Foto: Jorge Henrique Singh/Wikipedia.

Na quinta-feira 30 de abril, o diretor de futebol do São Paulo e ex-ídolo da equipe tricolor Raí criticou a postura do presidente da República diante da crise agravada pela pandemia do Covid-19. Em entrevista para o globoesporte.com, o ex-camisa 10 sugeriu que o presidente renuncie caso continue “prejudicando ainda mais essa crise gigantesca de saúde”, e argumentou que um processo de impeachment desviaria o foco do combate ao coronavírus, e por isso deve ser evitado. No mesmo dia, Caio Ribeiro, também ex-jogador e comentarista da TV Globo, criticou o depoimento do dirigente, alegando que o mesmo teria falado muito sobre política e pouco de esporte. Segundo o UOL, o comentário teria desagradado parte considerável da redação, que vê o posicionamento de figuras importantes tanto na imprensa quanto no futebol como necessário diante das atitudes agressivas contra jornalistas por parte do governo, além de incentivar a volta precoce dos campeonatos de futebol.

“Fale sobre esporte”. É de longe a resposta mais encontrada nas redes sociais, quando jornalistas esportivos opinam sobre tópicos que, de alguma maneira, desagrada os seguidores no mundo digital. Em tempos de alta polarização política, e imersos em uma dissonância cognitiva completamente ignorante, manifestadas nas redes sociais e apoiadas por uma extensa rede de robôs e disseminação de informações falsas, o debate no mundo virtual é dominado por falsas simetrias e falsas verdades. Incansavelmente, a estúpida ideia de que esporte e política não se misturam é usada para demonstrar o descontentamento com determinada posição política. Pois falemos sobre esporte.

Caio Ribeiro disse que não se deve misturar o São Paulo Futebol Clube com política, tendo sua posição endossada por apoiadores do presidente. Será que estes têm conhecimento do início da história do clube e seu processo de popularização como instituição?

Delegação do São Paulo F. C. desfila na inauguração do estádio do Pacaembu. Foto: Reprodução/Diário da Noite, 30 abr. 1940.

Apenas dois anos após a fundação do clube, resultado da união entre membros da A.A. Palmeiras e Club Atlhetico Paulistano, o São Paulo Futebol Clube, criado com forte identidade paulista, representada inclusive nas cores da equipe, iguais às da bandeira do estado, emprestou a infraestrutura do então estádio tricolor, da Chácara da Floresta, para as tropas paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Reprimida por forças do governo provisório comandado por Getúlio Vargas, a revolta gerou um ressentimento da população do estado com o governo provisório. Já em 1940, com Vargas no poder como ditador do Estado Novo, o Pacaembu era inaugurado em um momento onde ostentar bandeiras estaduais era proibido pelo governo. Driblando a censura do poder central, os torcedores aplaudiram a delegação são paulina e as cores da bandeira, as mesmas da bandeira estadual, durante o desfile das equipes paulistas. Mais aplaudido que os populares Corinthians e Palmeiras, o São Paulo ganhava, na ocasião, o apelido de “O Mais Querido”.

Falemos de esporte. Do Corinthians bicampeão paulista em 1982 e 1983, que se destacava de fato fora das quatro linhas, quando a “Democracia Corinthiana” revolucionava o processo de tomada de decisões internas, horizontalizando o comando da equipe alvinegra estrelada por Sócrates, Wladimir, Casagrande, Biro-Biro e Emerson Leão. O último, embora não simpático ao movimento liderado por Sócrates, foi figura importante no segundo título estadual da sequência vitoriosa do time alvinegro. Além das inovações internas, o movimento teve papel honroso na campanha das “Diretas Já”, movimento que clamava pela aprovação da emenda Dante de Oliveira, que tinha o objetivo de reinstaurar as eleições diretas para presidente da República no Brasil, suspensas desde o golpe militar de 1964. Sócrates, irmão mais velho de Raí, discursou em diversos comícios para milhares de manifestantes. O maior deles aconteceu no dia 16 de abril de 1984, quando mais de um milhão de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

Sócrates discursa para milhares de pessoas no vale do Anhangabaú. Foto: Reprodução/TV Globo.

