15.2

Falsa pero verdadeira crônica sobre as origens de River e Boca

Idelber Avelar

Como diria Borges, o que segue é verdadeiro, excetuando-se os nomes próprios, lugares e datas. A história é conhecida, mas vale a pena relatá-la aos mais jovens: corria o ano de 1905, na cidade de Buenos Aires, já a cosmopolita capital do território que, um par de décadas antes, havia concluído a matança de seus índios e optado pelo nome de República Argentina. O perfil da cidade se alterara bastante com a imigração, predominantemente operária e européia. No começo do século XX só os Estados Unidos receberam mais imigrantes que a Argentina. Vinham da Itália, Rússia, Europa central, Espanha. A maioria da Itália. No bairro operário de La Boca, havia dois times de futebol, River Plate e Boca Juniors. O bairro era da colônia italiana, mas os nomes dos times já mostram que, em matéria de futebol, a herança inglesa não se apaga facilmente.

O diacho é que não só tinham o mesmo bairro-sede, mas também idênticos uniformes: camisa branca com listras transversais vermelhas, como a seleção peruana. Habitar a mesma sede, vá lá, mas camisa igual ninguém aguenta. Foi marcada uma partida para decidir a questão. O acordo que fizeram essas duas equipes, no longínquo ano de 1905, sempre me pareceu um testemunho dessa máquina insólita que é o futebol: o vencedor manteria a camisa, mas teria que se mudar do bairro. O perdedor continuaria em La Boca, mas teria que arranjar outro uniforme. Só mesmo no futebol trocar de casa é mais fácil e aceitável que trocar de camisa. Trocar de partido, de cônjuge, de bairro, tudo isso não é nada. Trocar de camisa, eis aí a verdadeira punição.

A peleja foi disputada como o são todas as pelejas argentinas: brigada no meio campo, com muita catimba e provocação. Afinal de contas estava em jogo, literalmente, a camisa. A vitória foi dos alvi-rubros do River, que comemoraram a vitória como nunca; afinal de contas, mantinham o manto sagrado. Teriam que se mudar, mas encontrar outra sede não é nada para quem pode manter a camisa. Mudaram-se para o bairro de Nuñez, onde permanecem até hoje, e onde construiriam o Monumental estádio onde a Argentina ganharia seu primeiro título mundial, exatamente quarenta anos depois de sua inaguração.

Os então alvi-rubros do Boca Juniors, se tinham como prêmio de consolação manter a sede em La Boca, viam-se agora com a obrigação de encontrar outro uniforme. A solução é outra pérola do folclore futebolístico. Buenos Aires, então o porto mais importante da América Latina ao lado do Rio de Janeiro, recebia diariamente navios das latitudes mais variadas. Decidiu-se que as cores do time seriam as cores do primeiro navio que chegasse ao porto. Eis que chega um navio sueco, com a tradicional bandeira azul e amarela, e o povo pobre de La Boca passa a representar sua paixão pelo Boca nas cores suecas. A mais fanática torcida do mundo tinha agora outro uniforme: seria azul, com uma listra horizontal amarela. Como as paixões futebolísticas são decididas por acidentes, por contingências, por acontecimentos absolutamente desprovidos de qualquer necessidade ou previsibilidade, eis aí o verdadeiro mistério da fé.

A origem de Boca e River mostra que no futebol o sagrado não é a casa, é a camisa. E que a origem desse sagrado é sempre profana, acidental. Para que o sagrado mantenha sua mística, entretanto, sua origem profana deve ser ao mesmo tempo cultuada e escondida. Quantos de nós nos recusamos diariamente a declarar como nos apaixonamos por um time? Ao declararmos a origem de uma paixão, esta paixão de alguma maneira perde seu encanto, pois é remetida à banalidade dos acidentes cotidianos.

É próprio do futebol que, com o tempo, o que era causa vire conseqüência. Na copa de 78, o craque Johanssen, reserva da seleção sueca e formado em jornalismo, teve que ouvir uma insólita pergunta de um torcedor: “É verdade que essas cores de vocês foram inspiradas no uniforme do grande Boca?”. A esse torcedor, apaixonado, jamais lhe poderia ocorrer que a Suécia é mais antiga que o Boca Juniors. Johanssen, inteligente e conhecedor da mística do futebol, deu um sorriso maroto e respondeu: Sim, é verdade…

dezembro, 2005