Na Europa, lembremos o simbolismo que o FC Barcelona possui na cultura catalã, onde o estádio Camp Nou é palco de diversas manifestações políticas pró-Catalunha, e bandeiras da região frequentemente são vistas na casa da equipe espanhola durante jogos do time de Lionel Messi.

Também na Europa, recentemente, a cobertura esportiva inglesa destacou a compra do Newcastle, tradicional clube do norte da Inglaterra e quatro vezes campeão inglês, por um fundo de investimentos saudita, comandado pelo príncipe Mohammed bin Salman, líder máximo da Arábia Saudita, ditadura com um vasto histórico de violação aos direitos humanos. Ainda que a Anistia Internacional tenha aconselhado a Premier League a não aprovar a compra, muito provavelmente os bilhões serão injetados no clube inglês, seguindo os passos de Chelsea e Manchester City, que receberam investimentos de origem controversa para subir de patamar e brigar por títulos. A política de investimento em clubes de futebol por líderes de países do Oriente Médio é chamada pela imprensa inglesa de “sportswashing”. É basicamente uma tática para esconder desagradáveis informações sobre o governo e se posicionar estrategicamente no cenário político internacional.

Manifestações políticas são frequentes em jogos no Camp Nou, em Barcelona. Foto: Wikipedia.

O futebol caminha ao lado da política desde que o esporte fora inventado, no final do século XIX. Dominado inicialmente pelas elites, o futebol refletiu a luta da classe operária por maior participação na sociedade e garantia de direitos mínimos. Equipes de origens populares lutaram, em todos os cantos do planeta, por um espaço entre os que comandavam o futebol antes deste se tornar o esporte mais popular do planeta.

Fora do cenário futebolístico, recordemos dos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968. No pódio dos 200m livre no atletismo, os afro-americanos Tommie Smith, que venceu a medalha de ouro e quebrou o então recorde mundial da prova, e John Carlos, com a medalha de bronze, celebraram com a cabeça abaixada e o punho cerrado e erguido, em uma das imagens mais icônicas do século XX. À época, os Estados Unidos viviam uma comoção por conta dos assassinatos de Martin Luther King e Robert F. Kennedy. Somados aos protestos contra a Guerra do Vietnã e o levante estudantil na França, a defesa dos direitos civis ganhava força no ocidente. O maior evento esportivo do mundo era palco para ativismo e mobilização política. Após o episódio, os atletas foram expulsos dos Jogos e recebidos nos Estados Unidos como traidores, inclusive sendo ameaçados de morte.

Os atletas norte-americanos Tommie Smith e John Carlos protestam durante premiação dos 200m livres nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, 1968. Foto: Wikipedia.

Em 2017, outro atleta afro-americano ganhou destaque no mundo por usar sua popularidade para se posicionar politicamente. Colin Kaepernick, então jogador de futebol americano do San Francisco 49ers, protestou contra a violência policial contra negros ajoelhando durante o hino nacional dos Estados Unidos. O polêmico gesto espalhou-se rapidamente, e durante a temporada inúmeros atletas repetiram o ato durante a execução do hino nacional antes das partidas. Após protestos de parte conservadora da sociedade, as próprias equipes, geridas e comandadas por donos milionários, passaram a evitar a contratação do quarterback, o que levou o jogador a processar a liga por boicote. A NFL sempre negou qualquer proibição à contratação do jogador, apesar de nenhuma franquia procurar o atleta, que meses antes era visto como um dos melhores da posição, tendo inclusive chegado próximo ao título da NFL em determinado momento da carreira.

A ideia de que política e esporte não se misturam continuará sendo propagada por aqueles que, incentivados pela intolerância, não concordam com uma opinião distinta. Política e esporte possuem profunda ligação. Em momentos de crise, como o qual vivemos atualmente, se faz necessário que figuras importantes do mundo do esporte usufruam da admiração e do reconhecimento que possuem como atletas para conscientizar e contestar autoridades políticas. Ao criticar publicamente a política genocida do presidente da República, Raí dá sequência ao legado ativista do irmão, que sempre viu na popularidade do esporte um importante lugar de fala para o povo. Onde esteve Caio Ribeiro quando o jogador Felipe Melo publicamente declarou apoio ao atual presidente do país? Talvez não seja necessário falar mais de esporte e menos de política quando a opinião alheia condiz com a própria posição política?